Colapso do trabalho?

Luiz Sérgio Henriques
O Tempo,
Belo Horizonte, 10 maio 1998, p. 8




Um dos textos fundadores da modernidade, o "Manifesto Comunista" se propôs não apenas indicar as linhas fundamentais da engrenagem de um determinado modo de produzir riquezas, como também apontar o antagonista social e político, surgido inexoravelmente do funcionamento da própria engrenagem: exatamente, os trabalhadores, "os coveiros do capitalismo". Não há nisto, a rigor, nenhuma novidade, de tal modo a luta dos "de baixo" -- seja abertamente revolucionária, nos países de estrutura "oriental", seja gradual e reformista, nos países de estrutura "ocidental"-- condicionou estrutura e funcionamento das sociedades capitalistas, civilizando-as, por assim dizer, e retirando-lhes os aspectos mais selvagens.

O século e meio de lutas das classes subalternas representou, assim, independentemente de tragédias históricas como o stalinismo, um processo massivo de promoção social, realizado sob o signo da igualdade. A novidade de nossos dias consiste, ao contrário, nesta verdadeira "caça ao trabalho" empreendida não só teórica como praticamente, num contexto de revanche do capital, de acintosa legitimação ideológica das crescentes desigualdades, numa economia em que os ganhadores levam rigorosamente tudo.

Agora, chega a soar ingênua a idéia de que as forças do trabalho possam influenciar a sociedade e a economia, mesmo modestamente. Antigos conservadores, que ainda portavam valores não imediatamente assimiláveis à onipotência do "mercado" (valores como nação, tradições religiosas, integridade mínima da sociedade), são deslocados pela nova crença totalitária no funcionamento autônomo da economia liberal. Social- democratas, por toda parte, dirigem reformas nesta mesma direção, aparentemente sem maiores problemas éticos. E até velhos burocratas comunistas se reciclam como os novos detentores do poder econômico, no capitalismo mafioso que se ergue sobre os escombros do socialismo real.

As comemorações do último Primeiro de Maio aconteceram, pois, neste clima de derrota política e cultural. Um colapso do trabalho, para usar uma fórmula sintética, capaz de expressar sem restos o senso comum. A máquina econômica parece perseguir o sonho enlouquecido de funcionar sem seres humanos: "flexibiliza-se" o trabalho, quando "ainda" existe, no sentido de perda salarial líquida e destruição da rede social de proteção; aumenta brutalmente o contingente dos desempregados, como decorrência "inevitável" dos imperativos da globalização e da competitividade.

A não ser que nos conformemos com a possibilidade sombria deste novo Reich de mil anos, todas as razões para uma esquerda moderna e capaz de uma renovada capacidade hegemônica podem ser lidas no avesso do quadro acima delineado. Não são poucas, em primeiro lugar, as forças da tradição potencialmente mobilizáveis contra a perspectiva de verdadeira catástrofe antropológica com que nos ameaça a modernidade capitalista. Vale como exemplo, nada mais nada menos, a preocupação manifestada por João Paulo II justamente em sua mensagem por ocasião do último Dia do Trabalho: para o papa, o desemprego no mundo é "uma verdadeira desgraça social". O aumento da exploração e a degradação das condições de trabalho se chocam, evidentemente, com os princípios do solidarismo religioso.

No âmbito propriamente da esquerda, estão dadas as condições para a retomada da luta secular pela diminuição da jornada de trabalho e pela reconsideração de uma série de prestações de trabalho socialmente úteis e necessárias, mas habitualmente desprezadas e mesmo tornadas "invisíveis" (geralmente, trabalhos de "atenção", de "proximidade", que durante muito tempo tiveram uma exclusiva conotação feminina). O surgimento de um amplo movimento dos desempregados teria um efeito explosivo: de um momento para outro, contrariando toda a lógica que nos domina, uma parcela considerável (e crescente) da vida social cancelaria seu estatuto de "excluídos" e assumiria um inédito protagonismo, como sujeito político vitalmente interessado em rediscutir a redistribuição dos tempos sociais e a repartição dos enormes ganhos de produtividade realizados com as mudanças técnicas em curso.

Mais ainda: parece disseminar-se um pouco por toda parte a convicção de esgotamento do período de lutas parciais inaugurado -- para simplificar -- nos anos 60, com a chamada nova esquerda. A "política de identidades" estabeleceu, sim, novos sujeitos (minorias étnicas, sexuais, feminismo), mas também, em seu lado menos positivo, levou a "guerras de cultura" e a guetos, sem capacidade de universalização. E aqui de novo emerge a dimensão universal do trabalho, sob cujo lema as lutas sociais de nosso tempo podem ser unificadas, sem perda do caráter particular de cada um daqueles movimentos. Daí a imensa tarefa da reinvenção das formas do pensamento crítico e da política. Se falhar, que seja ao menos permitido o tom "blasé": um bom fim-de-século para todos nós.