8 de agosto de 2002



Descobri há pouco este sitio Gramsci e o Brasil. Vou passar a freqüentá-lo, com certeza, buscando aprender com ele. Espaços como este são muito importantes e vou divulgá-lo para conhecidos. Mas o que me faz escrever para vocês é um questionamento surgido a partir de uma leitura feita dias atrás.
Comprei na Bienal o livro recém lançado de Secco, sobre Gramsci e o Brasil, para tomar um pouco mais de contato com este pensador que conheci em meados dos anos 80, lendo uma obra de Gruppi sobre o Estado. Partindo daí, comecei a pensar sobre como a obra de Gramsci foi utilizada de forma aberta, servindo ao espectro político desde os comunistas até os liberais. Como essa questão da hegemonia na sociedade civil é complicada e gerou espaços para tantas interpretações.
Veio-me à cabeça, por essa diversidade, a atuação da CUT neste duro período de desemprego estrutural e redução da base operária. Formaram-se as ADS's (Agência de Desenvolvimento Solidário), que propõe o ‘novo cooperativismo’, inspirado nos socialistas libertários e utópicos do séc. XIX, calcado na autogestão e buscando a estruturação de redes de economia solidária para um espaço alternativo ao capitalismo, numa postura contra-hegemônica. Fazendo parte de seu grupo, há intelectuais do porte do prof. Paul Singer, cujos trabalhos leio há tempos. Tudo certo. Trazem então a idéia de ‘revolução social’ e ‘implantes socialistas’ nas fissuras do mercado capitalista. Aliás, chegaram a colocar que essas experiências são ‘socialismo já’. E isto, então, produz muitas controvérsias.
A história mostra que essas iniciativas acabaram por degenerar. Mondragón, no país basco, ou os kibbutzim israelenses permanecem como experiências isoladas. Recentemente a Folha de S. Paulo publicou um artigo sobre as cooperativas brasileiras, que mostra que as relações são tradicionais, capitalistas, etc. E, quando o mercado de trabalho melhora, muitos voltam para as carteiras assinadas. O próprio PT, que é tido como o maior partido da esquerda brasileira, não me parece ter a economia solidária como plataforma de luta. Aliás, será que a CUT toda aceita?
Fiquei pensando no Gramsci por conta da questão da hegemonia através do consenso, da cultura, do trabalho ideológico na sociedade civil. Pensei na guerra de posição. A CUT, através da ADS, está fazendo o papel de intelectual orgânico? Tenta ocupar a posição clássica do partido, reunindo e dando direção ao proletariado? É Gramsci?
Do pouco que sei, corrijam-me: parece que Gramsci, apesar da ‘gradualidade’ de sua estratégia, não fica apenas no consenso. A disputa na sociedade civil é dura. É aguda. Tem também coerção. Fiquei incomodado ao ler um artigo onde o prof. Singer explicava para empresários que 'economia solidária não expropria'. Pode-se chegar ao socialismo através de ‘convite à participação’? Onde fica o problema central da propriedade privada nisso?
A autogestão é uma ação cultural de impacto, certamente. Educação visando mudar comportamento dos participantes. Geração de vínculos solidários, negando as relações hierárquicas capitalistas. Acho até, do ponto de vista educacional, uma coisa muito interessante. Os indivíduos aprenderem a trabalhar em grupo via autogestão é formidável. Todavia, não consigo encarar a idéia do 'socialismo já' ou do 'implante socialista' com essas questões todas, com tal quantidade reduzida e insegura de experimentos. E ainda dependendo de verba do FAT.
Parece-me que Gramsci sempre teve em perspectiva as experiências dos conselhos de fábrica ocorridas em Turim. Entretanto, nem por isso achou que o socialismo estivesse já implantado. Era sim uma meta, partindo daí. E viu serem necessários outros suportes, como o partido, para expandir e ganhar força e terreno. Só assim o socialismo poderia ser realizado.
As estratégias, claro, podem não ser as mesmas do tempo de Marx ou do Oriente vivido por Lenin, contudo Gramsci não era socialdemocrata nem liberal. Era, ao que percebo, comunista. Socialismo, então, não é para conviver com a cruel hegemonia do capitalismo, humildemente postado num canto das ações sociais, resignado. Ele é a própria superação dessas contradições, cuja meta é a liberdade de todos, penso eu.
‘Socialismo já’ é desejo, precipitação, por melhores que sejam as intenções. O caminho ainda é árduo.
Abraços,

José Amaral