Encontro sobre Gramsci em Havana

Entre 30 de outubro e 02 de novembro de 2001 ocorreu em Cuba o Encontro Internacional "Gramsci e o mundo - Gramsci: filósofo, intelectual e político", organizado pelo Instituto de Filosofia de Havana. De cunho mais marcadamente filosófico, o encontro contou também com a presença de cientistas políticos, historiadores e sociólogos de diversos países: Itália, Estados Unidos, México, Argentina, Alemanha, Brasil, além de diversas intervenções cubanas. A organização do encontro muito deveu a Isabel Monal (diretora do periódico Marx Ahora), cujas intervenções vêm configurando uma leitura original e rigorosa de Gramsci, e a Romélia Pino Freyre, diretora do Instituto de Filosofia.
Houve uma certa redução do número previsto de participantes, em função de problemas ainda incidindo sobre os vôos internacionais, valendo entretanto ressaltar a qualidade - sobretudo em termos de exigência teórica - da organização do encontro e dos debates. Todas as mesas contaram com interlocuções consistentes, permitindo que o encontro não apenas expusesse um painel da recepção de Gramsci nos diversos países, mas também colocasse problemas atuais nos usos conceituais e analíticos do referencial gramsciano, além de diversos aprofundamentos em torno de conceitos como sociedade civil e hegemonia, por exemplo.
À guisa de exemplo, vale trazer alguns dos temas que suscitaram diversas intervenções. Em primeiro lugar, diferenças e divergências em abordagens que se utilizam de conceitual gramsciano, que poderiam distinguir entre um Gramsci de linhagem revolucionária e um outro no qual esse aspecto tende a ser reduzido ou diminuído. Esse ponto foi abordado diretamente na exposição de John Holst, ao tratar do conceito de sociedade civil e de tendências separando Gramsci da linhagem do marxismo através de interpretações sobre os "novos movimentos sociais".
Foi também tratado por G. Prestipino, que contrapôs as categorias de "moderantismo e extremismo" (que, ambas, tendem ao determinismo e se podem, às vezes, confortar alguma resistência, tendem à subalternização) às de "radicalismo e gradualismo", que não perdem a radicalidade do sujeito revolucionário, embora apontem para processos mais lentos de transformação social.
Na mesma direção inscreveu-se minha própria comunicação, analisando as formas de abordar historicamente o Estado no Brasil, através dos conceitos de hegemonia e crise de hegemonia. As exposições de A. Mazzone e S. Garrone tangenciavam a mesma questão, enfatizando a crítica às concepções pós-modernas e culturalistas que vêm se generalizando. Ambos trouxeram elementos de cunho conceitual para trabalhar, para o primeiro, a questão da dialética e da unidade e, para o segundo, as formas atuais da existência contemporânea, através da categoria "tempo".
Vale ressaltar outros pontos discutidos, sem nenhuma preocupação de exaustividade: a crise no mundo capitalista contemporâneo, com uma tendência ao aumento das formas coercitivas (censura, controle social, etc.) e uma possível fascistização do processo político mundial atualmente em curso; as possibilidades e limites da América Latina nesse panorama (Fernando Martinez).
Um tema muito interessante é o da trajetória da recepção dos escritos de Gramsci em Cuba e seus diversos momentos, que contou com diversas intervenções (Raul V. Vivó, Isabel Monal, A. Hart, Jorge Luis Acanda). A ressaltar dois aspectos nesse debate. Em primeiro lugar, o contraste entre a questão da hegemonia em Cuba, com o intuito de submeter o aparelho de Estado à sociedade civil, de forma que esta efetivamente controle o Estado, e as formas de construção hegemônica no capitalismo contemporâneo. Em segundo lugar, a importância de retomar Gramsci como pensador revolucionário, enriquecedor da teoria marxista, num período como o atual, quando a mundialização coloca a exigência de uma nova dialética entre o espaço nacional e o internacional.
Discutimos, ainda, a relação entre o pensamento gramsciano, as formas contemporâneas de organização dos diversos movimentos sociais (questões étnicas, de gênero, de jovens, etc. - G. de la Fuente) e sua relação com as formas da construção de uma contra-hegemonia; a constituição de formas híbridas de sociedade civil (como aparelhos privados de hegemonia) em âmbito internacional, exigindo portanto a constituição de formas contra-hegemônicas capazes de atuar nas duas dimensões: nacional e internacional (Thalia Fung).
Finalmente, quero mencionar a generosa acolhida dos amigos cubanos que, apesar de estarem em plenos preparativos para fazer face a um furacão extremamente perigoso, mantiveram todos os compromissos com alto nível intelectual e grande carinho pessoal.

Virgínia Fontes é professora de História da Universidade Federal Fluminense.