No Teatro do Museu da República, no Palácio do Catete (Rio de Janeiro), a partir do dia 7 de abril próximo estará em cartaz a peça Prisioneiro 7047, Antonio Gramsci, concebido dramaturgicamente e interpretado pelo diretor e ator Paulo Faustino. Os espetáculos serão às quartas e quintas-feiras, às 20h30, com censura livre.
Contatos com a produção: tel. (21) 2241-8766 e 9153-0500.
Abaixo, um comentário de Paulo Faustino sobre o que esperar da peça.

A vida é uma comédia, vista à distância, mas é um drama quando olhada de perto.
C. Chaplin

Kafka definiu o homem como uma vítima da história - prefiro no plural, das histórias -, porque muitas são as histórias que se conjugam para formatar uma vida, desde as histórias de nossos antepassados até as do presente - histórias pessoais e coletivas. Elas se encontram em sucessivas interações e num infindável processo de multiplicação, decorrentes e alimentadas por um emaranhado de interesses e jogos de pequenos e grandes poderes, potencializadas ou limitadas por um conjunto de fatores políticos e culturais.
O próprio Kafka usou a expressão “sentimento trágico da vida”, que não é uma manifestação patológica similar ou sintomática do estado maníaco-depressivo, mas é decorrente da capacidade de poucos para entender verdadeiramente o processo histórico não só em suas complexidades, mas, acima de tudo, em suas consequências, como a deformação do caráter humano e a perda permanente de tantas vidas inocentes e de modo tão estúpido. Como se fosse natural aceitar dentro da raça humana os princípios da seleção natural das espécies que regem a vida dos animais: a lei dos mais fortes.
O drama de Gramsci poderia ser mais um entre outros - sem pretender minimizar ou inferiorizar os demais -, em que um homem é submetido à brutalidade e à arbitrariedade de um regime autoritário e declaradamente fascista. Certamente, todos conhecemos outros exemplos, talvez até algum mais covarde, pois, desde que o mundo é mundo, não faltam indivíduos ou grupos que assumem o poder para exercer seus baixos instintos e suas taras.
O que realmente singulariza o drama de Gramsci é o fato de que ele entende o processo histórico em que está inserido e reage com total serenidade diante dos fatos e desdobramentos que irão levá-lo à sua destruição física e, consequentemente, à morte. Teme por sua saúde física, quando, por exemplo, é colocado em uma cela com quatro prisioneiros tuberculosos ou quando pressente que a rotina carcerária - “É uma máquina monstruosa que achata e aniquila segundo uma certa série” - pode sorrateiramente deformar sua personalidade. Mas conscientemente resiste: “[...] a prisão e a condenação, eu mesmo as quis, de certo modo, porque jamais admiti mudar as minhas opiniões, pelas quais estaria disposto a dar a vida, e não apenas permanecer na prisão.”
Prisioneiro 7047, Antonio Gramsci foi escrito a partir de uma coletânea de cartas - em alguns casos trechos - de Gramsci com os seus familiares, sem nenhum critério de tempo ou tema, mas com o objetivo de reproduzir os pensamentos e sentimentos de maior simbolismo dentro do processo de resistência física e moral a uma condenação decorrente de um “julgamento” em um tribunal de exceção - cuja sentença atendia ao desejado pelo regime fascista, tão bem explicitado pelo promotor público: “É preciso impedir que este cérebro funcione por vinte anos”. Outros elementos cênicos e dramatúrgicos estão agregados para compor o espetáculo teatral.