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ATLAS MUSICALIS:
UM PARALELO ENTRE A ESTÉTICA
COMPOSICIONAL DA MÚSICA ERUDITA CONTEMPORÂNEA
E A CARTOGRAFIA
&
SONORUS
URBIS
Uma trajetória histórico-sonora
eletroacústica da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais,
Brasil, de 1700 a 2000
(Peça editada em compact
disc em 2001, sob os auspícios da Lei
Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, Fundação
Cultural Alfredo Ferreira Lage)
SUMÁRIO
1 RESUMO
- ABSTRACT
2 INTRODUÇÃO
3 MODELOS
DE NOTAÇÃO MUSICAL E PROCEDIMENTOS MUSICAIS CARTOGRÁFICOS
4
:
uma trajetória histórico-sonora eletroacústica
da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais,
Brasil, de 1700 a 2000 (inclui extrato em MP3).
Peça editada em compact disc (tempo total: 72:30)
em 2001, sob os auspícios da Lei
Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, Fundação
Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA), Prefeitura
de Juiz de Fora.
4.1 ENCARTE
DO CD SONORUS URBIS: TEXTO DE APRESENTAÇÃO, ITINERÁRIO
HISTÓRICO-SONORO E BIBLIOGRAFIA
4.1.1 Texto
de apresentação
4.1.2 Itinerário
histórico-sonoro
4.1.3
Bibliografia
4.2 LISTA DE
COMPOSIÇÕES MUSICAIS CITADAS NA PEÇA SONORUS
URBIS
5 CONCLUSÃO
6 BIBLIOGRAFIA
RECOMENDADA
1 RESUMO
- ABSTRACT (Commentary about the cartographic electroacoustic
compositions, #1 and #2, CD Rural Profiles of Minas Gerais:
First Impressions, Paulo Motta, 1999).
These works integrate The Atlas Musicalis Project,
that utilizes topographic tales to make graphic musical compositions.
The result are the cartographic scores, that is elaborated with
topographic profiles and field observations. These relief profiles
are designed with grafich resources that enable a chance and/or
determinated treatment of acoustic, eletctronic and electroacoustic
timbres and determinated and indeterminated compositional procedures.
In the case of these works, the topographic profiles indicates
the pitch wheel contour of the frequencies. Superposing these
contours, the result is a massive texture of electronic sounds,
that simulates the mountains and its “massive” structure. These
procedures indicates that when we look to the mountains we are
“listen” a modality of music that include in its structure the
progressive transformations of the earth relief: so, the mountais
are considered a “occurrence” and all the planet is a admirable
and complex score.
2
INTRODUÇÃO
O projeto Atlas Musicalis: Música Cartográfica
surgiu embrionariamente no final de 1984. Nessa época,
eu estava envolvido com a leitura de textos e análise de
partituras de música eletroacústica. E, em um dos
textos, uma frase de John Cage chamou-me a atenção:
"A música transcorre permanentemente... Em uma outra
passagem, que se mostrou ainda mais instigante para mim, Cage
comenta um ensaio de Charles Ives, onde este último fala
da possibilidade das pessoas ouvirem "sua própria
sinfonia", a qualquer momento, independentemente de estarem
nas salas de concerto. (Ainda não havia tomado conhecimento
das pesquisas de Murray Schafer acerca das "paisagens sonoras"
(soundscapes) iniciadas no início da década
de 1960!). No final do ano seguinte, esse estudo redundou na idéia
de realizar uma partitura sobre a planta do Parque Halfeld (Juiz
de Fora, Minas Gerais , Brasil), a partir da observação
e representação gráfica dos sons que ocorriam
no parque e em suas imediações. O texto a seguir
foi escrito por mim em um canto da partitura (circunstancialmente
de grandes dimensões, diga-se de passagem, devido ao fato
de ter sido feita sobre a planta original do parque):
A idéia de elaboração deste trabalho
surgiu a partir da leitura de um texto escrito em 1965 por John
Cage em seu livro De segunda a um ano, sobre a obra de Charles
Ives. Neste texto ele comenta o fato de ter lido um ensaio de
Ives, onde ele imaginara a possibilidade das pessoas poderem,
em qualquer lugar e a qualquer momento, ouvirem "a sua própria
sinfonia", sem a necessidade de partituras ou executantes ou de
se dirigirem às salas de concerto. Em minha opinião , uma idéia
maravilhosa! Decidi, então, experimentar essa idéia, escolhendo
um local central da cidade de Juiz de Fora, onde está "música"
pudesse eventualmente se manifestar com maior proeminência. Observei
e anotei os sons ambientais (urbanos e não urbanos) à minha volta,
por vezes utilizando-me da notação musical tradicional e/ou contemporânea;
e; quando os sons não se apresentavam grafáveis com essas categorias
de notação musical, criando um grafismo que representasse o som
ouvido. Os locais de observação (escuta) foram escolhidos procurando
abranger ao máximo a área delimitada para a experiência. procurei
fazer as observações nas datas e horários os mais variados possíveis.
Procurei, por outro lado, estipular um mesmo período de tempo
de observação, independentemente do período do dia (manhã, tarde
ou noites). A observação realizada em uma parte do dia foram propositalmente
repetidas, tendo em vista comparar os sons percebidos em diferentes
dias (por exemplo, foram feitas observações em três dias diferentes,
mas sempre pela manhã ou sempre à tarde). a partitura foram documentados
graficamente apenas os sons que se manifestavam com maior evidência.
Após a terceira ou quarta observação, tornou-se possível, para
mim, perceber uma certa "harmonia" particular existentes nos sons
urbanos. Eles, os sons, pareciam se organizar "naturalmente",
sem haver necessidade de um esforço consciente de minha parte
para que essa organização fosse percebida como tal: a atmosfera
sonora da cidade, na qual prevalecia os sons "artificiais", "duros"
e ,"pouco agradáveis", apresentava uma certa "organicidade" que,
considerei eu, apenas poderia ser assim percebida e considerada
se nos permitíssemos nos entregar a uma escuta atenta e direcionada
da miríade de sons que surgiam a todo momento e que a constituíam.
A "sinfonia urbana", como poderia ser denominada, que a prior
é sempre considerada "caótica", "desconexa", "irritante", passou
a ser percebida por mim - à medida que a minha experiência prosseguia
- como detentora de uma estrutura surpreendentemente particular.
Obviamente que os sons percebidos não se organizavam por si mesmos:
foi o meu processo de escuta - atenta, direcionada e eventualmente
com um "propósito"- que os organizou. As sonoridades passaram
a ser percebidas com uma "coerência" entre suas durações, timbres...
A música está em toda parte, basta querermos ouvi-la...
A notação musical pode ser definida
como sendo um sistema gráfico duplamente funcional, e que
objetiva a representação de todas as gradações
e alterações dos parâmetros musicais (ritmo,
intensidade, altura, timbre e espaço), bem como pausas
rítmicas, intervalos e silêncios que dimensionam
a sua aplicação. De um modo geral, porém,
é a execução musical que dá ensejo
à criação de uma notação inédita,
sendo que a necessidades expressivas do compositor condicionam
a instauração de suas principais características
e o seu aperfeiçoamento. Por outro lado, fatores externos
também contribuem a um determinado sistema notacional para
que tal fato venha a ocorrer, tais como os meios materiais à
disposição do compositor para a realização
da escritura e os meios de impressão e difusão de
seu trabalho. Verifica-se, assim, uma interdependência entre
a “cultura subjetiva” presente no sujeito (suas preferencias pessoais,
por exemplo) e a cultura objetiva da sociedade como um todo que
coexistem influenciando-se mutuamente. A notação
musical, exatamente por ser uma escritura, está sujeita
às mesmas transformações e idiossincrasias
de um idioma ou de uma linguagem musical. Este seria o principal
motivo das constantes transformações a que se submete,
antes de se consolidar naquilo que hoje conhecemos como notação
musical ortocrônica (do grego orto (regra) e chronos (tempo).
Ou seja, cada figura recebe, não um valor relativizante
ou proporcional, mas sim uma quantificação rígida
no que tange ao seu aspecto temporal. O rompimento com tal modalidade
de notação tem seus antecedentes no início
do século XX, quando alguns compositores - notadamente
Claude Debussy (1862-1918)
e Arnold Schoenberg (1874-1951)
- introduzem elementos composicionais (modos antigos e escalas
exóticas, e nivelamento das funções e hierarquias
das doze notas da escala temperada cromática, respectivamente)
que minam as bases do sistema tonal. A análise das partituras
produzidas a partir desse período demonstra a existência
de três orientações preponderantes, quais
sejam: 1ª. A liberação da tonalidade, citada
anteriormente; 2ª. A liberação da simetria
e periodicidade rítmicas, iniciada por Igor
Stravinsky (1882-1971), passando por Oliver
Messiaen (1908- 1992) e seu modo de valores e intensidade,
chegando ao seu ápice com o multi-serialismo bouleziano;
e 3ª, a busca de novas sonoridades instrumentais, eletrónicas
(sons processados exclusivamente por meios eletrônicos e
onde todos os parâmetros são previamente determinados
pelo compositor) e concretas (gravação e manipulação
eletroacústica de sons naturais). Contudo, o panorama musical
do século XX apresenta-se extremamente diversificado e,
mesmo diante de tal diversificação, duas estéticas
composicionais se destacam: a Música Eletroacústica
(na qual as elaborações musicais alcançam
um alto grau de (a fusão da vertente eletrônica com
a concreta); e a música aleatória, na qual o intérprete
tem à sua disposição um amplo campo de atuação
pessoal. Assim como nos processos musicais aleatórios,
a música, em suas origens, aproximava a função
interpretativa da função composicional. O desenvolvimento
histórico e sócio-cultural da humanidade, , solicitando
uma especialização crescente de seus participantes,
legou aos intérpretes o hábito de ler e executar
obras de outros músicos, negligenciando a música
como expressão espontânea do ser humano. Os processos
aleatórios surgidos no decorrer deste século, recuperam
este caráter unificador existente entre execução
musical e composição, delegando ao intérprete
muitas de suas prerrogativas e possibilidades originais. A sua
atuação passa a se estender desde a concepção
total da obra, até a intervenção nas indicações
previamente estabelecidas pelo compositor. Dentro da multiplicidade
de alternativas que integram o diversificado conjunto de símbolos
sonoros criados com o advento da música aleatória
- e da Música Eletroacústica -, tendo em vista a
viabilização de novos meios expressivos e interpretativos
propostos pelos compositores, há ainda a possibilidade
de se buscar em outras disciplinas, notoriamente extramusicais,
elementos (“materiais”) que estimulem a composição
musical, enriquecendo significativamente a notação
musical. Tal é o caso do Projeto Atlas Musicalis,
denominado em seu conjunto de Música Cartográfica,
o qual procura integrar na estruturação composicional
das partituras, perfis topográficos elaborados a partir
de curvas de nível de mapas geográficos e de observações
de campo, onde os contornos de relevos rurais (elevações
e planícies) são graficamente reproduzidos, possibilitando
um tratamento aleatório e/ou determinado de timbres acústicos,
eletrônicos e eletroacústicos e procedimentos composicionais
e interpretativos determinados e indeterminados. Além de
ser possível a utilização do relevo topográfico
na estruturação gráfica das partituras, esta
modalidade de notação musical permite um amplo uso
da distribuição espacial de timbres eletrônicos
e eletroacústicos como referência ao estudo do espaço
ambiental na ciência geográfica, assim como a citação
das diversas culturas do planeta e sua imensa variedade musical
que, por sua vez, se relaciona ao grande número de sonoridades
passíveis de serem integradas à tessitura sonora
das partituras. A integração dinâmica desses
timbres e culturas musicais procura traçar um paralelo
entre a ocupação espacial geográfica relativamente
específica a cada cultura musical propriamente dita e a
globalização das mesmas; globalização
esta gerada pelos meios de comunicação e transporte,
de difusão cultural , e pelo intercâmbio fonográfico
presentes na civilização contemporânea. Devido
a esta possibilidade de contato com os mais variados tipos de
música, tanto do passado quanto do presente, tornou-se
acessível à grande maioria de homens e mulheres
do mundo contemporâneo o conhecimento de praticamente todas
as culturas musicais existentes. Além da aproximação
entre música erudita contemporânea instrumental e
eletroacústica e a Cartografia, há a possibilidade
de se fazer referências a conceitos relacionados à
Estética Comparada, à Epistemologia, à Psicologia
Transpessoal, à Física Quântica e à
tradição espiritual oriental e ocidental, objetivando-se
ampliar as relações transdisciplinares entre música
e ciência cartográfica. Além disso, elegeu-se
como elemento catalisador dos padrões de integração
perceptiva a estética composicional da música erudita
contemporânea. Em complementação a esses estudos
e novas possibilidades, verificou-se que as semelhanças
existentes entre a notação gráfica da música
erudita contemporânea e os perfis topográficos do
relevo terrestre, qualificariam a Música Cartográfica
como o equivalente estético da visão de mundo recentemente
proposta pela Hipótese de Gaia , a qual afirma que o planeta
é um ser vivo auto-regulador que se transforma e se mantém
pela interação dinâmica de seus constituintes
(incluindo-se, obviamente os seres humanos). Além dessa
característica, essas semelhanças evidenciariam,
no nível propriamente musical, a convergência da
dissonância com a consonância, assim como dos processos
composicionais e interpretativos aleatório e indeterminado
com os processos determinísticos e causais. Ou seja, um
movimento musical cíclico e ininterrupto, direcionando-se
permanentemente do caos ao cosmos e vice-versa, que simularia,
através de procedimentos composicionais e interpretativos
as constantes transformações pelas quais vem passando
o planeta. Tal movimento também possibilitaria a formação
de totalidades musicais orgânicas interdependentes, constituídas
por intérpretes, sons, partituras, público e meio
ambiente, dentre outros elementos. Ou seja, a constatação
em termos estéticos de que o planeta não apenas
sustenta a vida, mas sim que ele mesmo é um ser vivo que,
a partir das perspectivas da Música Cartográfica,
se-nos permite expressar pela interação dinâmica
dos elementos que participam dos processos de composição,
interpretação e audição musicais oriundos
da notação musical cartográfica.
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3 MODELOS
DE NOTAÇÃO MUSICAL E PROCEDIMENTOS MUSICAIS CARTOGRÁFICOS
3.1 PERFIL MELÓDICO: A primeira modalidade
constitui-se ao se traçar o perfil melódico de partituras
escritas com a notação tradicional, derivando-se
daí o “relevo” melódico implícito na obra.
Muito significativamente tal procedimento foi utilizado por Arnold
Schoenberg como recurso de análise de partituras da música
erudita clássica e romântica.
3.2 MAPAS GEOGRÁFICOS, CURVAS DE NÍVEL
E PERFIL TOPOGRÁFICO: A segunda modalidade de partitura
cartográfica pode ser concebida da seguinte forma: o se
utilizar mapas geográficos, extrai-se deles as curvas de
nível e, posteriormente, o perfil topográfico -
que, por sua vez indicará os parâmetros de altura
e/ou intensidade. Nessa modalidade de notação cartográfica
pode-se inferir a cada nota do relevo uma valoração
musical específica, construindo-se, conseqüentemente,
uma partitura na qual as seqüências de altura, intensidade
e duração de cada freqüência segue o
valor das cotas existentes nas curvas de nível d mapa geográfico
(anteriormente usado para a obtenção do perfil topográfico.

Extrato da partitura cartográfica
de Sonorus Urbis na qual aparece o perfil topográfico
das montanhas que circundam a cidade de Juiz de Fora. Composta
originalmente em 1992, esta partitura foi utilizada tanto na criação
de sons eletrônicos quanto no reprocessamento computacional
das sonoridades registradas in loco que integraram a peça
Sonorus Urbis.
3.3 OBSERVAÇÃO DE CAMPO: A terceira
modalidade de notação musical cartográfica
é elaborada pela observação direta (observação
de campo) do relevo terrestre, registrando graficamente o contorno
topográfico do mesmo. Nessas três modalidades de
notação musical cartográfica, pode-se ainda
indicar, com a grafia sonoro-musical (tradicional e/ou contemporânea),
uma série de procedimentos e valores determinados e/ou
aproximativos do padrão rítmico a ser executado,
das variações de dinâmica e da tessitura sonora
a ser obtida ela interpretação musical, seguindo-se
ou não o padrão - sobretudo rítmico - da
partitura original (neste último caso, tratando-se da primeira
modalidade de notação musical cartográfica).
3.4 TEMAS MUSICAIS E'TNICOS E TRADICIONAIS: Nesta
modalidade de partitura cartográfica são utilizados
temas musicais étnicos e tradicionais a partir de uma pesquisa
musical de determinada região geográfica. A partitura
poderá, assim, incorporar aspectos harmônicos, melódicos,
timbrísticos e rítmicos de uma cultura músical
específica, os quais serão trabalhados como estrutura
composicional do texto musical.
3.5 DEPOIMENTOS: Refere-se à pesquisa dos
depoimentos de personalidades que se destacam na vida sócio-político-cultural
de determinada cidade e/ou região, registrados em suportes
variados, documentos sonoros que serão posteriormente incorporados
à composição cartográfica.
3.6 DOCUMENTAÇÃO FONOGRÁFICA:
Refere-se à pesquisa de produtos fonográficos eventualmente
realizados em determinada cidade e/ou região. São
utilizadas amostras sonoras a serem posteriormente incorporadas
à composição cartográfica.
3.7 AMOSTRAS DE SONS DE PELÍCULAS CINEMATOGRÁFICAS:
Refere-se à pesquisa de documentação de áudio
inseridas nas películas cinematográficas eventualmente
produzidas em determinada cidade e/ou região. São
utilizadas amostras sonoras a serem posteriormente incorporadas
à composição cartográfica.
3.7 AMOSTRAS DE SONS DE PROGRAMAS RADIOFÔNICOS
E TELEVISIVOS: Refere-se à pesquisa de documentação
de áudio de programas radiofônicos e televisivos
eventualmente exibidos em determinada cidade e/ou região.
São utilizadas amostras sonoras a serem posteriormente
incorporadas à composição cartográfica.
3.8 REGISTRO IN LOCO DE SONORIDADES RURAIS
E URBANAS: Trata-se da documetação, em suportes
variados, das sonoridades produzidas - em tempo real - em determinada
cidade e/ou região. Após os procedimentos de análise
e classificação do material gravado, o mesmo é
eletroacusticamente trabalhado e inserido na composicão
cartográfica.
3.9 MAPEAMENTO GRÁFICO DE SONORIDADES RURAIS
E URBANAS: Trata-se da realização de mapas sonoros
utilizando-se plantas ou cartas geográficas de determinado
local ou cidade/região. Na verdade, consiste na criação
de signos gráficos inseridos nesses suportes e que servirão
para orientar o processo de composição cartográfica
propriamente dito e/ou como um recurso para orientação
gráfico-logística para o registro in loco
de sonoridades rurais e urbanas.
(Os modelos de notação musical e
procedimentos musicais cartográficos acima descritos, poderão
ser usados separadamente ou em conjunto, tendo em vista a confecção
de partituras e/ou composições eletroacústicas).
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4 : uma trajetória
histórico-sonora eletroacústica da cidade de Juiz
de Fora, Minas Gerais, Brasil, de 1700 a 2000*
Ouça
um trecho da seção 3 - 1898-1940
- Atenas em Minas (22050 Hz, 16 bit, stereo, 581
Kb, 02mins.28segs.) -, da peça Sonorus Uurbis (em
MP3).

Em meados do século XX, surgem duas vertentes
composicionais que utilizam meios tecnológicos para a composição
de peças musicais: a vertente francesa - denominada Musique
Concrète, surgida em Paris, utilizando sonoridades
registradas por microfones e que eram, após o registro
propriamente dito, processadas através de recursos eletrônicos;
e a vertente alemã - a Elektronische Musik ou Música
Eletrônica "pura" - surgida em Colônia,
na qual as sonoridades eram produzidas por geradores de ondas
sonoras -, no sentido de que os sons eram sintetizados ou construídos,
utilizando-se exclusivamente aparelhos eletrônicos. Essas
duas escolas mantinham, inicialmente, posturas antagônicas
quanto aos métodos composicionais e a escolha do material
sonoro. A aproximação de ambas (resultando no que
posteriormente se denominou música eletroacústica)
se dá a partir do momento em que alguns compositores eletrônicos
- notadamente Luciano Berio (com as peças Thema
- Omaggio a Joyce e Epitaph für Aikichi Kuboyama)
e Karlheinz Stockhausen
(com a peça Gesang der Jünglinge) - passam
a utilizar a voz em suas obras, inaugurando, no âmbito da
composição erudita do século XX, uma relação
extremamente profícua entre fonologia e música.
Desenvolvimentos posteriores, criaram inúmeras modalidades
de composição eletroacústica, ampliando significativamente
o repertório musical do século XX cujas obras promoviam
a interação entre recursos tecnológicos e
composição musical. Durante os anos 1960, o compositor
canadense Murray Schafer cria o conceito de Soundscape ("Paisagem
Sonora"), uma reflexão sobre os variados ambientes
sonoros existentes no planeta. Mais exatamente, Schafer propõe
uma nova e minuciosa escuta das inesperadas sonoridades do nosso
universo sonoro imediato, bem como a "recuperação
dos sons que já nos atravessaram, hoje já esquecidos".
As propostas do compositor canadense não se relacionavam
diretamente com a composição eletroacústica,
mas suscitaram em alguns compositores o interesse pelo registro
das sonoridades do meio ambiente. (Como exemplo, podemos citar
as peças Vozes da Cidade e Natal del Rey.
A primeira, composta pela brasileira Denise Garcia, utiliza sons
coletados das ruas da cidade de São Luís, seguindo
as locações mencionadas no livro Poema Sujo, de
Ferreira Gular. O material sonoro de Natal del Rey, do compositor
uruguaio Conrado Silva, se compõe exclusivamente de gravações
de folguedos folclóricos brasileiros realizados durante
o período natalino). Também a partir das idéias
de Murray Schafer, várias instituições, tais
como a The Frost Centre for Canadian Heritage and Development
Studies (sediado na Trent University, Canadá) e a Canadian
Association for Sound Ecology passaram a promover diversos
eventos de "ecologia sonora". (Em julho de 2000, por
exemplo, essas instituições apresentaram um evento
denominado A Conference on Acoustic Ecology, no qual ocorreram
palestras, conferências, concertos musicais etc). Eventos
dessa natureza têm sido realizados em vários países,
objetivando-se a promoção e o desenvolvimento de
pesquisas interdisciplinares no âmbito da ecologia acústica,
abrangendo os campos da ciência, comunicação,
educação, ativismo, artes e indústria. Essas
instituições convocaram pesquisadores das inúmeras
áreas de conhecimento a enviarem trabalhos que, nesta passagem
de século e de milênio, nos levem "a considerar
a cultura da geografia sônica em suas dimensões política,
ideológica, ecológica, nostálgica, econômica
e artística". Os organizadores da Conference on
Acoustic Ecology, por exemplo, colocaram em destaque as seguintes
questões: como podemos definir e mensurar o espaço
sônico? Que lições podemos apreender do estudo
das paisagens sonoras históricas? Quais os efeitos da globalização
na paisagem sonora do planeta? Como e em quais perspectivas as
alterações da paisagem sonora afetam as culturas
regionais? Quais os métodos mais adequados para a medida
qualitativa da cultura sônica? Como podemos efetuar comparativamente
a valoração das relações entre o espaço
sônico privado e o público? Quais as relações
entre o espaço sônico e o ativismo político?
Como poderemos realizar o melhor "desenho" de nossas
paisagens sonoras futuras, e com qual autoridade? Qual o valor
do silêncio? O Projeto Atlas Musicalis: Música
Cartográfica, de minha autoria, insere-se nesse contexto
de pesquisa ao relacionar-se com o tema da geografia sonora documentada
(a partir de registros sonoros in loco e pesquisa fonográfica),
relembrada (reconstituição histórica do ambiente
sonoro realizado a partir de pesquisa bibliográfica e depoimentos,
e com a utilização de amostras sonoras pré-existentes)
e imaginada (composição musical cartográfica
realizada a partir de perfil topográfico do relevo terrestre).
Considerando-se essas características, o modelo de composição
musical cartográfica pode ser qualificado mais como a documentação
sonoro-musical de uma "escuta poética" do espaço
sônico do que como um "método composicional".
Integrando o Projeto Atlas Musicalis, a composição
eletroacústica Sonorus Urbis - uma das possíveis
trajetórias cronológico-musicais do ambiente rural
e urbano de Juiz de Fora - é constituída

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fundamentalmente por registros sonoros realizados
in loco, pela reconstituição do ambiente sonoro
da cidade, e de partituras realizadas a partir do perfil topográfico
das montanhas que circundam a cidade. Uma particularidade que
diz respeito à utilização dos registros sonoros
gravados in loco é que os mesmos são passíveis
de serem usados para se redimensionar a ambiência sonora
da cidade. Ou seja, uma vez que originalmente vários momentos
sonoros acontecem em simultaneidade, a composição
traz uma sobreposição de ambientes sonoros que não
se apresenta perceptível na experienciação
sonoro-ambiental original (em tempo real). Dessa forma, a parte
da peça Sonorus Urbis que apresenta registros sonoros
gravados in loco também aparece, de certa forma, como uma
reconstituição histórica do ambiente sonoro
recente da cidade, apenas diferenciando-se desta última
por ser constituída de gravações originais
superpostas. A vivência da sonosfera de Juiz de Fora, a
análise e a reflexão sobre a mesma, levou-me a constatar
que, com o crescimento urbanístico de Juiz de Fora e com
o aparecimento dos "condomínios fechados" nas
cercanias da cidade, o perfil do relevo do município (zona
rural e, principalmente, dos subúrbios) foi alterado substancialmente
- e mesmo drasticamente em algumas áreas - neste final
de século XX, sobretudo nos últimos dez anos. Em
vários locais o contorno topográfico das montanhas
que circundam Juiz de Fora não apresenta mais a "sinuosidade"
característica do relevo mineiro. O que ocasionou tal "adulteração"
paisagística foram as inúmeras construções
de imóveis que inserem um novo desenho no horizonte juizforano;
ou seja, a angulosidade típica dos telhados presentes na
maioria das construções. No que se refere aos procedimentos
composicionais cartográficos, as conseqüências
de tal situação são extremamente significativas,
pois as partituras não apresentam apenas as linhas sinuosas
que prevalecem no perfil topográfico das montanhas mineiras,
pois há uma predominância relativa da inserção
de ângulos variados e linhas retas (características
dos traçados dos telhados das construções)
que implicam na alteração do contorno sonoro das
partituras estruturadas a partir desse relevo alterado pela intervenção
humana. Devido ao fato das construções inserirem
desenhos atípicos no perfil topográfico, fazendo
com que os contornos do relevo sofram alterações
substanciais, a composição musical resultante desse
quadro "artificializa-se" através da ação
do agente humano. Dependendo da variação das alturas
e/ou dos valores musicais que eventualmente forem atribuídos
aos símbolos gráficos desse traçado atípico
do relevo, os mesmos poderão indicar na partitura, por
exemplo, a realização de "saltos" frequenciais
repentinos e/ou glissandos mais rápidos; e/ou uma variação
dinâmica e rítmica constante e mais acentuada. Outro
aspecto a ser evidenciado diz respeito à aproximação
visual passível de ser realizada em relação
ao perfil topográfico: a "granulação
visual" da linha do horizonte - conseqüência,
por exemplo, da presença de vegetação - implica
na discretização dos sons a serem grafados na partitura
cartográfica. Neste caso, a síntese espectral mostra-se
extrema e oportunamente eficaz na produção de sonoridades
que representam ipsis literis tal situação topográfica.
Nas montanhas mineiras, caracteristicamente sinuosas, a observação
distanciada da paisagem sugere uma invariabilidade relativa da
linha do horizonte, sobretudo devido a constância de um
relevo sinuoso. Mas, em alguns redutos onde ainda se constata,
por
exemplo, a presença de vegetação, uma aproximação
visual evidencia uma situação oposta: ao se transpor
graficamente para a partitura essa informação visual
específica, as sonoridades resultantes da predominância
das linhas sinuosas do relevo são esporadicamente contrastadas
com as "nuvens sonoras" indicadas por essa discretização
dos sons que se apresenta, em última instância, como
sendo simultaneamente visual, gráfica e musical. Este aspecto
da partitura cartográfica encontra um paralelo curioso
nas artes plásticas, através, por exemplo, na obra
do artista juizforano Roberto Vieira. Por volta de 1980, Vieira
utilizava como material básico para a confecção
de seus trabalhos a própria terra, assim como folhas, gravetos
e um material orgânico diversificado, retirado da própria
natureza. Segundo Vieira, o uso desse material foi conseqüência
de sua aproximação visual em relação
às montanhas. O seu trabalho evoluiu de pinturas relativamente
tradicionais - nas quais figuravam montanhas e paisagens mineiras
- para verdadeiras "instalações pictóricas".
Pois, à medida que seu olhar se aproximava dessas paisagens,
o artista foi gradativamente percebendo a necessidade de incorporar
em suas obras os próprios elementos constituintes das montanhas
(ou seja, a própria terra e demais materiais periféricos).
Analogamente a este processo ocorrido na obra plástica
de Roberto Vieira, a presença de sons granulares na partitura
cartográfica e a conseqüente discretização
das freqüências sonoras, ocorre em função
de um detalhamento visual da linha do horizonte. Ao passo que
o trabalho de Vieira incorpora a própria matéria
da qual as montanhas são constituídas, os signos
musicais da partitura cartográfica procuram representar
graficamente uma situação visual que sugere um espectro
sonoro que altera a sinuosidade típica do relevo. Como
resultado, temos a formação de "nuvens de sons"
ou "nebulosas sonoras", "constelações"
de sons discretizados que, além de resultarem dessa alteração,
representam, em termos musicais, toda a dinâmica visual
que se evidencia do detalhamento gráfico da paisagem. As
partes realizadas com essas partituras representam a parte da
composição cartográfica que se refere à
geografia sonora documentada imaginada, citada anteriormente.
A elas, são associadas as partes realizadas a partir da
geografia sonora documentada e relembrada. Estas últimas
aparecem organizadas na peça Sonorus Urbis sob a
forma de um "itinerário de imagens sonoras" -
ou o "histórico sonoro - que se iniciará no
período de pré-fundação da cidade
de Juiz de Fora (cerca de 1700), estendendo-se até o ano
2000. Conseqüentemente, procurou-se, executando-se as gravações
de áudio in loco atuais (realizadas a partir de janeiro
de 2000), reconstituir (reconstruir) o que seria a paisagem sonora
juizforana dos tempos antigos (mais precisamente, do período
de pré-fundação da cidade de Juiz de Fora
(antiga Vila de Santo Antônio do Paraibuna), por volta de
1700, até o ano de 1999. Para tanto, utilizou-se o recurso
da sequenciação e reprocessamento computacional
de amostras de bibliotecas públicas de sons; e, eventualmente,
a gravação de sonoridades atuais que remetessem
o ouvinte ao ambiente sônico do passado e que ainda freqüentam
a miríade de sons - eminentemente urbanos - do universo
acústico da cidade. O trabalho de reconstituição
desse período da "história sonora" juizforana
tornou-se viável, sobretudo, devido a uma pesquisa bibliográfica
direcionada (na qual procurou-se identificar aquelas citações
ou comentários esparsos que se referissem às sonoridades
produzidas no passado) e de relatos de vários moradores
que, residindo há décadas no espaço urbano
e na zona rural de Juiz de Fora, apresentaram-se como testemunhas
vivas das transformações do ambiente sônico
juizforano. No entanto, essa perspectiva histórico-sonora
não desviou minhas intenções e preocupações
iniciais (eminentemente estéticas) em manipular eletroacusticamente
tanto as amostras de sons pré-existentes quanto os registros
sonoros atuais realizados in loco selecionados para integrar as
peças.
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Ou seja, procurou-se fazer prevalecer os procedimentos
específicos da composição eletroacústica
(análise sonora, superposição e retrogradação
de amostras, filtragem de freqüências, aplicação
de efeitos etc.). Conseqüentemente, as sonoridades que constituem
as composições não foram sequenciadas exclusivamente
em uma disposição cronológica, muito embora
haja a possibilidade do ouvinte fazer um percurso histórico
(relativamente datado) dos vários ambientes sonoros da
cidade de Juiz de Fora, dos primórdios de sua fundação
até os dias atuais. Tais peculiaridades do processo composicional
de Sonorus Urbis possibilitaram-me perceber, dentre outros aspectos
que, neste final de século XX, raras são as sonoridades
do passado que ainda subsistem em meio aos sons juizforanos da
contemporaneidade. Assim como o perfil arquitetônico foi
se modificando com o passar das décadas, sendo hoje possível
identificar poucas - mas significativas - construções
remanescentes, o ambiente sônico da cidade se transformou
drasticamente ao longo dos anos (subsistindo raríssimas
sonoridades do passado). Tal constatação nos faria
questionar, por exemplo, se houve uma degradação
ou uma melhora nesse ambiente: quais sonoridades do passado os
habitantes desejariam que tivessem permanecido, quais gostariam
de recuperar e quais aquelas atuais que gostariam que permanecessem
ou fossem extintas? Os sons das máquinas de datilografia
dos escritórios foram substituídos pelos sons digitais
dos teclados dos computadores. Estamos, hoje, impossibilitados
de ouvir o motor das serrarias da Companhia Pantaleone Arcuri.
O trote dos burros, o galope dos cavalos e os sons produzidos
pelas charretes e pelos sinos dos bondes que cruzavam a cidade
cederam lugar à cacofonia dos motores e buzinas dos automóveis,
motocicletas, ônibus e caminhões. As sirenes das
fábricas não mais anunciam o horário de entrada
de seus operários, o horário de almoço e
a finalização do período de trabalho. Mas
permanecem as badaladas dos sinos da Igreja da Glória e
da Catedral Metropolitana e os sons - agora circunstancialmente
subliminares - das vozes das pessoas que freqüentam o centro
da cidade em meio ao burburinho do trânsito dos veículos
automotores e de alguns pontos comerciais que anunciam seus produtos
fonográficos em altos decibéis. Não mais
se ouvem, no período carnavalesco, as marchas, os ranchos
e os maxixes, mas os sambas-enredo das Escolas de Samba. A "sirene
do meio-dia" do Café Apollo foi substituída
pelos sons das máquinas caça-níqueis da casa
de jogos que hoje ocupa suas antigas instalações
na Rua Marechal Deodoro. Hoje, os sons ruidosos das guitarras
e o ritmo pulsante dos grupos de rock invadem, anualmente, logradouros
como o do Parque da Lajinha; e os freqüentadores das casas
noturnas dançam ao som de música pop eletrônica.
A música colonial brasileira encontrou em Juiz de Fora,
um solo extremamente profícuo: anualmente o Centro Cultural
Pró-Música promove o evento, atraindo para a cidade
inúmeros estudantes de música de todo o país.
Os alunos e professores do conservatório Haydé França
Americano executam seus instrumentos, em suas minúsculas
e desconfortáveis dependências na Rua de Santo Antônio
- simulando incidentalmente uma sinfonia cageana - à espera
da inauguração da nova e definitiva sede da rua
Batista de Oliveira, antiga Rua do Comércio. Os sons da
primeira transmissão televisiva em tempo real realizada
no Brasil em maio de 1950 - uma partida de futebol - ecoam imaginariamente
através do ambiente sônico de Juiz de Fora, reivindicando
o pioneirismo tecnológico de seu realizador, o engenheiro
autodidata Olavo Bastos. O Cine-Theatro Central, restaurado e
reinaugurado em 1996, foi palco de inúmeros eventos: decorado
em seu interior pelo artista plástico italo-brasileiro
Ângelo Biggi, o teto está repleto de efígies
de grandes mestres da música tais como Wagner, Verdi, Beethoven
e Carlos Gomes.
Projetado para apresentações de óperas, balés
e orquestras, suas dependências foram também utilizadas
para projeções cinematográficas durante as
décadas de 1930 e 1940; de meados da década de 1950
ao início dos anos 1970, assistia-se aos concertos líricos
do Teatro Experimental de Ópera de Juiz de Fora; da década
de 1970 até o início da década de 1990 aconteceram
ali apresentações dos mais consagrados nomes da
música brasileira, tais como Miltom Nascimento, Chico Buarque,
Gonzaguinha, Arthur Moreira Lima, Hermeto Pascoal, Wagner Tiso
e Tom Jobim. Hoje, o Cine Teatro Central, destituído de
suas funções cinematográficas, não
apresenta mais a pequena ópera Cavalleria Rusticana, do
italiano Pietro Mascagni, que antecedia as sessões. Substituindo
os ruídos dos carros-de-boi que desciam e subiam a Rua
Halfeld em meados dos século XIX, ouvem-se hoje os sons
dos passos frenéticos e o murmurinho das vozes dos pedestres,
dos grupos de música latina, dos grupos de capoeira e de
teatro, dos shows de música, dos freqüentadores dos
bares que se sentam em suas mesas, das manifestações
e campanhas políticas; também na mesma Rua Halfeld, não
se ouvem mais, aos sábados, as vozes dos poetas juizforanos, amplificadas
por um megafone, anunciando o Varal de Poesia, evento no qual
os textos poéticos eram pendurados em varais de barbanteAs modernas
sirenes das locomotivas a diesel substituíram os bucólicos
apitos das "marias-fumaça" movidas à vapor
que atravessavam a cidade. Não se ouvem mais os acordes,
melodias e vozes do grupo experimental multimídia Boca
da Zona, que atuou na cidade do final da década de 1960
até meados dos anos 1970; nem tão pouco o rock do
grupo Guela Seca. O grupos Gardênia Dourada e A Pá,
sedimentaram decisivamente (durante a década de 1970) no
meio artístico-musical de Juiz de Fora, o espaço
para a produção posterior de uma música popular
brasileira de alta qualidade. O Parque Halfeld, no coração
da cidade, ainda guarda as reverberações sonoras
do MERCARTE, considerado o "primeiro happening oficial"
da cidade ou, mais exatamente, uma "mostragem pública
de arte em geral" (patrocinado pelo DCE e ocorrido em 1969).
Participaram deste evento: Guaçui, Duty e Guela Seca, dentre
outros. Silenciaram-se os sons dos violões e das vozes
que entoavam canções de protesto político
no "Som Aberto", evento musical universitário
que, durante toda a década de 1970, acontecia no auditório
do ICB da Universidade Federal de Juiz de Fora. Assim como as
vozes dos integrantes do "Unicoro" (regido por André
Pires), em suas apresentações inigualáveis,
que marcaram o cenário musical da cidade no final dos anos
1980. Os sons dos teares da fábrica de tecidos Bernardo
Mascarenhas foram substituídos pelos "sons artísticos"
da "fábrica de cultura" que hoje ocupa suas antigas
instalações: das galerias Celina Bracher e Heitor
de Alencar, situadas no pavimento térreo, pode-se perceber
os passos dos freqüentadores da Galeria Arlindo Daibert (situada
no andar superior) em dias de abertura de exposições.
As sonoridades dos pianos que ocupavam lugar de destaque nos casarões
das classes sociais mais economicamente abastadas cederam seu
espaço para o modernos aparelhos de discos compactos. A
sirene do Cine-Theatro Popular - inaugurado por João Carriço
em 1927 - anunciando o início das sessões cinematográficas,
os sons de sinos e as músicas que antecediam a projeção
dos filmes no Cinema Palace e no Cinema Excelcior, não
mais existem. Não mais se ouvem as badaladas do relógio
que encimava o Palácio Barbosa Lima (Câmara Municipal),
anunciando as horas "com grande sonoridade"; assim como
fomos privados das solenes batidas do sino de bronze que convocava
os vereadores para as sessões. E, na antiga Estrada União
e Indústria, extinguiram-se os sons dos trompetes que anunciavam
as diligências que vinham em sentido contrário. Muitos
desses sons descritos acima, além de inúmeros outros não citados,
vivem, agora, apenas na memória daqueles que foram seus protagonistas
e os vivenciaram. As novas gerações os desconhecem na experiência
diária da vivência do ambiente sonoro da cidade. Outros patrimônios
são preservados, tais como o arquitetônico (ainda que com muitas
dificuldades e obstáculos, devido sobretudo a interesses econômicos
escusos), talvez por serem mais viáveis em sua permanência e manutenção.
Não obstante, o patrimônio sonoro impregna-se no patrimônio arquitetônico,
pois as construções guardam em suas paredes a lembrança silenciosa
de acontecimentos que alí aconteceram, os quais, por sua vez,
apresentavam, em sua grande maioria, algum tipo de sonoridade.
Os prédios e as casas da cidade guardam estórias e preservam silenciosamente
o patrimônio sonoro de Juiz de Fora; e nos remetem a um passado
e a um futuro que, em seus silêncios e espaços, nos fazem ter
a oportunidade de experimentar virtualmente as vozes, as músicas,
os ruídos pretéritos assim como as vozes, os ruídos, as músicas
que ainda estão por acontecer. Temos, assim, também a possibilidade
de preservar e ampliar prospectivamente nossa percepção do espaço
sônico a partir da preservação do patrimônio arquitetônico urbano
e rural.
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4.1
ENCARTE DO CD SONORUS URBIS: TEXTO DE APRESENTAÇÃO,
ITINERÁRIO HISTÓRICO-SONORO E BIBLIOGRAFIA
4.1.1
Texto de apresentação...................................................................................................................................................................................................................
Sonorus Urbis integra o
Projeto Atlas Musicalis, Música Cartográfica que,
por sua vez, insere-se no contexto da pesquisa do ambiente sonoro
ao relacionar-se com o tema da geografia sonora documentada (a
partir de registros sonoros in loco e pesquisa fonográfica),
relembrada (reconstituição histórica do ambiente
sonoro realizado a partir de pesquisa bibliográfica e depoimentos,
e com a utilização de bibliotecas sonoras e amostras
de sons pré- existentes) e imaginada (composição
musical cartográfica realizada a partir de perfil topográfico
do relevo terrestre). Assim, o modelo de composição
musical cartográfica pode ser qualificado mais como a documentação
sonoro-musical de uma "escuta poética" do espaço
sônico do que como um "método composicional".
Integrando o Projeto Atlas Musicalis, a composição
eletroacústica Sonorus Urbis - uma das possíveis
trajetórias histórico-sonoras do ambiente rural
e urbano de Juiz de Fora - é constituída fundamentalmente
por registros sonoros realizados in loco, pela reconstituição
do ambiente sonoro da cidade, e de partituras realizadas a partir
do perfil topográfico das montanhas que circundam a cidade.
Uma particularidade que diz respeito à utilização
dos registros sonoros gravados in loco é que os mesmos
são passíveis de serem usados para se redimensionar
a ambiência sonora da cidade. Ou seja, uma vez que originalmente
vários momentos sonoros acontecem em simultaneidade, a
composição traz uma sobreposição de
ambientes sonoros que não se apresenta perceptível
na experienciação sonoro-ambiental original. Dessa
forma, a parte da peça Sonorus Urbis que não apresenta
a reconstituição histórica de eventos sonoros
(geografia sonora relembrada) também aparece, de certa
forma, como uma reconstituição do ambiente sonoro
recente da cidade, apenas diferenciando-se da reconstituição
histórica propriamente dita por ser realizada com gravações
originais superpostas. A realização da peça
Sonorus Urbis evidencia estética e documentalmente as transformações
de um ambiente sônico específico, tornando as partituras
cartográficas particularmente significativas: é
que as mesmas, sendo elaboradas a partir dos relevos e perfis
topográficos associadas aos sons ambientes, coloca-nos
diante do fato de que, reconheçamos ou não, todos
nós que habitamos este planeta, nascemos, crescemos, vivemos
e morremos sobre uma imensa, admirável e complexa partitura,
a qual assim se manterá, caso contenhamos a nossa megalomania
e o nosso ímpeto destrutivo.
4.1.2 Itinerário histórico-sonoro....................................................................................................................................................................................................
FAIXA
1: Origens: 00:00
a 02:15 - c. 1703/1709: Picada para a abertura do Caminho Novo
das Minas, (que margeava o Rio Paraibuna), por Garcia Rodrigues
Paes para dar passagem a burros de carga que transportavam ouro
e diamantes extraídos das Minas Geraes.
Tropeiros percorriam o caminho com regularidade já a partir
de 1709. 02:16 -1703: Primeira capela, erigida por Antônio
Vidal, na Fazenda do Juiz de Fora. 02:36 - 1820: Por volta
desse ano, surge o povoado da futura cidade de Juiz de Fora na
margem direita do Paraibuna. Na margem esquerda, havia uma região
pantanosa onde ocorreu a expansão dos limites da cidade
de Juiz de Fora. 03:09 -1821: Segunda capela, erigida por Antônio
Dias Tostes entre Retiro e Caeté. 03:33 - 1847: Templo
dedicado a Santo Antônio (veja à esquerda, em fotografia
de 1847), construído em Juiz de Fora no local da
atual Catedral Metropolitana. 03:40 - 1850: O Largo do Riachuelo
era ocupado por uma lagoa. 03:53 - 1856-58: Chegada dos imigrantes
alemães no Porto do Rio de Janeiro. Na
viagem de 15 dias até Juiz de Fora (na estrada que margeava
o Rio Paraibuna, na parte da Província de Minas Gerais),
mulheres e crianças dividiam o pouco espaço nas
carroças, enquanto os homens
seguiam a pé, entoando canções para lembrar
a pátria mãe. DÉCADA DE 1860: 04:28 - 1861:
Estrada União e Indústria
(veja à
direita, em fotografia de R. H. Klumb, década de 1860),
cuja construção iniciou-se em 1853, é inaugurada
por Mariano Procópio Ferreira Lage, transforma a cidade
em "centro de convergência da produção
de café". 04:58 - Peças teatrais são
apresentadas no primeiro teatro da cidade na área da Santa
Casa, por Silva Pinto. 05:24 - "Um
trompete soava entre as montanhas
cortadas pela União e Indústria: era o ajudante
de cocheiro avisando as diligências
(veja
abaixo, à esquerda)que
vinham em sentido contrário." 06:12 - 1861:
Inauguração do Palacete Santa
Mafalda (veja abaixo,
à direita)
. Imponente prédio situado na esquina da Av. Rio Branco
com Bráz Bernardino, restaurado em 2000, por ocasião
do sesquicentenário da cidade, e onde atualmente funciona
a Escola Estadual "Grupos Centrais"). O Prédio
foi presenteado pelo comendador Manoel do Valle Amado a D. Pedro
II, que o recusou. O monarca o utilizou à época
para a cerimônia do "beija-mão", na qual
uma autoridade recebe determinadas pessoas, e para assinar documentos
de importância histórica. O palacete permaneceu fechado
até 1904 pelo filho do comendador e conservado por um francês.
FAIXA
2: Ferrovia e indústria: 00:00 - Décadas de
1860 e 1870: Na Rua Halfeld: tráfego de carruagens e bondes.
00:15 - Imigrantes alemães instalam oficinas de artesanato
e manufaturas, fundições, fábricas de carros
e carroças, cervejarias (veja abaixo,
à esquerda, fotografia da Cervejaria Germânia)
. 00:32 - Cerveja marca 'barbante': devido ao primitivo processo
de fabricação, a fermentação continuava
mesmo após o produto
engarrafado, o que obrigava o produtor a amarrar a rolha com um
barbante no gargalo, para evitar que a pressão a fizesse
saltar. 00:34 - 1875: Inauguração da Estação
Ferroviária: a estrada de ferro D. Pedro II acompanha o
percurso do Rio Paraibuna. 02:33 - 1878: Inauguração
do Palácio Barbosa Lima (veja
abaixo, à direita, o prédio em fotografia de cerca
de 1907), local onde
passaria
a funcionar a Câmara Municipal e o Fórum. "Inaugurado
com pompa e solenidade, o Imperador compareceu à festa,
que reuniu a sociedade aristocrática local para um baile
de gala realizado nas novas instalações". Carruagens
e bondes trafegam pelas ruas da cidade. 02:42 - [...] "A
suntuosidade (do prédio da Câmara Municipal e Fórum)
era acentuada por um frontão onde um relógio ladeado
por dois cupidos batia as horas com grande sonoridade. Um sino
de bronze convocava os vereadores para as sessões. 02:53
- Sinos: inauguração da Igreja de São Sebastião.
02:56 - 1879/1910: A sociedade juizforana, no final do século
XIX e início do século XX, se divertia animadamente
nos parques das cervejarias da cidade. Em 1879 é inaugurada
a Cervejaria Weiss. A cervejaria era animada por Brant Horta,
Amanajós Araújo e Celso D'Ávila, com guitarras,
descantes, declamação de versalhada e a chegada
do "tílhuris" carregados de "mulheres damas".
"Corridas de cavalo (02:56), partidas de tênis, tiro
aos pombos (03:15), e disputas de críquet. As pessoas iam
à fábrica de Weiss para se divertir especialmente
aos domingos. Faziam-se piqueniques, jogava-se boliche (03:20),
ouvia-se música (03:27), dançava-se. 03:42 - 1880:
No Largo do Riachuelo armavam-se circos e touradas eram realizadas
no local. Ali “funcionava a oficina mecânica de André
Halfeld, que fabricava fogões, mobílias e gradis
de ferro para sacadas e jardins". 03:50 - 1880: Passos na
lama: até este ano, a área do Parque Halfeld era
um atoleiro. Armavam-se ali "circos de cavalinhos, touradas
e cavalhadas". 03:53 - 1883: Canção inglesa
aludindo à inauguração da Fábrica
dos Ingleses (tecidos). Bondes com tração animal.
Excesso de carruagens na Rua Halfeld (veja,
à direita, a Rua Halfeld em fotografia da década
de 1870). 04:01 - 1884: Primeiros
cultos metodistas; debate ideológico entre católicos
e metodistas. "Pastores e templos metodistas foram agredidos
a pedradas por católicos irados, instigados por padres".
04:11 - 1887: Inauguração do Banco Territorial e
Mercantil de Juiz de Fora. Inauguração do Banco
de Crédito Real. Instalação do primeiro motor
movido à energia hidrelétrica da cidade na Fábrica
de Tecidos Industrial Mineira. 04:15 - 1889: Usina de Marmelos:
um raio cai sobre a usina, danificando os aparelhos e prejudicando
o fornecimento. Técnicos americanos são convocados
a vir sanar os problemas causados pela descarga elétrica.
04:20 - 1897-98: Inauguração da Fábrica Bernardo
Mascarenhas. Bernardo Mascarenhas introduz em sua fábrica
"o primeiro motor elétrico da América do Sul".
05:22 - Década de 1890: Consolidação da Praça
Antônio Carlos, apelidada posteriormente de "Praça
do Canhão": 07:20 - Final do Século XIX: Canção
lusitana, representando a chegada dos imigrantes portugueses e
o nascimento de João Carriço, pioneiro do cinema.
O pai de João Carriço, Manoel Gonçalves Carriço,
trabalhava como condutor de bondes de tração animal
na Companhia Ferrocarril.
FAIXA
3: Atenas em Minas: - Final do Século XIX: Academia
de Comércio (veja,
à esquerda):
cadeiras sendo arrastadas. Primeiro diretor, George Quesnel, era
de nacionalidade francesa. Nos quintais e terreiros das casas
proliferavam chiqueiros, z currais e galinheiros. Cabritos, porcos
e cães andavam soltos pelas ruas e calçadas. Ruas
da cidade eram percorridas por tílburis, diligências
e bondes de tração animal. Um córrego passava
pela Rua Santa Rita. 00:20 - No início do Século
XX: Construído o prédio da Biblioteca Municipal
no Parque Halfeld. Livros sendo folheados. 00:28 - 1901: Nascimento
de Murilo Mendes. 00:32 - 1903/1904: Mercado Municipal do Largo
do Riachuelo. 00:37 - 1906: Inauguração do
monumento do Morro do Imperador
(veja
à direita),
que é transformado em área de
lazer e assiduamente frequentado pela
população da cidade: crianças
a brincar . 00:46 - Bondes
elétricos (veja
abaixo, à direita,
um desses veículos na Av. Barão do Rio Branco)
começam a circular na cidade substituindo
os bondes de tração
animal. 00:51 - Enchente
do Rio Paraibuna (veja
abaixo, à esquerda):
as ruas da cidade transformam-se em rios e o transporte é
realizado com pequenas embarcações. 01:00 - 1906
a 1927: João Alves Carriço, pioneiro do cinema em
JF e em Minas Gerais, exibe a primeira
fita no "animatógrafo" em um salão de
barbearia no Morro da Glória (antigo Morro da Gratidão).
Realiza também projeções de cinema nas
ruas
de JF. 01:0 - 1910:
Nos bailes de carnaval, prevalece o gênero musical Maxixe.
O tango Meu Bem Sou Todo Seu "alcançou sucesso ruidoso".
01:05 - 1916: Inauguração das "Repartições
Municipaes" (prédio da Prefeitura). 01:10 - 1917:
Inauguração do Colégio Stella Matutina. 01:14
- Década de 1910: Chegada dos primeiros imigrantes árabes
a JF. 01:20 - 1918: Inauguração do Clube de Juiz
de Fora. Nele aconteciam conferências literárias,
festas de Natal, revéillons, bailes de carnaval. Da sacada
do prédio, assistia- se a procissões, desfiles de
carnaval, desfiles variados. 01:31 - 1927: Inauguração
do Cine-Theatro Popular (veja abaixo, à
direita, uma unidade externa de filmagens), na Av. Getúlio
Vargas, por João Carriço, com o filme "A Inspiração
Perdida". Uma sirene anunciava o início das sessões.
As apresentações dos filmes eram complementadas
com espetáculos teatrais, trupes e números
sensacionais. Nos tempos do cinema mudo, uma orquestra musicava
a apresentação dos filmes. 01:40 - 1928: Inauguração
da Igreja
Metodista (veja à esquerda).
02:00 - 1929: 30/03: Inauguração do Cine-Theatro
Central (veja abaixo, à direita) , com a apresentação
do filme A Esposa Alheia (mudo),
exibido após a apresentação da Orquestra
do Teatro; 02:09 - No programa, o hino de Juiz de Fora (de Lindolfo
Gomes e Duque Bicalho). 02:20 - DÉCADAS DE 1930 e 1940:
No Teatro Central: a exibição dos filmes é
antecedida pela execução mecânica da composição
Cavaleria Rusticana, do compositor italiano Mascagni. No teto
existem efígies de Wagner, Verdi, Beethoven e Carlos Gomes.
02:30 - De 1930 em diante: Na Rua Halfeld: os prédios de
dois andares, predominantes, começam a ser sistematicamente
demolidos, cedendo lugar às construções modernas
(Ed. Sulacap, Baependi etc.). 02:54 - Bailes de carnaval com bolero,
samba e maxixe. 03:00 - Estado Novo: discurso de Getúlio
Vargas. 03:15 - No Teatro Central: Companhias teatrais e líricas
da época; antes de cada exibição, as luzes
iam se apagando nessa sequência: azul, verde, vermelho e
amarelo. 03:31 - No Parque Halfeld: instalada a Rádio Oficial
da cidade, no lugar do chafariz. Já existiam em Juiz de
Fora as Escolas de Samba Turunas
do Riachuelo e Feliz Lembrança. 04:02 - 1940: Nova enchente
do Rio Paraibuna: as ruas da cidade transformam-se em rios e o
transporte é realizado, como em 1906, com pequenas embarcações.
04:55 - De 1939 a 1945: No Bar-café Salvataterra, na Halfeld:
"A sociedade juizforana para lá se dirigia para, aos
domingos, ouvir o ´Rei da Voz`, Francisco Alves, assim como
as notícias do ´conflito de Hitler` . Durante a semana,
o programa era ouvir a novela ´O Direito de Nascer´,
apresentada pela Rádio Nacional". 05:55 - 1942: De
Morais compõe a canção "Minas Geraes"
que vem a ser reconhecida como o hino informal do estado. 06:20
- DÉCADAS DE 1940 e 1950: No Teatro Central, programas
de auditório da Rádio Industrial, com as cantoras
Adelaide Chiozzo e Eliana.
Ouça
um trecho da seção 3 - 1898-1940
- Atenas em Minas (22050 Hz, 16 bit, stereo, 729 Kb,
02mins.28segs.) -, da peça Sonorus Urbis (em
MP3). 00:00
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FAIXA
4: Cultura, esquecimento, memória:
00:00 - DÉCADAS DE 1940 e 1950: Filmes com Dorothy Lamour,
James Stwart, Glória Swanson, Greta Garbo e Clark Gable
nos cinemas da cidade. O som estilizado do projetor de 35 mm foi
construído a partir de uma pequena célula sonora
do disparo de uma máquina fotográfica, fazendo uma
alusão simultânea ao projetor e a uma máquina
de costura (ambos considerados como ícones da produção
cultural e industrial da cidade: respectivamente, a produção
cinematográfica, através da figura de João
Carriço, e a indústria têxtil juizforana.
01:21 - FINAL DOS ANOS 1940: "...Banquetes regados à
vinho e música orquestrada na Confeitaria Fluminense"
(R. Halfeld). 01:05 - 1949: Extrato de "Se eu fosse feliz",
de Juquita, B.O. e Djalma de Carvalho. 01:25 - DÉCADA DE
1950 ATÉ INÍCIO DOS ANOS 1970: No Teatro Central:
Concertos do Teatro Experimental de Ópera de Juiz de Fora.
01:30 - 1950: Incêndio do prédio do Clube de Juiz
de Fora, no final de um baile de carnaval. 01:42 - A Carriço
Film registra a participação de Getúlio Vargas
em comício no Largo do Riachuelo. Voz do estadista. A partir
de 01:50: Ouve-se ao fundo a canção "Amo-te
muito", de João Chaves, uma alusão saudosista
à democracia e à ordem social e política
que antecedeu ao golpe militar de 1964, assim como à antiga
paisagem arquitetônica da cidade de Juiz de Fora que, até
a década de 1930, era predominantemente caracterizada pelo
estilo eclético. 01:54 - Copa de 1950. 01:56 - Copa de
1958. 1964: 02:10 - Golpe militar 1964: após se ouvir os
sons de disparos de arma de fogo - ilustrando sonoramente o golpe
militar - ouve-se a notícia da declaração
do estado de sítio. 02:42 - A canção "Amo-te
muito" dá lugar ao Hino à cidade de Juiz de
Fora. 02:52 - Superposto ao hino, sons de demolição
de concreto, ilustrando sonoramente o processo intermitente de
destruição e descaracterização da
paisagem arquitetônica tradicional da cidade: a falta de
carinho com a cidade, a desinformação e insensibilidade
de parte de seus habitantes e políticos, aliada ao interesse
econômico e à especulação imobiliária,
resultam, gradativamente - sobretudo a partir dos anos 1930 -,
na transformação arquitetônica da outrora
assim chamada "princesa de Minas". Continua, ao fundo,
o hino de Juiz de Fora. 03:58 - Sons de caixa registradora e moedas:
uma alusão à predominância do interesse econômico
em detrimento da preservação da rica arquitetura
juizforana. 1968: 04:03 - Pratos e talheres: inauguração
do restaurante no Morro do Imperador. 1969: 04:20 - 9 de abril:
Última viagem utilizando o transporte de bondes. O veículo
(linha São Mateus) leva à bordo o conjunto de Ministrinho
(um dos maiores sambistas da cidade e fundador da primeira Escola
de Samba de Minas Gerais, a Turunas do Riachuelo), que cantava
o samba "O último abrigo". Estaciona, pela última
vez, na antiga garagem do bairro (ao fundo, ruídos característicos
desse meio de transporte): Dim, dim/Dim, dim/Dim, dim/O bonde
chegou ao fim/Respeitemos o sinal/Dim, dim/Dim, dim/Dim, dim/O
progresso quis assim/E fez o ponto final. 05:13 - "Águas
Claras", composição de Duty
Botti e Guaçui, participa do MERCARTE, mostra de arte
patrocinada pelo DCE da UFJF, ocorrida no Parque Halfeld. 1970:
05:26 - "Fala por mim coração", de Élcio
Costa e João M. Filho, classificada para o 3º Festival
de MPBJF. 05:35 - Em depoimento gravado no MIS (Museu da Imagem
e do Som de Juiz de Fora) em 1976, Ministrinho fala sobre seu
conjunto musical e seus integrantes. DÉCADA DE 1970: 05:48
- Copa de 1970. "Carcará", de João do
Vale, aparece como ícone musical do Som Aberto, evento
musical que acontecia sempre aos sábados no Anfiteatro
do ICBG da Universidade Federal de Juiz de Fora. No Teatro Central:
Apresentações musicais de Milton Nascimento, Chico
Buarque, Gonzaguinha e Arthur Moreira Lima. 05:56 - O "assobio
de chamada" da "Turma da Espírito Santo".
06:04 - Melodia de "Happy End", composta por Geraldo
de Oliveira (Gererê) para a peça "O Rapto das
Cebolinhas" e encenada no instituto Maria (Juiz de Fora)
em 1974 pelo grupo de teatro da "Turma da Espírito
Santo". 06:21 - O "Boca da Zona", um dos mais importantes
grupos musicais da cidade (representado aqui pelo violão
de Carlos Carrera e Adhemar Salomão). Atuando do final
da década de 1960 a meados da década de 1970, o
grupo - formado originalmente pelos músicos Carlos Carrera,
Adhemar Salomão, Domício Procópio, Marcelo
Tavares e Lucília R. Coelho, e com participações
eventuais
dos artistas plásticos Fernando Pitta, Walter Sebastião
e Arlindo Daibert - associava diversas linguagens artísticas
em suas apresentações.
06:43 - 1978: início da demolição do Colégio
Stella Matutina (veja à esquerda).
06:48 - Apresentações de Arthur Moreira Lima, ao
piano, no Cine-Theatro Central ocorrem inúmeras vezes durante
a década de 1970. 06:51 - Voz de Pedro Nava. O escritor
fala acerca de sua obra "Baú de Ossos", na qual
descreve suas memórias sobre Juiz de Fora. 06:58 - Voz
de Heitor de Alencar. O artista fala sobre os fundadores da Escola
de Belas Artes Antônio Parreiras. DÉCADA DE 1980:
07:00 - Após o piano de Arthur Moreira Lima, Wagner Tiso:
o músico apresentou-se várias vezes no Cine-Theatro
Central ao longo da década. 07:15 - Referência ao
compositor De Morais. Autor do hino informal do Estado de Minas
Gerais, o músico reside há várias décadas
em Juiz de Fora. 07:22 - Ouve-se em simultaneidade: a voz de Clério
Pereira de Souza, o " Pimpinella", uma das figuras notórias
do carnaval juizforano durante décadas; e referência
ao Movimento Mascarenhas, Meu Amor (a célebre mobilização
da classe artística de Juiz de Fora, ocorrida no final
da década) em prol da recuperação do prédio
da antiga fábrica de tecidos e sua transformação
em centro cultural. 07:26 - Sons de demolição de
concreto. A cidade continua a sofrer, sobretudo durante a década
de 1980, as conseqüências nefastas da especulação
imobiliária, culminando com a demolição da
Capela do Colégio Stella Matutina, iniciada em 10 de janeiro
de 1986 e do Palácio Episcopal, também no mesmo
ano. 07:27 - 1980: "Pra tudo se acabar na quarta-feira",
samba-enredo da Escola de Samba Unidos de Santa Luzia. 07:28 -
1981: Vozes de Márcio Itaboraí e Serjão,
interpretando a canção Louco de Prazer, de autoria
da dupla, em amostra do LP duplo Música Popular em Juiz
de Fora: constituindo um dos mais importantes documentos musicais
da cidade (produzido pela Fundação Cultural Alfredo
Ferreira Lage, FUNALFA), o LP traz na capa a polêmica pintura
do artista plástico Paulo Pinto, na qual os personagens
originais da Santa Ceia são substituídos pelos músicos
participantes do projeto. Ministrinho, executando o seu inseparável
violão, aparece no lugar do Cristo. Também aos 07:28
aparece simultaneamente a voz de Wilson de Lima Bastos, em depoimento
ao MIS (Museu da Imagem e do Som) realizado em 1982. O historiador
fala sobre a criação da Faculdade de Filosofia.
07:29 - Metalofone (glockenspiel) com a célula rítmico-melódica
da primeira peça composta pelo grupo multimídia
Uavisiliu para a sua estréia no "Domingo Musical (realizado
pelo DCE na Praça Cívica do Campus da UFJF), em
6 de junho de 1982. Além do Uavisiliu apresentaram-se:
Jorge Mautner e Banda Palmares, Cacáudio, Márcio
Hallack e Mário Nalon, Rogério Freitas, Pantera,
Evandro e Pulga, A Nóz, Carlos Carrera, Solstício,
Serjão e Marcinho Itaboray e o grupo A Nata do Lixo. 07:32
- Voz do Prof. Waldemar Bracher, em depoimento ao MIS, 1982. O
pesquisador afirma: [...] "Talvez a guerra nuclear seja a
solução...” [...].Flautas de Kim
Ribeiro, em amostra do LP "Kim Ribeiro". 07:34 -
1983: O Coro Mater Verbi dos Meninos Cantores da Academia (sob
a regência de Otávio Garcia), em amostra do LP homônimo.
07:35 - Ouve-se ao fundo uma referência musical a um concerto
de Hermeto Pascoal, ocorrido no início dos anos 1980 na
Capela Galeria de Arte (localizada nas antigas dependências
da Capela do Colégio Stella Matutina). 07:36 - Trecho da
peça musical "Uavisiliu", composta em 1983 pelo
grupo de mesmo nome e apresentada em vários teatros da
cidade. Neste mesmo ano, o Uavisiliu é o único grupo
não-paulista selecionado para apresentar-se no Projeto
Boca no Trombone (Lira Paulistana, São Paulo). 07:37 -
1983: Voz do artista plástico Leonino Leão, em depoimento
ao MIS, entrevistado por Arlindo Daibert, cuja voz aparece aos
07:39. 07:38 - 1985: Música Eletrônica de Paulo Motta
apresentada em uma exposição multimídia (gravuras,
monotipias, música e dança) no extinto Museu da
Cidade (antigo prédio da Prefeitura Municipal). 07:44 -
Amostra do LP "Reciclagem", realizado em 1987 por Kain
(Carlos Henrique F. Pereira) 07:46 - 1987: Paulo Motta (piano
e fita magnética), Kim Ribeiro (flauta e violoncelo) e
Paulo Beto (guitarra), ensaiam a peça "Conexões",
de Paulo Motta, no Auditório do Centro Cultural Bernardo
Mascarenhas; o piano do compositor e instrumentista Abdo Márcio
Sarquis Hallack, em uma amostra de seu LP "Márcio
Hallack". 07:50 - Amostra do LP "Patrulha 666",
realizado em 1987 pelo grupo Patrulha 666. 07:52 - Amostra do
LP "Estrela do Amanhã", gravado em 1987 pelo
compositor Dhaal. 07:55 - Samba-enredo da Escola de Samba Turunas
do Riachuelo de 1975. 07:56 - 1991: Voz de Maria Isabel de Souza
Santos, diretora do Centro Cultural Pró-Música,
em depoimento ao MIS. 07:58 - Amostra do LP "Nem tudo que
nasce é novo", 1990, Luizinho Lopes. 08:04 - 1991:
Incêndio do Mercado Municipal e da Pronta Entrega das Fábricas
situados no Espaço Mascarenhas. Os populares que passavam
pelo local jogavam pedras nos vidros das janelas do prédio
numa tentativa equivocada de conter as chamas; referência
musical ao IV Festival Internacional de Música Colonial
Brasileira e Música Antiga (1993), realizado anualmente
pelo Centro Cultural Pró-Música. 08:06 - Amostra
do LP "Revolution", 1994, Patrulha 666. 08:15 - Amostra
do LP "Simplesmente Goianá ", gravado em 1994
por Goianá. 08:20 - 1994: Inauguração do
Centro de Estudos Murilo Mendes. Sons da voz do poeta, recitando
o poema "A Marcha da História". Ao fundo, o "Réquien",
de Mozart, compositor predileto do poeta. 08:53 a 10:11 - Peça
cartográfica eletrônica de Paulo Motta realizada
em 2000. Composta em 1994, a partir do perfil topográfico
das montanhas que circundam Juiz de Fora, a obra aparece superposta
pelas seguintes amostras sonoras: 08:56 - CD Ritmo do Mundo, Fernando
Gaio, 1995. CD Sopro de Vida, Caraíva. 09:04 - CD Nuances,
Chico Curzio, 1997. 09:08 - CD Flauta Brasileira, , 1998. CD Cleber
Gabriel, com a participação do guitarrista Alexandre
Schio. 09:20 - CD A Barca da Gente, Duty
Botty, 1998, (LMM). 09:26 - CD Ahla u SahlaI, Grupo Baalbeck,
1998. Projeto Aspirantes - alunos e professores do Conservatório
Haidé França Americano (Prod.: Tibério Magalhães),
1998. 09:32 a 10:11 - Trecho da peça Randomichaos
- Parte II: MesoComplement, Paulo Motta, 1999. 09:32 - CD
Dharamsala, Paulo Motta, 1999. 09:39 - CD
Os Dez Andamentos - Música para Piano 1975-97, Paulo
Motta, 1999. 09:44 - CD O Espírito
Dançarino, Paulo Motta, 1999. 09:51 - CD Lo-fi Genesis,
Anvil FX (Paulo Beto), na qual aparece a voz do artista plástico
juizforano Carlos Bracher, 1999, (LMM). 09:59 - "Presente
de grego" (performance musical, Espaço Mascarenhas,
1986), "Fonotúnel em rabiscogrifo" (música
eletroacústica, Museu da Cidade), "No atrito das pedras"
(trilha sonora original para vídeo, 1988): Paulo Motta
em parceria com o artista plástico César Brandão.
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5: Ruas da cidade:
00:00 a 05:00 - Continuação da peça cartográfica
eletrônica, de Paulo Motta, iniciada aos 08:53 da faixa
anterior. 00:11 - CD Não dê Mole, Patrulha 66, 1999,
(LMM). 00:20 - CD Cantares, Grupo Cantares, 1999. 00:25 - CD Kim
Mid, Kim Ribeiro, 1999, (LMM). 00:29
- CD Álbum, do Grupo A Moita, 1999. 00:37 - CD Mamão...
Com Açucar, do compositor Mamão, 1999, (LMM). 00:48
- CD Jubileu, Kim Ribeiro, 2000. 00:54 - CD O Milagre da Luz,
Natálio Luz, 2000, (LMM). Simultaneamente, ouve- se um
extrato da primeira faixa do CD
The Unknown Landscape, Paulo Motta, 2000, (LMM). 01:18 - Amostra
do CD- demo inédito do grupo Eminência Parda. 01:38
- CD Brincadeira de Quintal, do violonista e compositor Bilinho
Teixeira, 2000. REGISTROS SONOROS IN LOCO REALIZADOS NO ANO DE
2000: 01:48 - Evidencia-se a peça cartográfica eletrônica,
superposta por sons discretizados ("nuvem sonora") resultantes
da aplicação da partitura cartográfica 'as
sonoridades da composição eletrônica "Randomichaos",
de Paulo Motta. 01:52 a 02:06 - Amostra da primeira seção
da peça eletroacústica O Ouvido
Armado, de Paulo Motta. Encomendada pela FUNALFA para as comemorações
dos cem anos de nascimento do poeta juizforano Murilo Mendes,
sua estréia mundial ocorreu no dia 19 de outubro de 2000,
no Espaço Mascarenhas, Juiz de Fora. Esta composição
foi realizada utilizando-se exclusivamente os sons gravados da
própria voz do poeta, reprocessada em ambiente informático.
O título |