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  • 1. A MÚSICA ELETROACÚSTICA NO BRASIL - Jorge Antunes

    1. A MÚSICA ELETROACÚSTICA NO BRASIL 1

    Muito embora seja verdade que a criação musical nunca esteve desvinculada do conhecimento científico, a segunda metade do século XX presenciou uma vinculação crescente , estreita e fortemente integrada entre Arte e Ciência. É no ano de 1924 que localizamos o primeiro ponto da notável da curva que mais adiante começaria a descrever o vertiginosamente crescente entrelaçamento entre a criação musical e os avanços tecnológicos. Referimo-nos à era dos instrumentos rádio-elétricos e às inovações de Mager, Theremin, Cahill, Obouckof, Martenot e outros. No final dos anos 40 John Cage nos Estados Unidos e Pierre Schaeffer na França assentavam um novo caminho para a linguagem musical, com a utilização das primeiras conquistas da chamada era da eletrônica: a válvula termoiônica, o disco em acetato e, logo em seguida, a fita magnética. A música instrumental, simultaneamente, vivia um momento de crise em razão dos arrojos e avanços estéticos iniciados por Schoenberg, Berg e Webern, e levados às últimas conseqüências pelos serialistas de Darmstadt. A Música Eletrônica surgiu então como o desaguadouro das inquietações e crises técnicas que colocavam compositores e estetas de todas as correntes em um beco sem saída: a mais avançada tecnologia da época permitia a transposição dos impasses, porque a gravação em fita magnética permitia a direta manipulação sonora.

    Verdadeira revolução musical começava a ter início. De maneira acelerada o grau de avanço e complexidade da invenção artística passou a ser cada vez mais intenso. Enquanto para a Idade Média o século é a unidade de medida temporal para a descrição do avanço histórico-musical, temos que para a história da música do século XX passam a ser a década, o ano e o mês as unidades de medida de tempo que permitem estudar a evolução estética e técnica.

    Na América do Sul o fenômeno da aliança entre arte e ciência esteve e está sincronicamente presente. Venezuela, Chile, Brasil e Argentina são países que a partir de 1947 tiveram evidência nos círculos internacionais da vanguarda musical. Mas a notoriedade destes países se deve apenas a um único motivo: nasceram neles os esforçados, isolados e incansáveis compositores e pesquisadores que, por iniciativa própria e de modo quixotesco lutaram e lutam em verdadeiro trabalho de guerrilha cultural contra o stablishment das retrógradas políticas culturais do Estado.

    O Brasil desponta neste pioneirismo desde os anos 60, através da projeção internacional de alguns de seus compositores. Hoje o quadro é animador, quando focalizamos a situação da pesquisa musical nas Universidades brasileiras. Em Brasília, Campinas, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Santa Maria, Belo Horizonte e São Paulo encontramos compositores, todos com titulação pós-graduada, que trabalham na área. Suas respectivas Universidades começam a prestar apoio, embora ainda medrosamente, na instalação de laboratórios modernos com recursos tecnológicos informatizados.

    [...] A partir dos anos 70 algumas universidades brasileiras começaram a integrar, em seus corpos docentes, vários dos compositores-pesquisadores brasileiros pioneiros da chamada geração Revox. Aquelas instituições, ao mesmo temo, prometiam-lhes apoio e infra-estrutura para o desenvolvimento da pesquisa de ponta no domínio estético e técno-musical. Mas o rico país da miséria e da fome, de política educacional e cultural permanentemente claudicante, esteve constantemente surdo aos roncos da fome cultural de sua gente.

    Aquela geração acolhida ou convocada nos anos 70 pelos Departamentos de Música de algumas universidades do Brasil formaram, nos anos 70 e 80, em sua intensa atividade docente, duas novas gerações de compositores que partiram para a Europa ou para os Estados Unidos, em busca das condições tecnológicas apregoadas e informadas por seus mestres brasileiros. estes últimos, por sua vez, também estiveram e estão viajando permanentemente ao exterior, divulgando a criatividade e o "jogo de cintura" alternativo e tecnologicamente improvisado nas salas de aula da vida acadêmica brasileira. Eles, nessas viagens de estudo, de pesquisa e de concertos, se reciclam e concluem doutorados e pós-doutorados, voltando às âncoras e amarras de seus vínculos acadêmicos. Alguns voltam desiludidos se readaptando e se conformando com a realidade brasileira que os prende apenas em razão da futura aposentadoria. Mas muitos voltam aguerridos, esperançosos, inconformados e tenazes, se debruçando noites a fio sobre a máquina de escrever ou o computador para elaborar novamente mais um projeto de pesquisa ou de um curso de pós-graduação ou de um laboratório. Estes são os que perderam metade de sua vida semi-secular com datilografias de projetos que se perderam nas implacáveis gavetas do obscurantismo administrativo e governamental. Elas são os sustentáculos e símbolos em que se apoiam as novas gerações de mestres. De um modo biunívoco o encontro destas gerações permite o feedback de esperanças.

    Mas a evasão de cérebros e de potencialidades artísticas e acadêmicas é muito grande. Talentos brasileiros das novas gerações por lá ficaram, porque é negro o quadro da realidade brasileira no que concerne à pesquisa e à prática musical de vanguarda. Bruxelas, Gand, Paris, Yale, Viena, Ontario e Köln são algumas das cidades que abrigam jovens compositores brasileiros, mestres e doutores, na faixa etária dos 30 anos, que se projetam na comunidade musical internacional, frustrados com a falta de um celeiro tecnológico, no Brasil, que pudesse servir de polo irradiador de influências inter-estaduais para a "sondagem", o "nivelamento" e a preparação de novos terrenos para suas voltas.

    [...] Embora desde os anos 60 o Brasil se destaque, no cenário internacional, com a produção musical eletroacústica de alguns de nossos compositores, este enriquecimento e a conseqüente projeção de nossa cultura têm-se dado às duras penas, com esforços e sacrifícios pessoais daqueles músicos. A universidade brasileira nunca apoiou de modo sistemático a produção artística e a pesquisa de ponta no domínio da música nova que usa os mais avançados recursos tecnológicos. Assim, embora a Música Eletroacústica já ocupe as páginas da História da Música dos últimos 69 anos, não é comum, na Universidade brasileira, o apoio às linhas de pesquisa estética e científica naquele domínio.

    O advento, o surto e a moda da Informática, enfim, mudam este quadro. O mundo moderno em geral, e a Universidade brasileira em particular, se apaixona pelo computador, descobre suas maravilhosas aplicações e, mais do que isto, as busca e as inventa. Assim, só agora, às vésperas do novo milênio, quando aqueles velhos pesquisadores e artistas abraçam as novas tecnologias, e os novos artistas nelas iniciam sua história de pesquisa, aí sim abrem-se novas perspectivas, com apoios institucionais esporádicos que são promissores.

    [O I Encontro de Música Eletroacústica reuniu] estes artistas pesquisadores, para que mostrassem e confrontassem suas idéias, suas pesquisas e suas obras. Embora alguns destes artistas brasileiros, isoladamente, venham convivendo com a comunidade eletroacústica internacional, participando de Festivais e Congressos na Europa, a verdade triste é que os compositores brasileiros de música eletroacústica, em sua maioria, não se conhecem entre si e não conhecem a produção de seus colegas brasileiros.

    O Brasil é um dos poucos países em que ainda não são realizados Festivais e Encontros dedicados à música eletroacústica. Para que se avalie o distanciamento nosso do mundo musical desenvolvido da vanguarda contemporânea, basta lembrar que existe uma Confederação Internacional de Música Eletroacústica (C.I.M.E.) sediada na França, ligada à UNESCO, que congrega Federações nacionais dos seguintes países: Alemanha, Argentina, Áustria, Canadá, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Grécia, Israel, Noruega, Holanda, Suécia, Suiça e Venezuela.

    Um dos eventos paralelos ao I Encontro de Música Eletroacústica [foi] a exposição intitulada "38 Anos de Música Eletroacústica no Brasil". A visita a esta exposição [permitiu] ao público verificar que este tipo de música já tem uma bela e longa história no Brasil. É hora de começar a se contar essa história, abrindo perspectivas para a nossa cultura e criando condições para que juntos inventemos o futuro.

    Brasília, DF, Brasil, 3 de setembro de 1994

    _______________
    Notas e referências bibliográficas

    1 Extraído do programa do I Encontro de Música Eletroacústica, realizado em Brasília, DF, Brasil, 10 a 14 de setembro de 1994, p. 1-2. Segundo Jorge Antunes, responsável pela coordenação geral do evento, "o I Encontro de Música Eletroacústica [tratou] de, pela primeira vez, reunir a comunidade de músicos-pesquisadores brasileiros que se dedicam a esta linha de pesquisa e corrente estética. Torna-se necessário, portanto, ressaltar que o evento além de [ter sido] um acontecimento científico e cultural, [foi] também um acontecimento histórico."

  • COMPOSITORES: dados biográficos
  • Relação de nomes extraída dos programas do I e II Encontro de Música Eletroacústica, realizados em setembro de 1994 e maio de 1997, respectivamente (com exceção dos nomes assinalados com *). Esta lista, inevitavelmente incompleta, não representa a totalidade de compositores brasileiros que se dedicam a produção de Música Eletroacústica ou, em um sentido mais abrangente, a produção musical que se interage com os novos meios tecnológicos. Sendo assim, ela será eventualmente atualizada na medida em que novos dados estiverem a disposição. Colaboração e comentários: Jorge Antunes.
    Seção exclusiva de compositores brasileiros: BIOGRAFIAS DE COMPOSITORES BRASILEIROS.
    Seção de compositores brasileiros e estrangeiros:
    BIOGRAFIAS DE COMPOSITORES BRASILEIROS E ESTRANGEIROS
    .
    Aluizio Arcela
    Álvaro Guimarães
    Anselmo Guerra de Almeida
    Beatriz Magalhães Castro
    Arthur Kampela
    Aylton Escobar
    Celso Aguiar
    Chico Mello
    Conrado Silva
    Denise Garcia
    Deyvison Miranda
    Didier Guigue
    Edson Zampronha
    Eduardo Guimarães Alves
    Eduardo Paiva
    Eduardo Reck Miranda
    Fernando Corbal
    Fernando Iazzeta
    Flo Menezes
    Frederico Richter (o Frerídio)
    Gilberto Carvalho
    Gilberto Mendes
    Glesse Collet
    Guerra Vicente
    Guto Caminhoto
    Hélcio Müller
    Harry Crowl
    Igor Lintz-Maues
    João Cândido Dovicchi
    Jocy de Oliveira
    Jônatas Manzolli
    Jorge Antunes
    José Augusto Mannis
    Livio Tragtenberg
    Luis Roberto Pinheiro
    Marc Lannelongue
    Mariuga Lisboa Antunes
    Maurício Loureiro
    Mikhail Malt
    Paulo Chagas
    Raul do Valle
    Reginaldo Carvalho
    Ricardo Dourado Freire
    Rodolfo Caesar
    Rodolfo Coelho de Souza
    Rodrigo Cicchelli Velloso
    Sérgio Freire
    Sérgio Rojas
    Sílvio Ferraz
    Tim Rescala
    Vânia Dantas Leite
    Victor Lazzarini
    Wilson Sukorski

  • CENTROS DE PESQUISA, LABORATÓRIOS & ESTÚDIOS BRASILEIROS DE MÚSICA ELETROACÚSTICA
  • Laboratório de Música Eletroacústica
  • Universidade de Brasília
    Departamento de Música - Sala 21
    70919-970 Brasília - DF
    BRASIL
  • EMEGAS - Estúdio de Música Eletroacústica do Grupo de Artes Sônicas (Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil): Estúdio particular do compositor brasileiro Paulo Motta., dedicado à produção e divulgação das composições realizadas pelo compositor. CDs produzidos no estúdio: RANDOMICHAOS - Música para Sintetizador Modular; SONORUS URBIS - Uma trajetória histórico-sonora eletroacústica da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, de 1700 a 2000. Confira também outros CDs de Paulo Motta produzidos no EGAS - Estúdio do Grupo de Artes Sônicas (dedicado à produção de música não-eletroacústica, mas que incorpora recursos eletrônicos e digitais na sua realização).
  • Studio PANaroma de Música Eletroacústica da UNESP
  • O Studio PANaroma é dirigido atualmente pelo compositor
    Flo Menezes.
    Instituto de Artes/UNESP (Universidade Estadual Paulista)
    Rua Dom Luíz Lasagna, 400
    023266-030 São Paulo - SP
    BRASIL
  • DEL -Dissociação Estética Londrinense
  • A DEL é, segundo seus criadores, "uma dissociação de
    artistas londrinenses espalhados pelo mundo. Não temos um programa único, não defendemos nada além do direito de todos, dissociados ou não, terem sua expressão e identidade intelectual individual."
  • Estúdio da Glória
  • Fundado em 1981 por Tim Rescala, Rodolfo Caesar, Tato Taborda e outros entusiastas, nasceu da doação dos equipamentos de cada um de seus fundadores para o estúdio comum. Não teve ata de fundação e não publicou manifestos, mas, ao longo dos anos, congregou o que havia de mais interessante na cultura do Rio de janeiro, recebendo compositores de todo o país. Ali foram desenvolvidos
    projetos para instalações em artes plásticas, coreografia de dança e desenho de animação. Serviu de treinamento e formação para jovens compositores, de oficina de restauro de gravações, tendo
    feito ainda produções comerciais.
    O estúdio deu certo porque permitiu a cada um se expressar
    e se manifestar e porque a generosidade de seu maior "acionista", Tim Rescala, acolheu a todos. (Extraído do encarte do CD Estúdio da Glória : música
    eletroacústica brasileira. Estúdio da Glória/RioArteDigital, Rio de Janeiro, 1995. 1 disco compacto: digital, estéreo).
  • NMC - Núcleo de Música Contemporânea
  • O NMC, criado em 1993, constitui um importante centro de pesquisa da música contemporânea integrado à Universidade Estadual de Londrina - UEL.
    Universidade Estadual de Londrina
    Campus Universitário - CECA - Arte
    Cx. P. 6001
    Tel.: (043) 371-4498 / 371-4037
    Fax: (043) 328-4440 / 371-4639
    CEP: 86051-970
    Londrina - Paraná - BRASIL
    E-mail: janete@sercomtel.com.br
  • LAMESM - Electroacoustic Music Lab
  • Criado pelos compositores Eduardo Reck Miranda e Frederico Richter, este centro de pesquisa representa uma importante conquista - no âmbito da pesquisa musical contemporânea - para a região sul do Brasil.
    E-mail: lamesm@geocities.com
     
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