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    GRUPO EXPERIMENTAL MULTIMÉDIA

    U.... A... V... I... S... I... L... I... U...

    EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS 21 ANOS DE FORMAÇÃO DO GRUPO - JUNHO DE 2003

    (Atualizada periodicamente)

     

    Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os fatos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. (Mia Couto)

    Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. CHAUÍ, Marilena de Souza. Apresentação. In: BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 10ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

    Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pelas astúcias que tem certas coisas passadas. (João Guimarães Rosa)

    Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir. (João Guimarães Rosa)

    A água que corre / Olha-me enquanto por ela passo / Não é ela que passa / Sou eu que fico / E penso que passo. (Iolanda Cristina dos Santos, In: Passagens)

    As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas)

    Só aos poucos que o escuro é claro. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas)

    O fato de somente o presente existir (...) não é motivo para ser infiel ao passado. (André Comte-Sponville)

    Temos que, necessariamente, ser incendiários na juventude e bombeiros na maturidade? (Paulo Motta, a partir de um comentário do Maestro Julio Medáglia sobre o filme Os Boas Vidas, de Fellini)

    O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta, esfria, sossega e depois desinquieta. Aperta e daí afrouxa. O que ela quer da gente é coragem. (João Guimarães Rosa, In: Grande Sertão: Veredas)

    A vida nunca é aquilo que diz de si mesma. (Paul Stofell)

    Confesso: eu prefiro uma experiência, mesmo fracassada, a uma uma obra bem sucedida. (Pierre Shaeffer, In: Pierret, Marc. Entretiens avec Pierre Shaeffer. Paris: Pierre Belfond, 1960, p. 105)

    Toda história que se conta tem mentira dentro
    Tem valente que não é valente
    Tem tristeza que não leva a gente
    Tem amor que acaba de repente
    Tem chão verde que não dá semente
    (...) Toda mentira que se conta tem verdade dentro
    Tem covarde que um dia é valente
    Tem tristeza funda que só cacimba
    Tem amor que dura mais que a gente
    Até chão seco um dia dá semente.
    (Sérgio Ricardo, A Noite do Espantalho)

    Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir. Seus sonhos vão à frente de seus passos. Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas. Sua vocação é a de desordenar paisagens.(Mia Couto)

     

    Redação, edição e revisão: Paulo Motta. Obs. 1: Esta seção do Grupo de Artes Sônicas é sistematicamente revisada seguindo-se um cronograma de atualização determinado exclusivamente pelo editor. Qualquer eventual incorreção textual, omissão casual de nomes e datas, vínculos incorretos etc. serão oportunamente retificados. Caso o visitante identifique um ou mais desses problemas, favor contatar pmotta@artnet.com.br. O editor agradece antecipadamente as eventuais colaborações que certamente contribuirão para o mantenimento sempre cada vez mais otimizado deste sítio. Obs. 2: O conteúdo deste sítio está sujeito a alterações constantes e de total responsabilidade do editor, que se reserva o direito de considerar as informações nele contidas passíveis de serem complementadas e/ou modificadas, desde que obviamente não alterem a veracidade dos fatos e que não impliquem em inverdades acerca das pessoas e dos fatos nele citados.

    Colabore na otimização dessa seção do GAS notificando incorreções e sugerindo a inclusão de novos itens: pmotta@artnet.com.br. This website is periodically rebuilt. If you find things that don't work so well, please report to the webmaster.

    (Full english version is comming soon!)

    SUMÁRIO

    • UMA VISÃO PESSOAL DA HISTÓRIA DO UAVISILIU, por Paulo Motta
      • Epígrafes
      • Nota preliminar do editor
      • Resumo
      • Palavras-chave
      • Abstract
      • Key-Words
      • Dedicatória
      • A TRAJETÓRIA DO UAVISILIU
        • Formação do grupo
        • A estréia no Domingo Musical da UFJF: junho de 1982
        • Espaço Cultural, Noites do Bizzu e Lira Paulistana (inclui amostras de áudio em mp3)
        • A última apresentação
      • À GUISA DE CONCLUSÃO

     

    UMA VISÃO PESSOAL DA HISTÓRIA DO UAVISILIU (v. 1.3, julho-dezembro, 2003)

    Por Paulo Motta (redigido em 1998; revisto em 2002 e 2003)

    Epígrafes

    • Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data (João Guimarães Rosa)
    • O silêncio era antes,/ quando cada palavra/ inaugurava um espanto/ e a carne/ em verbos se desvelava,/ tocando tudo que nascia, fosse música caracol/ pedra mar ou ventania./Debruçado sobre o nada,/ cantei as encarnações do fogo,/ o dilúvio das coisas desejadas./ Sim,/ o silêncio era antes,/ e transformou minha sede/ num rio de palavras. (Fernando F. F. Furtado In Ossário Pessoal, III)
    • Há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho. (Morpheus, em Matrix)
    • Leva-se muito tempo para se ser jovem. (Picasso)
    • ...Se então me calo, ouço doer o que não digo./ Negar-me, quem sabe minha morte consiga?/ quem sabe?/ Poderia haver melhor castigo? (Iacyr Anderson Freitas In A Soleira e o Século)
    • Uma erva miúda/ toma de assalto nossa fala./ Quebra essa página ao meio./ Fende a imensidão que a convocara./ Brilha além de nós,/ noutras águas, e nos desampara. (Iacyr Anderson Freitas, Noutras Águas, à memória de Ruy Merheb, In A Soleira e o Século)
    • ...Naqueles dias em que não sabemos bem se estamos loucos, se são os outros os loucos, ou se afinal tudo é loucura; tudo é então normal. (Jorge Lima Barreto)
    • O universo é real, mas você não o pode ver. Tem de imaginá-lo. (Alexander Calder)
    • A lembrança é um diamante bruto que precisamos lapidar. (Marilena Chaui)
    • O que existe de mais antigo entre as coisas antigas nos segue em nosso pensamento e, portanto, vem ao nosso encontro. (Heidegger, A experiência do pensamento, cit. por Lia Tomás In: Ouvir o lógos: música e filosofia)
    • escrevo para dilatar espaços, (...) mais na tentativa de compreender do que na de explicar (sempre tive uma vontade maluca de saber como as pessoas são por dentro, se elas têm as mesmas dúvidas que eu tenho (...). sonho um texto (e uma escrita) que filtre a luz dos conflitos do meu tempo, na certeza de que são eles forças profundas, capazes de acender a fogueira da história e iluminar o enigma do que já foi, do que é e do que vai ser. (...) não adianta procurar nas palavras o que elas não podem dar (o sentido da vida, o enigma do mundo, a memória de quem não tem memória) nem fazer delas um simulacro (...). somos sonhos inacabados, matéria que se molda na vida, vertendo o sentido da história, transtornando a pele (tambor de todos os ritmos) em fonte de conflito e motor da história que ainda está por vir. da minha janela explode o mundo, um menino rouba o fogo do céu e me explica que a palavra é palavra no tempo. (Walter Sebastião)
    • O passado é que veio a mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido: apenas, não estou sabendo decifrá-lo. (Guimarães Rosa)
    • eu quero aquele momento em que se desgoverna o mundo, o caos aparente dos aflitos, o sentido que existe num outro sentido. (Walter Sebastião)
    • Estar preso ao passado é estagnar-se no presente; mas dedicar-se à crítica e/ou à descrição reflexiva desse passado, transformando-o, se possível, em poesia, talvez seja a única oportunidade que temos de dinamizar as nossas experiências de vida atuais e de nos movermos satisfatória e dignamente em direção ao futuro. (Paul Stoffel)
    • Toto, estou achando que não estamos mais em Kansas. (Dorothy, em O Mágico de Óz)
    • Esforcei-me para criar algo profundamente significativo e, ao mesmo tempo, inteiramente inexplicável. (Johann Wolfgang von Goethe)
    • Há somente [duas] histórias que importam, a história daquilo em que uma vez você acreditou e a história de como você veio a acreditar. (Kay Boyle)
    • Não devemos nos responsabilizar apenas por aquilo que fizemos, mas também por aquilo que deixamos de fazer.
    • Desde que tenhamos a coisa diante dos olhos e que nosso coração esteja à escuta... (Heidegger, A experiência do pensamento, cit. por Lia Tomás In: Ouvir o lógos: música e filosofia)
    • Para alguns livros não estamos prontos./ Quando os lemos, tal leitura esconde/ o visto e o não visto nos pespontos./ Se algo clama não sabemos onde./ Desses muitos livros nos livramos/ como quem se esquece de si mesmo./ Num dia a árvore perde os ramos, noutro as raízes, e vai a esmo/ até perder o ar que nunca teve/ a música, a memória, o chão/ que não conhece e que não reteve/ uma só lembrança dos que vão/ à mingua, de milênio em milênio ... (Iacyr Anderson Freitas In A Soleira e o Século)
    • Quem, de três milênios,/Não é capaz de se dar conta/ Vive na ignorância, na sombra,/ à mercê dos dias, do tempo. (Johann Wolfgang von Goethe)

    Nota preliminar do editor: O texto que se segue procura descrever, sobretudo a partir de minhas recordações pessoais, a trajetória da formação e atuação de um grupo de pessoas que descobriram, em um determinado momento de suas vidas (mais exatamente no ano de 1982), interesses (artísticos) comuns; e que, em função deste fato, procuraram desenvolver um trabalho coletivo no qual, além das preocupações estéticas propriamente ditas, revelasse a forma como esses interesses eram compartilhados entre elas. O presente texto não tem a pretensão de ser a história (oficial) do grupo, mas sim uma história possível, fundamentada no meu olhar particular e, espero, não tendencioso e não parcial em direção àquele período (muito embora utilize também uma vasta documentação, sobretudo fotográfica e jornalística). No entanto, reservo-me o direito de evidenciar certos aspectos dessa história, mesmo porque não há como abranger pormenorizadamente todos os eventos ocorridos naquele período em função do tempo decorrido desde a formação do grupo (pois mesmo as matérias jornalísticas, por exemplo, por mais objetivas que pretendam ser, apresentam, via de regra, a perspectiva do repórter que a escreveu...). A maior parte dos materiais aqui disponibilizados - tais como as reproduções de fotografias, cartazes, amostras musicais, matérias jornalísticas - integra o meu acervo pessoal e, com essa nova versão da página, aparecem em maior quantidade relativamente à versão anterior (há também a transcrição de conversas informais com ex-integrantes do grupo e com pessoas que acompanharam a sua trajetória). No entanto, e devido ao fato desse material não representar obviamente a totalidade de informações disponíveis sobre o grupo, não foi possível e nem é pretensão minha, esgotar o assunto ou não admitir que certas informações se apresentam incompletas (No entanto, procurei desviar-me o máximo possível de uma perspectiva ficcional). Um exemplo dessa circunstância é a seção intitulada "Uavisiliu: antecedentes artísticos": as informações apresentadas restringem-se a um único evento, o que certamente não significa que não ocorreram outros fatos que contribuíram para a formação do grupo. Desta forma, e apesar dessas limitações, espero que o material disponibilizado neste sítio possibilite ao visitante uma apreciação relativamente detalhada sobre a formação e a atuação do grupo, assim como também auxilie o leitor a perceber o papel desempenhado pelo Uavisiliu naquele momento específico da história cultural de Juiz de Fora. O sítio original, ainda incipiente e incompleto, se comparado à atual versão, foi criado em fevereiro de 1997 (portanto, dezesseis anos após a formação do Uavisiliu), e, neste mesmo mês e ano, disponibilizado na Internet. Deste ano até o presente, o texto principal e o sítio propriamente dito passaram por várias revisões que, no entanto, não alteraram significativamente o seu conteúdo. No entanto, esta última versão do texto principal aqui apresentada, assim como da página como um todo - cuja revisão iniciou-se efetivamente em julho de 2003 e que começou a ser preparada em janeiro desse mesmo ano -, marca o vigésimo primeiro aniversário de fundação do grupo, apresentando retificações de eventuais incorreções, inclusão de novos parágrafos, de novas reflexões pessoais e descrições sobre o trabalho e a atuação do Uavisiliu, assim como também novas imagens, novos itens e novas subseções. Dessa forma, a presente edição em hipertexto de uma das possíveis histórias do Uavisiliu tem por objetivo - além de, certa forma, organizar minhas memórias pessoais sobre o grupo -, possibilitar a um público mais amplo, conhecer (com o auxílio da documentação disponível e com o detalhamento que a minha memória permite) a trajetória de um dos inúmeros grupos artísticos que surgiram nas últimas décadas do século passado em um dos inúmeros períodos de significativa efervescência cultural da cidade de Juiz de Fora (Minas Gerais, Brasil). E espero, com uma expectativa contida, que os demais ex-integrantes do Uavisiliu e as inúmeras pessoas que acompanharam a sua trajetória encontrem aqui uma descrição à altura das significativas experiências estéticas e existenciais pelas quais passamos; assim como também que os futuros visitantes e aquelas outras milhares de pessoas que já visitaram este sítio, venham a ter ou tenham tido a oportunidade de vivenciar em algum nível e a partir do conteúdo do mesmo, a experiência criativa e o "estado de disponibilidade poética" desenvolvidos pelo grupo Uavisiliu durante aqueles poucos meses de sua existência.

    Paulo Motta

    Resumo: Este artigo em hipertexto descreve a trajetória do Grupo Multimédia Uavisiliu, que atuou na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, no inicio da penúltima década do século XX. O Grupo Multimédia Uavisiliu priorizou a integração de diversas áreas artísticas - música, dança, artes plásticas, poesia e teatro -, em um trabalho que preconizava a experimentação artística. O texto é fundamentado nas memórias e documentos do acervo pessoal do autor, assim como em matérias jornalísticas e conversas informais com pessoas que participaram daquele momento único e específico da vida cultural de Juiz de Fora, no qual principalmente músicos, poetas e artistas plásticos compartilhavam entre si suas experiências pessoais desenvolividas em cada uma de suas áreas de atuação. O autor procura vincular a proposta estética do grupo a esse momento cultural, levantando a hipótese de que o trabalho desenvolvido por seus integrantes sistematizava - talvez involuntariamente - essa aproximação informal entre linguagens artísticas distintas. Tendo em vista a sustentação dessa hipótese, o artigo apresenta a descrição detalhada da formação do grupo e do trabalho desenvolvido (ao longo de aproximadamente dois anos de sua existência), amostras musicais, imagens dos componentes do grupo, de cartazes de concertos e cenários, descrição de peças musicais, discografia e referências ao grupo em artigos, hipertextos e publicações.

    Palavras-chave: Uavisiliu - Música - Dança - Artes Plásticas - Poesia - Teatro - Arte - Interdisciplinaridade - Multimédia.

    Abstract: This article describes the path of the Grupo Multimédia Uavisiliu, that acted in the city of Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil, in begin of the 1980's. The Group Uavisiliu prioritized the integration of several artistic areas - music, dance, visual arts, poetry and theater -, in a work that prioritized the artistic experimentation. The text is based in the memories and documents of the author's personal collection, as well as in journalistic matters and informal conversations of the author with people that participated in that only and specific moment of the cultural life of Juiz de Fora, in which mainly musicians, poets and visul artists shared your personal experiences developed in each one of your areas of performance. The author tries to link the aesthetics proposal of the group to that cultural moment, lifting the hypothesis that the work developed by your members it systematized that informal approach among different artistic languages. Tends in view to sustent this hypothesis, the article presents the detailed description of the formation of the group and of the developed work (along approximately two years of your existence), musical samples, images of the components of the group and of posters of concerts, description of musical pieces, discography and references to the group in articles, hipertexts and publications.

    Key-Words: Uavisiliu - Art - Music - Dance - Visual Arts - Poetry - Scenic Arts - Interdisciplinarity - Multimedia.

    Dedicatória: Este sítio é dedicado a todos que compartilharam, direta ou indiretamente, aqueles momentos de "criatividade irrestrita" vivenciados durante o curto, porém intenso, período de atuação do Uavisiliu - no qual, parafraseando os poetas Fernando F. F. Furtado e Walter Sebastião, "...sonhávamos frutos de outro pomar" e, talvez sem nos darmos conta, procurávamos "o sentido que existe num outro sentido"; em especial aos amigos e companheiros Osvaldo "Subudha" Alvarenga (Subudha, agora só falta a sua foto ao lado do Osho!!!), Angela Boza, Adriana Mourão, Cláudia Gaio, Petrônio Dias, Marcos Petrillo, Fábio Ribeiro, Alfredo Pereira Junior, Edle Frota (In memorian), Guilherme Bernardes e o TQ, Bia Ozório, Cris e Liana, Max Bastos, Carlos "Kain" H. Pereira, Myrna, Else Faria Motta (In memorian), César Brandão, Jeanne Peduzzi, Adauto Venturi, Patrícia Borges, Iacyr Anderson Freitas, Fernando F. F. Furtado, Priscila Frota, Marcelo Braga, Jorge Arbach, Maria Alice (Marrackech), Henrique Lott, Marcos A. G. Bentes, Anamir, Cláudia Rocha, Bré, Mara Bastos, Clarice Pereira, Lu Pereira, Alfredo Pereira (In memorian), Lê, Míris, Mário Nalon, Tadeu Grizendi, Craw, Roberto Vieira, Rui Merheb (In memorian), Marcelo Mega, Mário Gil, Walter Sebastião, Luis Henrique Boechat (Pico), Rodrigão, Virginie, Ian, Zavier (e os demais integrantes do Metrô), Laurent Cardon, Cat Gut, Daniela Salim, Humberto Nicoline, Grupo Elemental (SP) e tantos outros que, tendo ou não participado da formação do grupo, acreditaram, cada um a seu modo, na possibilidade de se criar novos sons, novos movimentos corporais, novas imagens e uma nova poesia a partir do risco, do experimento e da contínua transformação do conhecimento e da intuição artísticas como forma de aprimoramento e otimização das relações interpessoais.

     

    A TRAJETÓRIA DO UAVISILIU

    Formação do grupo

    No final de 1981 surge em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil, um grupo que reunia músicos, dançarinos e artistas plásticos. A sua formação mais constante foi a seguinte (Obs.: A entrada dos nomes está disposta em ordem alfabética): Beatriz Ozório (voz, percussão e leitura de textos), Carlos H. Pereira (Kain)(violão de cordas de nylon, violão de doze cordas (de aço), piano, objetos sonoros, fita magnética e voz), Edson Zaghetto (violino, piano e fita magnética), Max Bastos (flauta transversa, saxofones soprano e contralto, piano, fita magnética e voz), Paulo Motta (piano, percussão, fita magnética, voz, cenografia e movimentos corporais) e Priscila Frota (movimentos corporais, voz, leitura de textos e fita magnética). Vários outros artistas locais participaram de suas atividades, dentre eles o artista plástico Cesar Brandão (cenografia), o fotógrafo Marcelo Mega, o dançarino Marcelo Braga e as dançarinas Cláudia Rocha (Cacá), Daniele Salim e Jeanne Peduzzi . O grupo se tornou, no meio artístico local, a referência de uma vivência e um fazer artísticos extremamente significativos e compromissados com uma linguagem sintonizada com a contemporaneidade e com uma estética que procurava romper com os modelos artísticos acadêmicos consagrados. Segundo o jornalista, poeta e crítico de arte Walter Sebastião, o grupo se constituía "numa inteligente fusão de música e dança, como uma forma de transcender os dois campos, e propor uma reflexão sobre a fragilidade das divisões entre os gêneros artísticos" (Jornal Tribuna de Minas, 12 de nov. de 1982, Caderno Dois, p. 3). Esse parecer de Walter Sebastião é complementado por Helen R. Mitchell - pesquisadora da Scarborough School of Arts, University of Hull, Inglaterra -, ao afirmar, em seu artigo Straddling the Intersection, que o Uavisiliu consistia em um grupo experimental com uma perspectiva estética preponderantemente eclética, que "objetivava a combinação de uma vasta gama de elementos em suas apresentações [cênicas], incluindo dança, poesia, música e artes visuais." Por outro lado, Carlos H. Pereira, muito embora reconheça essa perspectiva multidisciplinar, muito oportunamente considera que certamente o grupo procurou integrar diversas áreas artísticas "através de uma linguagem experimental, (...) mas [tendo sido a música uma das principais] manifestações [daquele] momento de efervescência cultural em Juiz de Fora", os integrantes do Uavisiliu elegeram a música como ponto de partida e motivação inicial para se estabelecer as aproximações entre os diversos gêneros artísticos com os quais trabalhavam.

    Naquele que talvez seja o único texto que procura definir as propostas do grupo - escrito (em julho de 1982) por Priscila Frota para o terceiro número da revista Bizzu (editada em Juiz de Fora por Marcos Petrillo de Paula durante a primeira metade dos anos 1980) -, encontramos um delineamento mais preciso, embora oportunamente poético em algumas passagens, da estética proposta pelo Uavisiliu, assim como também, até certo ponto, algumas pistas para o significado do enigmático nome do grupo (Obs.: O texto foi transcrito com os caracteres nos mesmos formatos do texto original):

    Fotografia: Adauto Venturi 1983Priscila Frota, fotografada por Adauto Venturi em 1983.

    "A lua cheia está no céu liso da noite e anéis de luzes diversas emitem para todo o Universo o mistério da sua luz original... UAVISILIU é como a lua... E as perguntas surgem: qual é proposta do trabalho? Estamos nada mais nada menos do que desenvolvendo estes anéis que se manifestam, para descobrir o centro original da arte. Pois a verdadeira (e esquecida) arte é a 'não limitação' dos recursos do homem. O trabalho é absolutamente de pesquisa. É a experimentação do 'não-experimentar'. Sem definições. Sem rotulações. Um livre fluir. É o tempo todo deixar vir à tona a liberdade de criação individual-coletiva.... Entrelaçando-se umas às outras, fazendo com que expressões ali adormecidas se desenvolvam e brotem na superfície. Esse entrelaçar envolve um primeiro plano: a música e a dança; e a seguir surgem a plástica, o teatro, a poesia... Isso acontece porque simplesmente nenhuma forma de expressão artística está separada... 'Normalmente' a arte está dividida em sessões, compartimentos especiais para cada forma de criação. E é exatamente isso que não queremos que aconteça. Não existe essa divisão - ela é aparente. Uma manifestação complementa a outra. Por isso afirmamos ser um trabalho de pesquisa. Buscamos diferentes anéis, impressões diversas. E queremos imprimir reações diversas, pois é o que acontece a cada instante da vida. Umas das metas do grupo é fazer com que as formas de criação surjam no mesmo instante, ao mesmo tempo, a partir de um ponto, ponto que é expressão comum das diferentes expressões da criatividade humana. E a criatividade nada mais é do que a comunicação instintiva e primária do homem. Falta é espaço para isso. Portanto, queremos desenvolver, ou melhor, desenvolvemos a "MÚSICA ESPONTÂNEA PARA DANÇA ESPONTÂNEA', como se germinassem da mesma semente. Uma incitando da outra a se manifestarem de modo puro. O desenrolar natural dos sentidos sendo expostos de dentro para fora e fora para dentro. É todo um jogo... A música faz despertar gestos e movimentos que o corpo já possuía anteriormente, sempre possuiu. A música invade lugares nas entranhas e movimentos surgem do invisível que sempre morou no interior. E ao mesmo passo em que a dança, refletindo as impressões da música, faz com que a música flua a partir de um movimento que está para nascer em espaço de tempo nenhum, pois uma já se entrelaçou na outra, e a espontaneidade passa de lado a lado. Por isso é um jogo. É um jogo de reciprocidade, de integração, de contemplação e de loucura lúcida. A música é força sonora. Cada nota é canto evocativo. A música é mântica. E a dança é como experimentar essências raras, de ervas raras de lugares raros, comuns em todo o Universo. E a arte é uma maneira de existir. UAVISILIU é uma forma de existir. E isso é ótimo!"

    Priscila Frota, fotografada por Paulo Motta em outubro de 2003.

    O nome do grupo, criado por Priscila, pretendia significar, além de uma "forma de existir", a proposta estética do Uavisiliu que, pretendendo-se inédita, necessitava, no entender de seus integrantes, de um nome igualmente inédito. Na verdade, Priscila Frota tinha o hábito de criar longas frases com palavras originais e que, longe de serem derivadas ou formadas de outras já existentes, soavam como verdadeiros novos idiomas. O termo "Uavisiliu" foi criado numa dessas ocasiões em que Priscila se dedicava a esse livre exercício de "criatividade vocabular e lingüística", por assim dizer. O mais interessante é que Priscila, dotada de uma grande expressividade corporal, criava esses vocábulos em simultaneidade com as seqüências de movimentos corporais que, por sua vez, objetivavam dar a esses vocábulos o que se poderia chamar de "uma forma dinâmica e corporal". Assim, esse exercício de criação dos movimentos corporais era pautado tanto pelo ritmo dos novos vocábulos quanto pelo timbre de seus fonemas.

    Fac-simile, com caligrafia de Priscila Frota, de uma das inúmeras tentativas de definição do neologismo UAVISILIU, e que eram frequentemente realizadas por ela e pelos demais integrantes do grupo. Neste caso, aproveitou-se as letras que integram o novo vocábulo para se definir - muito embora despretenciosamente - as perspectivas de criação coletiva. Prevalece, aqui, a livre associação de idéias, em detrimento de uma tentativa puramente racional de se procurar estabelecer definitivamente as perpectivas estéticas do grupo.

    Na verdade, o texto de Priscila, editado na Revista Bizzu, deixa entrever um dos trabalhos embrionários que deram origem ao grupo, e que vinha sendo desenvolvido anteriormente por ela e por Paulo Motta desde o início de 1981: a proposta de aproximação de linguagens artísticas diversas (no caso música, dança, artes plásticas e poesia) redundou na exposição Fragmentos, ocorrida na galeria do restaurante Marrackech (Juiz de Fora) em novembro desse mesmo ano. Em uma reportagem jornalística sobre o evento, menciona-se também um trabalho específico de aproximação entre música e dança desenvolvido pelos artistas, no qual a música, inicialmente, procurava estimular a realização de movimentos corporais. A matéria jornalística denominada Amanhã, no Marrakech, a mostra "Fragmentos", publicada no Jornal Tribuna de Minas em novembro de 1981, noticiou o evento:

    Frisando a importância de se fazer pesquisas com novos materiais em arte Paulo Motta e Priscila Frota, inauguram amanhã, no Bar e Restaurante Marrakech (Rua Espírito Santo, nº 1081), uma exposição de desenhos e textos chamada Fragmentos. São 14 desenhos feitos com grafite e pó de acrílico sobre lixa, cortiça e papel. Segundo Paulo Motta, "são simples fragmentações da forma, como se após um período de concentração de forças elas se libertassem e explodissem como um átomo." "- Eu fragmento a forma e Priscila tenta aglutinar estes fragmentos com seu texto, em poemas, contos e narrativas. Não é uma ilustração e [o trabalho de Priscila] foi feito simultaneamente com o meu desenho." A colaboração dos dois artistas surgiu a partir da exposição de Henrique Lott, ano passado, na Capela Galeria de Arte, onde Priscila dançava. "Ela ficou sabendo que eu desenhava e eu fiquei sabendo que ela escrevia, então resolvemos fazer um trabalho juntos." Além desta exposição, Paulo e Priscila estão desenvolvendo um trabalho chamado Música Espontânea para Dança Espontânea sobre a relação música-gesto-dança que, "a partir de temas musicais básicos procura estimular uma reação física e o movimento do corpo que consequentemente se transforma em dança."

    À esquerda: O pequeno dinossauro adormecido que sonha com uma pauta na qual, em lugar das notas, aparece as letras que compõem o vocábulo Uavisiliu, foi casualmente criado por Priscila Frota e utilizado como símbolo do grupo. O desenho do animal surgiu ao se retirar uma fina camada de plástico que recobria uma pasta de papelão. Em seguida, Priscila realçou, com um traço de caneta, a linha-limite entre o plástico e o fundo de papel, fazendo com que surgisse o contorno da figura. A pauta musical, sugerindo uma imagem onírica (e que foi acrescentada posteriormente), sugere a manifestação inconsciente (e arquetípica?) dos processos que envolvem a criação artística; processos estes que, no entender dos integrantes do grupo, se concretizavam durante os "laboratórios de criação" que antecediam as apresentações.

     

    Essas relações entre dança e música desenvolvidas nesse período que antecedeu à formação do grupo (e que também delineou as suas atividades nos primeiros meses de sua existência), poderiam ser assim resumidas:

    Todo e qualquer movimento corporal que surge a partir de um motivo musical, torna a música visível; é, intrinsecamente, música visível. E cada indivíduo, em sua singularidade, "corporifica" a música a partir de sua interioridade, de sua experiência de vida e de sua sensibilidade, que são intransferíveis (muito embora compartilháveis) e próprias de cada ser humano: o dançarino, no máximo, talvez consiga despertar no outro a urgência ou a necessidade de realizar seus próprios movimentos. Cada indivíduo, portanto, ao dançar, transforma a música - suas sonoridades e seus silêncios - em imagem e em movimento a seu modo e não há como seguir um método, uma técnica ou um modelo que seja externo à sua própria individualidade. Tais movimentos são originais, no sentido de que são originários de cada sujeito e se identificam com aspectos intrínsecos àquele que dança. Obviamente que esses movimentos manifestariam, à princípio, influências externas. Mas se o dançarino colocar de antemão essa "intencionalidade corporal", gradativamente seus movimentos se tornarão únicos. E se o dançarino se entregar verdadeiramente à música e ao seu próprio ritmo corporal (por ela suscitado), ele (o dançarino) se transformará na própria dança e na própria música. Assim como aqui se atribui ao termo "dança" esse sentido mais amplo, o termo "música", no sentido que aqui o empregamos, também passa a ter um sentido mais dilatado. Lembremo-nos que a música, mesmo em sua conotação corriqueira, também incorpora o silêncio, a relativa ausência de sons. Dessa forma, a música poderia ser definida como a possibilidade de organização tanto de sons e silêncios. E, num sentido cageano, poder-se-ia organizar apenas o silêncio, no sentido de que o músico que se propusesse a não produzir sons (a não se manifestar através de "gestos musicais"), daria a oportunidade ao dançarino - e a ele mesmo - de se envolver com a atmosfera sonora que emerge dessa não execução musical. Assim, o dançarino poderia "dançar o silêncio", silêncio este que também é música. E essa "música (relativamente) inaudível" não redundaria necessariamente em "dança invisível": essa dança singular não prescindiria de uma música exclusivamente "sonora", pois ela poderia surgir da ausência relativa de sons, neste caso, de sons musicais intencionalmente organizados. A "conquista" dessa corporificação singular da música (silenciosa ou não) poderá ocorrer em frações de segundos ou, diferentemente, necessitar de um tempo prolongado para se manifestar, dependendo, dentre outros aspectos, da disponibilidade e pré-disposição de cada dançarino. Em última instância, deveria ser essa a perspectiva de todos aqueles que se propõem a criar movimentos e a se expressar coporalmente através da dança. O dançarino não movimenta apenas o seu corpo, mas também o espaço-tempo à sua volta. O tópos do dançarino não se restringe aos limites do seu corpo pois, no sentido aqui descrito, ele tem a capacidade de plasmar e organizar (ou desorganizar) o espaço-tempo que o envolve e que é por ele envolvido. Ao assumir a responsabilidade estética e artística de seus próprios movimentos, assim como também essa possibilidade de modelar e interagir com a sonosfera e o espaço-tempo que o envolvem, o dançarino se torna relativamente livre de métodos e técnicas externas à sua corporeidade e amplia a sua dimensionalidade estético-corporal. Ele deverá, portanto, se entregar a esse "momento eficiente" (no dizer de Luiz Carlos Maciel) e que também deverá ser considerado e percebido como único, impossível de ser novamente vivenciado. Isso implica no fato de que os movimentos produzidos são efêmeros, e não repetíveis. Cada dançarino, ao assumir a sua própria "estética corporal dos movimentos" teria, assim, as suas motivações particulares e pessoais para realizar tais movimentos. E esses movimentos não teriam que ser necessariamente descritivos, "belos" ou "equilibrados"; ou, em última instância, representativos de alguma escola, tradição ou tendência estética. Antes, eles deveriam trazer alegria, satisfação e regozijo ao dançarino. Parafraseando Augusto Boal, os dançarinos deveriam substituir o conceito de belo pelo conceito de felicidade. Ou seja, deveriam procurar a satisfação em movimentos corporais próprios e não necessariamente "belos" e que independessem de conceitos ou modelos pré-estabelecidos por alguma tradição, tendência ou escola. O sentido de belo deveria se relacionar mais à singularidade dos movimentos corporais do que à possibilidade de serem esses movimentos "belos" ou "equilibrados" em função de seguirem alguma orientação estética alheia à interioridade do sujeito. O dançarino, diferenciadamente do músico ou do artista plástico, tem no seu corpo o suporte de sua expressão artística. E, sendo seu próprio corpo esse "suporte", ele deveria seguir o princípio do prazer, da satisfação em criar seus próprios movimentos corporais. É aí que reside a liberdade radical e incomparável do dançarino. Abrir mão desse privilégio é desconsiderar essa liberdade em nome de "imposturas coreográficas" ou "modelos de movimentos corporais" que são externos às necessidades únicas e individuais do corpo de cada indivíduo que se movimenta através da dança (muito embora obviamente esse individualismo não o impossibilite ou o incapacite de dançar em grupo, juntamente a outras "individualidades corporais", e que são, por sua vez, igualmente exclusivas no que diz respeito aos movimentos corporais que produzem: a única semelhança entre os dançarinos seria a de que cada um deles traz em si elementos de ordem qualitativa referentes aos seus movimentos corporais singulares). E esse "hedonismo individualista" dos movimentos corporais se apresentaria como a medida ou como o parâmetro por excelência da responsabilidade de cada dançarino para consigo mesmo e, consequentemente, para aqueles que eventualmente se dispusessem a compartilhar com ele a liberdade de seus movimentos corporais. (MOTTA, Paulo. Música visível: a dança como hedonismo estético e liberdade radical dos movimentos corporais, texto redigido entre os dias 23 e 26 de fevereiro de 2004 como reflexão e desdobramento reflexivo-descritivo das relações entre música e dança propostas e desenvolvidas pelo Uavisiliu à época de sua formação).

    A partir do momento em que Priscila Frota e Paulo Motta passam a se encontrar casual e esporadicamente com outros artistas (no caso, os demais futuros integrantes do Uavisiliu) que compartilhavam de interesses e perspectivas artísticas semelhantes, o grupo começa, de fato, a se formar. Há que se destacar aqui, o fato de que todos os integrantes do grupo foram fundamentais para a sua criação e produção dos trabalhos; ou seja, todos podem ser considerados membros-fundadores e responsáveis pela definição da(s) linha(s) estética(s) posteriormente desenvolvida(s). Essa particularidade ocorreu sobretudo devido ao fato de cada participante, mesmo permanecendo no grupo apenas em função da montagem de um espetáculo especifico (como foram os casos dos dançarinos Marcelo Braga e Cláudia Rocha), sempre encontrar espaço para contribuir com suas próprias idéias e práticas artísticas. Obviamente que ocorriam discussões acaloradas, por exemplo, durante os ensaios. Mas devido à motivação principal ser a de se procurar desenvolver uma espécie de "laboratório artístico" (no qual as idéias deveriam ser experimentadas à medida que surgissem e descartadas ou não a partir da avaliação de sua plausibilidade e relevância estéticas), essas discussões se tornavam apenas um momento de elucidação verbal das possibilidades de execução das idéias apresentadas.

    A estréia no Domingo Musical da UFJF: junho de 1982

    Dessa forma, esse período de formação do grupo, a partir dos encontros fortuitos entre os futuros participantes, se estendeu entre o final de 1981 e os primeiros meses de 1982. E durante todo o primeiro semestre desse último ano, com ensaios diários, o grupo prepara-se para sua estréia no Domingo Musical (que ocorreria na Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora no dia 6 de junho), organizado pelo Diretório Central dos Estudantes. A motivação para o início dos trabalhos foi, além do convite para esta apresentação, a crescente afinidade das perspectivas artísticas dos integrantes. Cada componente do grupo, com sua personalidade e formação musicais individuais, contribuiu para que as composições - sempre realizadas em grupo e integradas à criação de movimentos corporais por parte dos dançarinos - se caracterizassem por apresentarem peculiaridades formais muito próprias. Na verdade, o trabalho em grupo revelou-se, cada vez mais, como uma oportunidade para o livre experimento sonoro-musical associado aos movimentos corporais, fazendo com que os ensaios se revelassem definitivamente como verdadeiros momentos de experimentação artística destinados à relação interdisciplinar entre linguagens artísticas distintas. A consistente formação musical dos integrantes do grupo (que era basicamente erudita, tendo alguns deles estudado com importantes professores do cenário musical brasileiro, dentre os quais Mauro Senise, Manuel Devaux e Paulo Bosísio) e a expressiva execução musical dos mesmos, se associava muito convenientemente ao trabalho predominantemente intuitivo de elaboração dos movimentos corporais.

    O espetáculo apresentado no Domingo Musical, que contou com a participação do percussionista Bré (que atualmente acompanha vários nomes de destaque do cenário musical brasileiro), consistia de uma composição musical de cerca de trinta minutos, com predominância de elementos minimalistas. A música ia sendo "construída" paulatinamente; ou seja, cada executante repetia, primeiramente, durante uns cinco ou seis compassos, uma mesma célula melódica que recebia acréscimos de uma ou duas notas a cada término do grupo de compassos. Quando o primeiro executante completava o seu ciclo, o próximo instrumentista iniciava a sua execução nos mesmos padrões anteriores. Quando todos os integrantes completavam os seus ciclos melódicos, a peça apresentava uma textura timbrística variada e uma complexa configuração rítmica. Simultaneamente, os dançarinos davam forma a seus movimentos corporais seguindo o mesmo padrão da peça musical.
     
    Clique aqui para ouvir (mp3, 40 kbps, 262 Kb, 15 segs., mono) uma das células musicais criadas no Glockenspiel (ou metalofone, um dos intrumentos musicais usados nesta peça) por Paulo Motta: a melodia progressivamente ganha forma, completando um ciclo ritmico e melódico. Com a participação dos demais intrumentos, cada uma dessas células rítmico-melódicas, ao serem completadas, era acrescida de uma nova progressão ritmico-melódica (realizada por outro instrumentista) e que, por sua vez, também progressivamente, ia sendo construída e sobreposta à anterior.
     
    Da esquerda para a direita: Paulo Motta, Max Bastos e Edson Zaghetto na estréia do Uavisiliu, 6 de junho de 1982, Domingo Musical, Praça Cívica da Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil.
     
     

    Os dançarinos haviam criado seus movimentos corporais, até certo ponto, a partir dessa composição; mas, por outro lado, grande parte dos movimentos realizados durante a preparação espetáculo influenciaram o trabalho composicional dos músicos (conforme a proposta de trabalho original praticada e desenvolvida durante os ensaios). Na verdade, o resultado final se apresentava como um trabalho estruturado de forma determinada e, sob certo aspecto, definitiva no aspecto concernente à forma. Mas a música apresentada havia sido criada não apenas como um trabalho isolado dos músicos: esses últimos trabalhavam experimentalmente ao lado dos dançarinos; e esses, por sua vez, ao lado dos músicos, em uma constante troca de idéias. Esse talvez tenha sido o aspecto diferencial entre o Uavisiliu e os demais grupos de música e grupos de dança: a música não era composta previamente para que um grupo de dança criasse uma eventual coreografia (como "normalmente" acontece); e, por outro lado, os movimentos corporais não eram criados a partir de uma peça musical composta previamente. Ou seja, tanto a música quanto os movimentos corporais eram criados simultaneamente, sendo que músicos e dançarinos compartilhavam de um mesmo e único "momento de criação artística".

    Espaço Cultural, Noites do Bizzu e Lira Paulistana

    A segunda apresentação do grupo ocorreu na primeira Noite do Bizzu, ocorrida no dia 20 de Agosto de 1982, e que contou também com participação de Luiz Carlos Maciel, Toninho Buda, Antônio Guedes e Rogério Ski-Lab como outras atrações convidadas pela produção do evento. O espetáculo apresentado pelo Uavisiliu seguia as mesmas orientações estéticas do anterior apresentado no Domingo Musical, muito embora a música se apresentasse muito mais fragmentada em relação àquela composta para o primeiro espetáculo. Ocorreu uma certa radicalização das propostas estéticas, sobretudo no tocante à experimentação musical. Dessa forma, não se mostrou adequada uma estruturação minimalista da composição musical, sendo que o conceito estético-musical predominante foi o de "simultaneidade sonora indeterminada". Assim, o espetáculo consistia, na maior parte de sua duração, de "sons musicais" associados a ruídos, não havendo uma relação necessariamente determinística entre eles. Houve, por exemplo, a execução simultânea de vários instrumentos musicais desafinados (um questionamento não teórico da predominância do sistema temperado de afinação na música ocidental?); a quebra amplificada de pratos de porcelana associada à execução musical tradicional (um "questionamento prático" acerca da "tirania" do efetivo instrumental tradicional?); e a leitura simultânea de um mesmo texto nos idiomas português e sânscrito (demonstração da necessidade de se "ouvir outras vozes artísticas" e outras propostas estéticas que não aquelas divulgadas insistentemente pelos meios de comunicação?). Essa parte do espetáculo foi concebida apenas para a apresentação musical, não estando prevista a inclusão de movimentos corporais. E, muito embora o Uavisiliu já não contasse mais com a participação dos dançarinos Marcelo Braga e Cláudia Rocha, Priscila Frota atuou no momento seguinte, no se poderia denominar de intermezzo; e que, de certa forma, dividiu o espetáculo em dois momentos distintos: nesse intermezzo, Priscila realiza seus movimentos corporais apenas com a execução pianística de Paulo Motta, o que veio a ser considerado um dos momentos marcantes da apresentação (devido, sobretudo, ao contraste entre a languidez - muito embora com um alto grau de expressividade - dos movimentos corporais e a execução musical precedente). Efetivamente, nesse momento da apresentação, o público pode presenciar, pela primeira vez após a formação do grupo, a demonstração tácita de uma das propostas estéticas embrionários da formação do Uavisiliu, ou seja, a realização de "música espontânea" para "dança espontânea" (momento no qual a música estimulava a criação de movimentos corporais e estes, por sua vez, imprimiam no músico a motivação para a criação musical). Tal fato irá ocorrer uma segunda vez mais em uma apresentação que ocorreu no dia 12 de novembro de 1982 durante o lançamento do livro Poema e Paisagem do poeta Petrônio Dias. Nessa ocasião, com música de Carlos H. Pereira (Kain) e Edson Zaghetto, Paulo Motta e Priscila Frota realizam a "dança estático-dinâmica" (termo criado para designar a especificidade dos movimentos corporais que se desenvolvem, primeiramente, nas laterais do palco. Cada um dos dançarinos está sob uma folha de plástico, onde ambos permanecem imóveis até um determinado momento do espetáculo. Após terem realizado movimentos corporais que procuram demonstrar uma busca de libertação corporal daquela atmosfera sufocante - representada pelas folhas de plástico -, caminham em direção ao centro do palco, destruindo o cenário - feito de folhas de papel celofane - montado à frente dos músicos. O fato desses últimos estarem atrás dessas folhas de papel celofane e a incidência da iluminação sobre as mesmas, criou um efeito inusitado: apenas nos momentos finais do espetáculo, o público pode perceber claramente a presença de Carlos H. Pereira (Kain) e Edson Zaghetto (uma vez que o reflexo da iluminação impedia que isso ocorresse) pois, até o momento em que os dançarinos destroem o cenário, apenas duas silhuetas humanas podiam ser vistas: a destruição do cenário, além representar a libertação dos dançarinos, simbolizava também a libertação da música das formas determinísticas e pré-estabelecidas de organização sonora.

    Ao final do ano de 1982, o então conceituado Centro de Artes Lira Paulistana - cuja teatro situava-se no antológico porão do n.o 1091 da Rua Theodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, São Paulo - abre as inscrições para o projeto "Boca no Trombone". Esse projeto convocava grupos de "música instrumental" de todo o país a se inscreverem e eventualmente serem selecionados para apresentações em um período de duas semanas que ocorreriam no mês de abril. O Lira Paulistana solicitava aos interessados o envio de uma fita de áudio, com o trabalho musical de cada grupo, para que a mesma fosse apreciada pela comissão de seleção do projeto. Dentre centenas de concorrentes, o Uavisiliu foi o único grupo não paulista a ser selecionado, após ter enviado uma peça musical que consistia em aproximadamente 60 minutos e incluía grande parte de gravações em fita magnética de composições originais do grupo registradas em sentido contrário. Na verdade, o fato do grupo ter sido aprovado, surpreendeu a todos, pois não se tinha, até à véspera do encerramento das inscrições, nenhum trabalho do grupo registrado; e, após o término da gravação daquela que seria a fita a ser enviada, todos duvidaram da possibilidade de participação no Projeto Boca no Trombone: o resultado sonoro-musical dessa gravação parecia fugir totalmente do perfil estético-musical que era proposto pelo Projeto. Era, na verdade, uma peça experimental que se constituía basicamente de improvisação coletiva, com influências de jazz contemporâneo, música minimalista, música erudita contemporânea e elementos de música eletroacústica.

     

    Após o recebimento da notícia de que o grupo iria participar do Projeto, os integrantes do Uavisiliu iniciaram a composição e os ensaios de uma longa peça que viria a ter aproximadamente 50 minutos contínuos. Em função da saída de alguns integrantes do grupo (Priscila Frota e Edson Zaguetto), os remanescentes do Uavisiliu se viram diante da tarefa de reestruturar o projeto inicial dessa peça, que incluía, além da composição musical propriamente dita, ambientação cenográfica e coreografia. A execução musical ficou a cargo de Max Bastos, Carlos H. Pereira (Kain) e Paulo Motta; e a cenografia ficou sob a responsabilidade do artista plástico César Brandão. No entanto, percebeu-se que, muito embora a saída de Edson Zaghetto fosse redirecionar grande parte da estrutura da composição musical, o desfalque maior veio a ser o fato de não se poder mais contar com a única dançarina que permanecera no Uavisiliu após a primeira apresentação do grupo, Priscila Frota, sobretudo em função do grupo estar há poucas semanas de embarcar para sua apresentação no Lira Paulistana.

    Paulo Motta e o "fantasma". Na verdade, o "fantasma" era o recurso usado pelo grupo para solucionar um problema recorrente: um dos pretendentes a integrante do grupo, Cat Gut, sitematicamente não comparecia para os ensaios e muito menos para as seções de fotografia, o que nos obrigava a procurar "alternativas visuais". Na fotografia ao lado, um amigo do fotógrafo Marcelo Mega, de codinome "Vietnã, aparece como o "fantasma" ao lado de Paulo Motta. Inadvertidamente, esse recurso auxiliou significativamente a divulgação do grupo, que passou a usar a imagem do "fantasma" com um recurso promocional.

    Em decorrência, durante esse curto período de tempo, os remanescentes do grupo se viram diante da difícil tarefa de encontrar uma nova dançarina que, inclusive, tivesse a disponibilidade de criar uma nova concepção coreográfica. Em decorrência, foi convidada a bailarina Jeanne Peduzzi; e este fato veio a ser extremamente importante para a memória Uavisiliu. Jeanne estava impossibilitada, à época, de comparecer aos ensaios do grupo e, consequentemente, de criar a coreografia. Tal circunstância forçou os músicos a procurarem uma alternativa para que Jeanne pudesse ter à sua participação garantida: optou-se por se fazer uma gravação da obra que seria apresentada em São Paulo, o que possibilitaria a Jeanne construir sua coreografia sem necessariamente comparecer aos ensaios (neste caso, circunstancialmente Jeanne criaria seus movimentos corporais a aritr de uma música previamente composta). Além disso, Jeanne dispunha de um local adequado para a efetivação de tal tarefa. As circunstâncias da participação de Jeanne no Uavisiliu, desta forma, motivaram a gravação do que é hoje o único registro musical do trabalho do grupo (a fita magnética enviada ao Centro de Artes Lira Paulistana, que continha a proposta de trabalho original, parece ter-se extraviado após a finalização das atividades do mesmo), recentemente editado em CD-R pelo EGAS com o título de The Legacy of Uavisiliu (a fita magnética foi masterizada por Carlos H. Pereira (Kain) em seu estúdio particular novaiorquino em 1999. Para a apresentação no Lira Paulistana, no entanto, o grupo apresenta uma versão menos extensa do que a deste CD). À direita, a capa do CD, criada em 1999 por Paulo Motta.

    Em março de 1983, às vésperas da viagem para São Paulo - e ainda procurando se reestruturar - o Uavisiliu se apresenta no lançamento do livro Verso e Palavra, do poeta Iacyr Anderson Freitas, no Espaço Cultural em Juiz de Fora. Com iluminação de Ângela Boza, fotografia de Cláudia Gaio e ambientação cenográfica de Cesar Brandão, o público se viu, ao se dirigir às poltronas, diante da curiosa tarefa de retirar os fios de barbante que haviam sido entrelaçados sobre as cadeiras do auditório por Cesar Brandão. Além disso, foi colocado à frente do palco uma cortina de papel de seda branco, fechando completamente a entrada do palco, e sob a qual foram projetadas imagens em slide durante a execução de uma fita magnética. Ao término desta última, os integrantes do grupo, que se encontravam na parte posterior do auditório, correm em direção ao palco, saltam sobre a cortina de papel e, ao rasgarem-na, dirigirem-se tranqüilamente aos seus instrumentos, iniciando, assim, a apresentação.

    Após essa apresentação e após esse curto período de tempo durante o qual o grupo se dedicou à reestruturação e finalização dos trabalhos, o Uavisiliu viaja para São Paulo. As apresentações no teatro do Centro de Artes Lira Paulistana aconteciam em simultaneidade com vários outros grupos de São Paulo. Ou seja, as aprresentações ocorriam em períodos de duas semanas para cada dois grupos, os quais dividiam o tempo da apresentação (o ecletismo dos estilos musicais dos grupos participantes era acompanhado pelo ecletismo do público que comparecia aos eventos). O espetáculo apresentado pelo Uavisiliu demonstrou ser inusitado até mesmo para o público paulista, acostumado a espetáculos mais ousados em termos de linguagem estética: aqueles que compareciam às apresentações do grupo ficavam aparentemente hipnotizados com a performance de seus quatro integrantes.

    A peça musical apresentada no Centro de Artes Lira Paulistana, com duração aproximada de 50 minutos, consistia em um trabalho que, embora coletivo, evidenciava em alguns momentos a maior ou menor contribuição individual de cada um dos músicos. Max Bastos (saxofones soprano e contralto, flauta transversa, piano e voz) Carlos H. Pereira (violão, piano e voz) e Paulo Motta (piano e voz) iniciavam a apresentação apenas com a apresentação de uma fita magnética, na qual havia a gravação de um lento arpejo de piano intercalado ao arpejo do violão, com a emissão eventual de notas prolongadas do saxofone soprano.

    A introdução em tempo real da peça ocorre quando os três músicos executam o piano à seis mãos (duração aproximada de 15 mins.). Em seguida, Max Bastos executa o saxofone soprano intercalado à emissão de ruídos vocais. Em um certo momento, aparece as vozes modificadas (com recursos de reverberação) de Bia Ozório e Priscila Frota a partir de uma fita magnética previamente gravada. A performance de Max Bastos (com cerca de 50 segs de duração) denota o seu virtuosismo e vem a ser um dos momentos mais marcantes de toda a apresentação, tanto pelo relativo ineditismo de sua execução musical quanto pela demonstração do domínio técnico do saxofone.

    Logo após, Paulo Motta introduz uma seqüência ao piano que sustenta, rítmica e harmonicamente, as performances de Max Bastos e Carlos H. Pereira (duração: cerca de 4 mins.).

    Em seguida, há um jogo contrapontístico (não no sentido técnico do termo, mas no sentido da constituição dialógica entre timbres, ritmos e harmonia) entre os instrumentistas, no qual há uma livre associação de sonoridades (um dos momentos da peça com maior força expressivo-musical) (duração: cerca de 1 min.).

    Ao final dessa parte, Max Bastos volta a pontuar essa complexa mistura de sonoridades e ritmos com as emissões vocais intercaladas ao som do saxofone, contribuindo ainda mais para aumentar a dramaticidade da tessitura rítmico-sonora resultante da expressiva atuação dos músicos.

    Essa parte culmina com um caos de sonoridades e ritmos interrompido abruptamente, ao qual segue-se a introdução de uma fita magnética na qual havia sido registrada anteriormente os sons modificados de uma guitarra elétrica (duração total: cerca de 5 mins. 30 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo)

    Segue-se um tema com um andamento lento, no qual se destaca a melodia da flauta acompanhada do piano e do violão de doze cordas (duração: cerca de 6 mins. 30 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo)

    Contrastando com a "languidez melódica" do trecho anterior, surge novamente uma seqüência rítmico-harmônico na qual o saxofone se sobressai, primeiramente, com notas prolongadas e, num segundo momento - que acontece após um curto intermezzo do piano - com uma melodia pontual e que se completa à medida que se acentua o ritmo executado pelo piano e pelo violão (duração: cerca de 6 mins. 45 segs.) (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo)

    Logo após, com o decrescendo do piano e do saxofone, o violão gradativamente se destaca e transformasse em um pequeno intermezzo solo, predominantemente rítmico, executado por Carlos H. Pereira. Em seguida, Carlos introduz um tema sob o qual o saxofone contralto emite notas prolongadas e o piano executa eventuais tremolos (duração total: cerca de 2 mins. 20 segs.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 15 segs., stereo)

    Em seguida, Carlos H. Pereira volta com um breve solo (duração: cerca de 45 segs.) e introduz uma coda, na qual são apresentados em retrospectiva e em forma de pequenas citações, todos os temas anteriormente desenvolvidos (duração total: cerca de 3 mins.). (Ouça uma amostra em mp3, 32 kbps, 13 segs., stereo)

    A peça encerra-se com o piano executando arpejos que, gradativamente, cedem lugar à fita magnética apresentada no início da peça.

    Da esquerda para a direita: Carlos H. Pereira, Max Bastos e Paulo Motta - em caricaturas de Laurent Cardon - à época das apresentações no Lira Paulistana (1983).

    A última apresentação

    Isto eu gostaria que tu soubesses: existe na separação o mesmo mistério que há no encontro. Em ambos os casos, uma porta se abre. No primeiro, abre-se para o passado; no segundo, para o futuro. A porta é sempre a mesma. (Wiesel)

    Após este evento, os integrantes do Uavisiliu apresentam-se em Juiz de Fora apenas uma vez mais, em dezembro de 1983, no Espaço Cultural. Mas, para este evento, o trabalho composicional não foi predominantemente coletivo e nem mesmo foi creditado ao Uavisiliu, assim como também não houve a participação de dançarinos: Carlos H. Pereira (Kain), Max Bastos e Paulo Motta apresentaram, nesse espetáculo por eles denominado Cristal, composições individuais em três momentos distintos. O grupo perdeu, assim, sua característica original, que era a de ser um "laboratório" coletivo de experimentação musical e movimentos corporais.

    À GUISA DE CONCLUSÃO

    Even Jeovah,
    After Moses had got the Commandments
    Committed to stone
    Probably thought:
    "I always forget the things
    I really intend to say".
    (Christopher Morley)

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do não
    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas
    essas ficarão
    (Carlos Drumond de Andrade)

    O Uavisiliu atuou no cenário artístico de Juiz de Fora em um momento ímpar da história cultural da cidade, particularmente caracterizado por um intenso intercâmbio de idéias entre artistas e produtores culturais de áreas artísticas distintas. Dessa forma, músicos, poetas, escritores, artistas plásticos e dançarinos procuravam se aproximar mutuamente com o intuito de compartilhar os conhecimentos e práticas de suas áreas de atuação específicas. Segundo o poeta Iacyr Anderson Freitas, o período que se estendeu do início dos anos 1980 até meados da segunda metade dessa mesma década constituiu-se em um momento único da história cultural da cidade, no qual havia "uma necessidade de partilha, de diálogos múltiplos, de não ver a arte como algo estanque em guetos ou gêneros", necessidade essa que engendrou uma convergência de interesses relativos à troca de experiências estéticas, ensejando a organização de eventos artísticos nos quais, via de regra, músicos e grupos de música se apresentavam em lançamentos de livros, artistas plásticos convidavam bailarinos para atuarem nas aberturas de suas exposições etc.

    Ao se procurar fazer uma reflexão sobre aquele contexto cultural, poderíamos conjecturar que o Uavisiliu - esperando não correr o risco de sermos parciais e presunçosos -talvez tenha sido o único grupo que, em função de suas propostas estéticas e tendo atuado naquele momento específico da história cultural da cidade, procurou objetivar - como "um peixe que rasura a transparência do aquário" (Walter Sebastião) e com uma prática coletiva e multidisciplinar - esse "espírito" de união e aproximação entre linguagens artísticas distintas.

    E essa reflexão absolutamente não pretende ser definitiva, mas apenas uma possibilidade de interpretação daquele momento específico da vida cultural de Juiz de Fora "concretizado" no discurso textual; o qual, por sua vez, vincula-se mais ao "espírito" roseano de "contar uma estória" do que ser exclusivamente documental (muito embora seja óbvia a preocupação com datas e eventos que, não obstante, não abarcou a totalidade dos fatos e acontecimentos), pois contar uma estória é sempre um desafio, conforme, por exemplo, nos lembra Guimarães Rosa:

    A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisa de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data (...) Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas - de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado (ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas. 35ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 82 e 159).

    No entanto, e apesar de todos os meandros e descaminhos da memória e dessa "desatidão" rosiana inerente ao olhar retrospectivo, uma certeza (provisória?) parece se afigurar: em última instância, o simples desejo, por parte dos integrantes do grupo, de experimentar sobretudo novos meios relativamente inéditos de criação e expressão musical associadas aos movimentos corporais e que enfatizavam o processo de criação artística propriamente dito, possibilita hoje, a partir desse olhar retrospectivo, qualificar o Uavisiliu como um grupo que, sob um certo ponto de vista, representou uma tentativa relativamente mais sistemática de "concretizar" a aproximação de linguagens artísticas diversas. Enfim, o fato é que, tendo ou não esse nível de representatividade, certamente o Uavisiliu desempenhou - no nível das relações interpessoais - um papel extremamente significativo na vida pessoal e artística de cada um de seus integrantes, na vida cultural de Juiz de Fora, assim como também possibilitou ao público que assistiu às suas apresentações vislumbrar as possibilidades de outras formas de fruição estética e outros caminhos e práticas artísticas relativamente inéditos.

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    Amostra musical do Uavisiliu em mp3
    .Extrato da peça executada no Lira Paulistana, São Paulo, em junho de 1983; duração: 01'20" (22050 Hz, 40 kbps, 16 bit, stereo, 394 Kb, MP3)
     

     

    CDs do Uavisiliu

    Galeria de fotos

    Referências ao Grupo Uavisiliu em sítios da Internet, artigos, publicações, universidades nacionais e internacionais... (listagem resumida)

    Discografia solo de alguns dos ex-integrantes do grupo

    Carlos H. Pereira (Kain)

    • Reciclagem (LP, Brasil, Alúmem Produções Artísticas, 1987). Carlos H. Pereira: violão e piano; Mauro Senise: saxofone e flauta; Marcos Suzano: percussão. Neste LP, Kain apresenta na primeira faixa do Lado A a composição Uavisiliu. Com 03'26" de duração, essa faixa é dedicada a "todos aqueles" [...]. Este Long Play foi lançado em aapresentações na cidade de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
    • Reciclagem (CD, Inglaterra, Timeless Recors, 1989)
    • Água e Terra (CD, Estados Unidos, Salvaterra Records/ASCAP, 2003). Carlos H. Pereira, Dom Salvador, Cyro Baptista e outros. Informações mais detalhadas sobre Água e Terra em http://www.carloshpereira.com. Veja também uma crítica ao CD em http://www.jazzreview.com/cdreview.cfm?ID=6905

    Paulo Motta

    Colaborações artísticas entre os ex-integrantes do grupo

    • ESTÚDIO GANDHARVAS - Priscila Frota (poesia, voz e programação visual), Edson Zaghetto (violino, violão, voz, lira pentatônica, bandolim, fita magnética) e Paulo Motta (metalofone, piano acústico, flautas, órgão eletrônico, fita magnética, slides e programação visual). Apresentações realizadas ao longo do ano de 1985, em Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. As atividades do Estúdio Gandharvas iniciaram-se a partir de uma iniciativa de Priscila Frota e Edson Zaghetto. Posteriormente, Paulo Motta foi convidado a participar dos trabalhos desenvolvidos no Estúdio. Em um texto redigido para uma das apresentações, Priscila Frota descreve poeticamente a proposta do trabalho: "Este trabalho visa observação, um momento em si mesmo. Não estamos em busca de demonstrações técnicas e instrumentais, mas sim de um momento onde a vida fala através de sons e formas... E o lirismo pede espaço no coração de todos... Como se deitássemos para descansar da crueza dos dias, nos voltássemos para dentro [de nós mesmos], ou