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VOZES DOS POETAS por Paulo Motta uma dramatização eletrônica das vozes gravadas dos poetas edimilson de almeida pereira, fernando fábio fiorese furtado, iacyr anderson freitas e murilo mendes (2003- oooo)
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"A voz é o único instrumento comum a todas as civilizações". Com essas palavras, o compositor francês Pierre Schaeffer evidencia uma constante na história da música ocidental: a utilização da voz e da semântica verbal como recurso de organização estrutural das obras em períodos de crise. O compositor brasileiro Flo Menezes identifica pelo menos três momentos exemplares nos quais a voz atua como um elemento enriquecedor da semântica musical, a saber: na passagem da Renascença para o Barroco, com a invenção do recitativo e da ópera; no inicio do século XX, com a 2a Escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern) e a invenção do canto falado; e, finalmente, a incursão da matéria verbal no estúdio eletrônico, em meados do século XX. Durante esse período, surgem duas vertentes que se utilizam de meios tecnológicos para a composição de peças musicais: a vertente francesa - Musique Concrète -, surgida em Paris, que inclui todos os sons registrados por microfones e na qual os sons naturais são, após o registro propriamente dito, processados através de recursos eletrônicos); e a vertente alemã - a Elektronische Musik ou Música Eletrônica "pura" -, surgida em Colônia, na qual as sonoridades são produzidas por geradores eletrônicos de sons -, no sentido de que os sons são sintetizados ou construídos, utilizando-se exclusivamente aparelhos eletrônicos. Essas duas escolas mantinham, inicialmente, posturas antagônicas quanto aos métodos composicionais e a escolha do material sonoro. A aproximação dessas duas escolas (resultando no que posteriormente se denominou "música eletroacústica") se dá a partir do momento em que alguns compositores eletrônicos - notadamente Luciano Berio (Thema - Omaggio a Joyce e Epitaph für Aikichi Kuboyama) e Karlheinz Stockhausen (Gesang der Jünglinge) - passam a utilizar a voz em suas obras, inaugurando, no âmbito da composição erudita do século XX, uma relação extremamente profícua entre fonologia e música. Vozes dos Poetas..., ao se aproximar esteticamente desta proposta, constitui-se por composições realizadas exclusivamente com as vozes gravadas - e reprocessadas em ambiente informático - dos poetas Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Iacyr Anderson Freitas e Murilo Mendes. A composição apresenta as seguintes características estruturais: em algumas seções, há a predominância da estruturação de ritmos criados através do reprocessamento sonoro e da fragmentaçcão dos fonemas e/ou sílabas; em outras, privilegia-se a estruturação de timbres criados através do reprocessamento sonoro da fragmentaçcão fonético-silábica; há também seções em que se enfatiza a associação de ritmos e timbres criados nas seções citadas anteriormente (que são novamente reprocessados); algumas partes da obra foram compostas colocando-se em relevância aspectos temáticos: ou seja, foram criadas sonoridades que procuram significar timbristicamente títulos, palavras e/ou expressões contidas nos poemas; assim como também há a evidenciação do significado das palavras, com reconstrução dos poemas utilizados (o que redunda na criação de uma nova poesia constituída por vários fragmentos poéticos da obra de cada autor. No entanto, a principal característica da peça Vozes dos Poetas é que ela enfatiza e evidencia o aspecto significante das poesias recitadas (ou, mais especificamente, a "materialidade" ou "concretude das vozes dos poetas) em detrimento do significado propriamente dito. Enfim, um trabalho com essas características procura redimensionar estrutural e semânticamente a obra desses poetas, inserindo-a no contexto da cultura artística digital. A análise computacional do material sonoro original (ou seja, das vozes gravadas dos poetas), a fragmentação e catalogação fonética específicas para cada seção e o processamento sonoro das vozes, constituiram as etapas de preparação do material sonoro que que será utilizado nas seções de Vozes dos Poetas. Do ponto de vista estético, o projeto procura: a) Demonstrar a possibilidade de se redimensionar esteticamente um material sonoro próprio da cidade (característica que impregna boa parte da produção composicional do proponente) ou, mais especificamente, as vozes gravadas dos poetas, em ambiente informático (com o uso de tecnologia digital); b) Dar prosseguimento às pesquisas - iniciadas em 1999 pelo proponente deste projeto - relativas à utilização da voz humana como "matéria prima" para a realização, em ambiente informático, de composições musicais eletroacústicas; c) Evidenciar a dimenção significante da poesia dos autores, através da fragmentação, reordenação e reprocessamento informático de fonemas e sílabas; d) Explorar as possibilidades músico-composicionais da microestrutura sonora da voz gravada dos poetas, atualizando uma semântica musical que se revela subjacente ao texto literário, através da fragmentação, reordenação, superposição, retrogradção e reprocessamento informático da estrutura fonética e silábica dos poemas recitados; e) Inserir a obra dos poetas Murilo Mendes, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas e Fernando Fabio Fiorese Furtado no âmbito de uma linguagem artística (no caso, música) que, muito embora esteja intimamente vinculada à produção poética (em função, sobretudo, do elemento rítmico comum a ambas as linguagens), instiga uma releitura fonético-semântica da obra desses autores. No âmbito da estética comparada, é notória as relações entre música e literatura, sobretudo em função da presença, em ambas as linguagens, de parâmetros artísticos tão peculiares quanto o ritmo e a harmonia (como muito oportunamente aponta Étienne Souriau em sua prestigiada obra A correspondência das artes). Esta possibilidade de aproximação entre linguagens artísticas tem sido implementada, nos últimos anos, sobretudo através da aplicação cada vez mais crescente de recursos eletrônicos e digitais na confecção das obras. E esses recursos têm colocado diante dos artistas desafios cada vez mais instigantes, solicitando a criação de novas e insuspeitadas estéticas, ampliando "a discução sobre a cultura digital em sua extensão interdisciplinar." O projeto de realização da composição Vozes dos Poetas, vincula-se a esta perspectiva estética, ao propor a interação entre composição musical (de orientação eletroacústica/acusmática) e a produção literária de quatro dos mais representativos escritores da cidade. A concepção teórica da peça Vozes dos Poetas, originou-se em 1999 com a composição de O Ouvido Armado: A Ceia Sinistra encomendada pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage, para integrar os eventos promovidos por esta entidade para integrar as homenagens aos cem anos de nascimento do poeta juizforano Murilo Mendes. Esta obra foi eminentemente temática, ou seja, a partir do título de um dos poemas recitados (ou, mais exatamente, A Ceia Sinistra). Vozes dos Poetas dá continuidade estrutural à composição com a realização de mais três seções, cada uma das quais com a utilização das vozes dos poetas Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fabio Fiorese Furtado e Iacyr Anderson Freitas. Pode-se considerar que esses autores dão continuidade à produção poético-literária de Juiz de Fora, com obras extremamente representativas que evidenciam a tradição poético-literária da cidade. Um trabalho dessa natureza demonstra a possibilidade de uma releitura relativamente inédita da obra desses poetas (através da utilização, sem precedentes no âmbito da composição musical, de suas próprias vozes) fundamentada não apenas na análise teórico-literária de seus escritos, mas, e de forma mais contundente, na proposta de reprocessamento sonoro das vozes gravadas (realizado exclusivamente em ambiente informático) e subsequente utilização desse material para a composição musical propriamente dita. As gravações originais com as vozes dos poetas Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese, Iacyr Anderson Freitas foram editadas em um livro-CD denominado Dançar o nome. Foram selecionados os seguintes trechos para serem utilizados em Vozes dos Poetas: EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA: INDUCA Induca, a vida onde está? o menino entrou na parede e sumiu no escuro da sala. Induca, cheguei tarde Seus olhos estavam prontos. Outro menino entra na parede com uns biscoitos muito brancos. Eh, Induca, a vida onde está? Espero que a noite desça com paciência, espero. Você chamará atenção do medo com um provérbio. Induca, os meninos vêm saindo da parede A noite é outra e se curva. Eu sei, eu sei um provérbio. FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO: DANAÇÃO Bom mesmo era morar num lugar de nome bonito... OSSÁRIO PESSOAL A beleza era antes e minhas mãos trabalhavam a louça dos sonhos a louça branca e solar na mesa da varanda, onde a família almoçava o silêncio. E o pai enumerava os embates e doía a mãe de tanto amar e os irmãos, ah os irmãos sonhávamos frutos de outro pomar. A CASA na rua da Casa não passe. o futuro será póstumo a fachada da Casa não olhe. os olhos serão outros na calçada da Casa não pise a terra será queda os frutos da casa não coma. dentro as paixões disparam aos viventes da Casa não fale. qualquer palavra é rendição os cômodos da Casa não visite. os gatos enlouquecem de tanta beleza na Casa eu vivo. os ausentes são minha família A CONSTRUÇÃO Pressinto que escava: será bicho? será máquina? será o medo de tudo que se avizinha e exaure a morada? A PRIMEIRA DOR não a dor não diz o nome atravessa distâncias e sabe esquecer-se e sabe lembrar o centro do labirinto TOUT COURT não termina quando o rosto se ausenta mesmo o esquecimento conspira em nós de pequenas mortes sabemos voltar LONGE Que idioma traduz (nas cartas sonegadas)... IACYR ANDERSON FREITAS: ELEGIA ...o inverno quer ficar contigo nesse jardim onde um velho dorme. ainda não são seis horas e a nuvem que outrora te acusava some no azul, desfeita por teu brilho que envelhece, é certo sem o alarde dos ventos mesmos de outrora. BANDEIRA ...a indesejada das gentes chegar/eu já tive todas as lições de partir : volto enfim a tomar conhecimento da aurora. SÍSIFO NO ESPELHO - POEMA 62 ...a palavra morte nestes páramos : dura imagem de extinguir-se enquanto sois trabalham corre o tempo por teu rosto agora sem qualquer barulho. Há multidões, muros, mundos por teu rosto. PARA A REVELAÇÃO E OS DIAS ...que eu procurasse na lucilação desse rosto o que há muito deixei... Visite também O Ouvido Armado.
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