|
Ciro Correia: expectativas na negociação com o governo
são positivas
Por
Elizângela Araújo
ANDES-SN
A luta
empreendida pelo ANDES-SN em defesa da liberdade de organização sindical
não é recente e nem decorre apenas da suspensão do seu registro sindical por
um ato arbitrário do Ministério do Trabalho em 2003. No entanto, é esse
fato que gerou a intensificação das mobilizações e articulações políticas
em prol de um direito que a classe trabalhadora tanto lutou para conquistar
em todo o mundo e que, no caso particular dos docentes das universidades
brasileiras, está ameaçado. Nessa entrevista, o presidente da entidade,
Ciro Correia, fala sobre os avanços dessa reação, particularmente após o
Ato Público do dia 11 de novembro, que trouxe 2,5 mil trabalhadores a
Brasília.
Confiante
na força política que o ANDES-SN conquistou ao obter apoio de centenas de
entidades nacionais e internacionais, Ciro acredita na disposição dos
ministérios do Trabalho e do Planejamento para o fim do impasse criado por
seus próprios atos arbitrários: a suspensão do registro sindical e,
recentemente, a publicação da Portaria Normativa nº 1/2008. O presidente do Sindicato
Nacional também comemora o importante apoio da comissão de parlamentares
criada especialmente para intermediar essa negociação com o governo.
Ciro
Correia também destaca a atuação da Comissão Nacional de Mobilização – CNM
do ANDES-SN, que tem feito uma grande articulação no parlamento federal em
busca de apoio.
-
Qual é a avaliação que você faz dessas últimas semanas após o Ato Público
do dia 11 de novembro?
- A
audiência que tivemos com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, no último
dia 11, foi conseqüência da força política do Ato Público que promovemos em
conjunto com várias entidades, entre elas a Conlutas, em defesa da
liberdade de organização sindical, contra a criminalização dos movimentos
sociais e, fundamentalmente, em defesa do ANDES-SN. Nesse contexto, é
importante destacar que a suspensão do registro sindical do ANDES-SN em
2003, de forma absolutamente arbitrária, se deu em outra gestão do
Ministério do Trabalho, e não na atual, na qual, além do Carlos Lupi, tem
Luiz Antônio de Medeiros na Secretaria de Relações do Trabalho e André
Grandizoli como secretário-adjunto dessa pasta.
Aquela
audiência foi muito importante para a luta do ANDES-SN pelo
restabelecimento de seu registro sindical, já que pela primeira vez o
ministro se comprometeu a buscar uma solução para a arbitrariedade cometida
contra o Sindicato Nacional em 2003. Outro grande avanço foi o reconhecimento,
por parte do Ministério do Trabalho, dos problemas que a suspensão do
registro sindical tem trazido para o ANDES-SN no tocante à consignação das
contribuições voluntárias dos docentes, já que sem o registro sindical não
é possível cumprir a Portaria Normativa nº 1/2008 do MPOG, ao menos no modo
como esse Ministério exigia até agora (leia mais sobre o assunto aqui).
Destaco que o ministro reconheceu, afinal, que essa questão afeta várias
outras entidades sindicais.
Antes
daquela audiência, o MTE entendia que não poderia interferir nessa questão,
já que a portaria normativa é de responsabilidade do Ministério do
Planejamento. Naquela ocasião, porém, o ministro se mostrou mais sensível a
essa questão, afirmando que solicitaria ao MPOG um acréscimo no prazo dado
pela Portaria Normativa nº 1/2008 para que as entidades consignatárias se
adéqüem a ela. Esse prazo expira neste domingo (30/11). Lupi afirmou que
sugeriria ao MPOG o adiamento dessa data-limite para março, justamente para
que nesse período se tenha um encaminhamento capaz de resolver os problemas
que enfrentamos, assim como outras entidades.
Além
desses avanços, o ministro também marcou uma nova audiência entre
representantes do Sindicato Nacional e o secretário de Relações do Trabalho
para o dia 19 de novembro, para apresentar uma solução para o impasse
gerado pelo próprio MTE ao suspender, arbitrariamente, o registro sindical
do ANDES-SN...
-
Mas essa reunião não chegou a ser concluída.
- Sim,
e embora isso tenha ocorrido, consideramos que foi outro importante avanço,
pois embora a assessoria técnica da Secretaria de Relações de Trabalho
[SRT] tenha mostrado alguns problemas que o MTE precisa enfrentar para
regularizar o registro do ANDES-SN, demonstrou disposição para buscar uma
solução também para essa questão.
-
Quais são esses problemas?
- O
problema principal, explicaram, é que após a suspensão do nosso registro
sindical, alguns pedidos de registro foram feitos por sindicatos que
representariam professores do ensino superior no setor público, e esses
registros foram concedidos. Segundo os argumentos dos representantes do
MTE, ao regularizar o registro do ANDES-SN, é preciso encontrar uma solução
para esse problema, uma vez que essas entidades têm carta sindical. Para
isso, o ministério alegou a necessidade de um levantamento que seria
moroso, para identificar todas essas situações antes de adotar uma solução
que evite novos problemas com essas entidades.
Naquela
ocasião, registramos que, embora não concordemos que justamente por causa
de uma arbitrariedade que foi cometida contra nós, outros registros
sindicais tenham sido concedidos na nossa base, sendo que já tínhamos
conquistado, na justiça, o direito de representar os docentes do ensino
superior. Entendemos, no entanto, que se isso ocorreu em outra gestão do
MTE, que o ministério tenha a preocupação de fazer esse levantamento antes
de formular a melhor proposta possível. Naquela reunião do dia 19, ficou
sinalizado um horizonte de duas semanas para a próxima reunião, na qual o
ministério nos apresentará uma proposta. Nossa expectativa é de que isso,
de fato, ocorra. Entendo que o ministro e o secretário estão trabalhando
com a preocupação de
encontrar
uma solução.
-
Mas, nesse espaço de tempo, o ANDES-SN pode sofrer prejuízos por conta da
Portaria Normativa nº 1/2008.
- Sim,
e esperávamos que, justamente por conta dessas negociações em curso,
fôssemos ter uma solução para o problema das consignações junto ao MPOG.
Cerca de 55% das seções sindicais do ANDES-SN terão problemas para recolher
as contribuições voluntárias se o prazo dado pela portaria não for
acrescido, e isso significa estrangular financeiramente uma entidade
sindical que nunca teve problemas em ser reconhecida como sindicato pelo
governo, ao longo de vinte anos de existência como sindicato, e nunca teve
problema para fazer o desconto em folha da contribuição voluntária de seus
filiados. Então, se esse ato vier a ser perpetrado pelo governo, não temos
dúvida nenhuma de que será a mais grave violação à liberdade de organização
sindical prevista na Constituição que terá ocorrido neste país, e que
causará reações nacionais e internacionais, pois fere todas as normas da
OIT, entre outras.
-
Caso não haja uma solução administrativa para os problemas de consignação
das contribuições voluntárias dos filiados, qual será a estratégia do
Sindicato Nacional?
-
Primeiro, entendemos que é fundamental resolver esse problema
administrativamente, uma vez que consideramos as normas do MTE
absolutamente abusivas e contrárias ao preceito constitucional da liberdade
de organização sindical. No entanto, se isso não acontecer, entraremos com
medidas judiciais para garantir que as consignações continuem sendo feita
como nos últimos vinte anos.
-
Outra importante conquista da luta do ANDES-SN pelo direito à livre
organização sindical foi a instituição de uma subcomissão pela Comissão de
Trabalho, Administração e Serviço Público – CTASP da Câmara dos Deputados,
que já está intermediando a negociação do Sindicato com o governo para o
restabelecimento do registro sindical. Como a diretoria vê esse apoio?
- Esse
fato é da maior importância e decorre de toda a jornada de lutas que o
ANDES-SN vem empreendendo em sua defesa e que divulga para os mais diversos
setores da sociedade, das universidades, e em particular as autoridades
governamentais e para os parlamentares, a gravidade do que ocorre. Decorre
também da mobilização de todos os filiados ao ANDES-SN que têm se empenhado
em seus estados e em Brasília para dar visibilidade ao que está
acontecendo. Particularmente, esse apoio decorre da atuação dos docentes
que têm atuado de forma muito responsável na Comissão Nacional de
Mobilização - CNM. O trabalho que eles têm feito no Parlamento é muito
importante e reconhecemos isso publicamente.
Lembro
que nas atividades preparatórias para o Ato Público de 11 de novembro, a
CTASP já havia sido contatada pela CNM. Essa comissão se ocupa, entre
outros temas, de questões relacionadas ao setor do serviço público, em
termos de legislação, políticas e de problemas que o setor enfrenta no
relacionamento com o governo. Ainda como conseqüência do Ato Público, no
dia 12, nos foi concedida a palavra na sessão deliberativa e após a minha
fala vários parlamentares se manifestaram em apoio ao Sindicato. Em
seguida, aprovaram criar esta subcomissão que já está agindo e no próximo
dia 3, quarta-feira, nos reuniremos com ela para entregar documentos que
comprovam a situação arbitrária da qual o ANDES-SN tem sido vítima.
A
criação de uma subcomissão pela CTASP para apoiar nossa luta pelo registro
sindical mostra a legitimidade que o ANDES-SN tem. Consideramos esse fato
fundamental e muito significativo. Não temos dúvida de que o apoio desses e
de outros parlamentares que estão agindo em nossa defesa é fundamental para
criar efetivamente a base política necessária para que se efetive uma
solução.
-
Diante do fato de que há outros sindicatos com registro sindical
representando docentes do ensino superior público, a unicidade sindical
pode ser um entrave para a reativação do registro sindical?
- A
unicidade sindical é contraditória ao princípio de liberdade de organização
sindical, e precisamos superar essa questão constitucional. Enquanto ela
vigora, é preciso que seja compreendida, em particular pelo judiciário, no
limite da representatividade efetiva que os sindicatos têm. Como o ANDES-SN
superou o problema do seu direito ao desmembramento pela legitimidade que o
processo de discussão teve no país inteiro entre 1987 e 1988, quando a
categoria decidiu criar um sindicato de docentes do ensino superior, e que
todas as contestações judiciais a isso foram derrotadas, é preciso olhar
para todo esse processo que nos qualifica.
Não
abrimos mão do direito de esperar pelo julgamento dos questionamentos
feitos ao nosso registro sindical pelo Tribunal Superior do Trabalho, e
ressaltamos que foram apresentados de modo absolutamente extemporâneo por
meio de procedimentos administrativos no MTE em 2003, e que não poderiam,
pelas normas do próprio ministério naquela época, ser acolhidos. E essa é
uma questão que também tramita na justiça. Entendo que podemos avançar
nessa questão sem qualquer desrespeito à unicidade sindical ainda em vigor
se o MTE restringir seu ato abusivo de 2003 aos limites da motivação
alegada para ter assim procedido. O registro sindical do ANDES-SN estava em
pleno vigor, e, ratifico, algumas entidades do setor privado o contestaram
extemporaneamente, mas infelizmente o MTE acolheu essas contestações e
suspendeu arbitrariamente nosso registro. Então, [o ministério] poderia
republicar a suspensão do registro sindical dizendo que se refere apenas e
tão-somente às entidades que questionaram o registro do ANDES-SN em 2003,
enquanto o TST não julga esse processo. Mas enquanto essa questão não é
decidida, o sindicato que representa os docentes de todas as universidades
públicas, federais e estaduais, e de instituições particulares, não pode
ser penalizado.
Para
nós, a solução para o problema decorrente da unicidade sindical é que a
suspensão do registro sindical seja aplicada apenas onde há discussão na
justiça. Entendemos que isso pode superar a questão. Os registros
concedidos a outras entidades do setor público devem ser olhados com
cuidado, mas temos clareza de que são poucas e limitadas essas situações.
Enfim, acredito que esse obstáculo não será um entrave importante para que
se encontre uma solução que respeite o registro sindical do ANDES-SN.
-
Voltando ao problema gerado pela Portaria Normativa nº 1/2008, essa é uma
questão que decorre, enfim, da falta de autonomia das universidades federais,
não é?
- Sim.
É um absurdo o que tem acontecido hoje com as universidades federais e, em
alguns casos, também com as estaduais, pela política que o governo tem de
desrespeitar a autonomia prevista na Constituição. As universidades
deveriam gerir seus recursos internamente, e gerir as consignações em seus
departamentos de pessoal. É um absurdo que isso seja feito de modo
centralizado, que o MPOG publique uma portaria como essa sem sequer
discuti-la com as autoridades universitárias. Nas estaduais paulistas, por
exemplo, essa autonomia de gestão existe e as consignações são feitas
internamente em cada universidade. Mas ressalto que isso também é fruto de
muita luta, já que o governador José Serra, quando tomou posse, tentou
restringir essa autonomia e centralizar esse procedimento na Secretaria de
Administração do estado. Estudantes, funcionários técnico-administrativos e
docentes foram à greve em defesa da autonomia e o governo teve que voltar
atrás.
-
Qual é sua mensagem final para os docentes filiados ao ANDES-SN e todos
aqueles que o têm apoiado nessa luta pela liberdade de organização
sindical?
- Os
frutos de nossa luta e o apoio recebido de centenas de entidades nacionais
e internacionais, além do apoio individual de centenas de docentes, demonstram
que é preciso continuar trilhando esse caminho da resistência e da luta
pelo direito à liberdade de organização. É preciso que todos os filiados
que possam entrar em contato com parlamentares estaduais e federais, em
particular com os que ainda não se pronunciaram em favor do ANDES-SN, façam
isso. Nesse momento, é fundamental que os Ministérios do Trabalho e do
Planejamento se apercebam de que é preciso encontrar soluções para os
problemas que hoje enfrentamos e que decorrem de atos por eles implementados.
|