Oratio vultus animi est
(O
discurso é o rosto da alma)
Antonio Carlos Mazzeo
Marcos Del Roio (*)
Que vivan los estudiantes
Jardin de nuestra alegria
Son aves que no se asustan
De animal ni policia
Y no le asustan las balas
Ni el ladrar de jauría...
Violeta Parra
As recentes manifestações nas Universidades estaduais
paulistas revelaram questões e problemas muito sérios que estavam quase que
invisíveis ou escondidos sob o tapete da nossa conturbada vida social. Essas
mobilizações, inicialmente estudantis e que imediatamente reverberaram sobre os
professores e funcionários das Universidades, expressaram fundos significados
resultantes de uma crise social de grave intensidade, não apenas restrita aos
muros universitários ou da consciência do papel do conhecimento e da educação
em tempos de mudanças.
É certo que as manifestações das Universidades
públicas paulistas tiveram por mote a insensibilidade, a truculência de um
governo preocupado com os superávits primários, com a retenção de despesas
sociais, e com o cumprimento de acordos políticos confessáveis e inconfessáveis.
Mas as manifestações da comunidade acadêmica paulista transcenderam à mera
reação indignada frente ao coup
de main de Serra, ao estilo burlesco de Napoleon le petit,
tentado para arrancar as verbas da Universidade pública para fins não explícitos.
Foram para além dos atos de um governador que ignora as mais elementares regras
democrático-institucionais, que atropela o parlamento estadual e que
desastradamente tenta impor seu estilo autocrático à sociedade paulista.
As mobilizações universitárias, que tiveram na sua
vanguarda os estudantes, lançaram à sociedade o debate sobre os rumos do
publico e do privado em nosso país. Puseram a nu as perversas intenções
privatistas e “neoliberais” do Napoleon le Petit da Moóca, mas que não
se restringem aos portões do Palácio dos Bandeirantes, porque enraizados num
outro palácio, o do Planalto. A luta dos estudantes, funcionários e professores
por melhores condições de ensino, pesquisa e trabalho, denunciou a degradação
progressiva da sociedade brasileira com a desobrigação do Estado em relação ao
conjunto dos trabalhadores, e a opção por um modelo econômico que privilegia os
bancos e os monopólios.
Mas a movimentação das Universidades Estaduais
paulistas, especialmente a luta estudantil, fez purgar ainda um outro grave e
crônico tumor da sociedade brasileira: a cooptação. Produto esse indelével da
tradição colonial e da condição de subordinação estrutural da economia
brasileira aos pólos hegemônicos do capitalismo que fez gerar uma
intelectualidade, também ela de
cariz colonial e subalterna, estruturada no intimismo à sombra do
poder. Particularmente aquela encastelada na burocracia estatal, servil aos
seus interesses, materializando a desventura de um liberalismo de viés colonial
e “autoritário”, geneticamente amputado de seu intrínseco democratismo burguês,
tornado estruturalmente autocrático e bonapartista.
Velhos intelectuais intimistas da burguesia, e
principalmente aqueles que se arrependeram de um dia, de algum modo, terem
servido à causa do povo, transformados em neo-lacaios, esbravejaram contra a
“agitação e a baderna estudantil”, clamaram reintegrações de posse para as
reitorias e diretorias ocupadas pela brava desobediência civil dos estudantes e
se regojisaram com a tropa de choque no Campus Universitário! Como as bruxas de
Macbeth, cantaram a ladainha de que “o belo é podre, e o podre belo sabe ser”.
Agourentos, evocaram os espíritos das maiorias silenciosas, repetindo como
tragicômicos, o grito contra os subversivos de 1964. Na alma de seus discursos
o rosto das tentações do “prendo e arrebento”.
Mas avisamos, o movimento não caminha solitário ou
débil como no passado. Com ele outros setores da sociedade reivindicam, não o
assistencialismo, pois esse o governo e a burguesia já oferecem como base de
cooptação. A maioria da sociedade civil quer ir adiante, e luta radicalmente
por direitos e justo reconhecimento, independentemente do que pensam os
intelectuais a serviço da nova ordem do capital, que já não dormem tranqüilos à
sombra de um poder cuja base material se esfacela dia a dia.
* Professores Livre-Docentes do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp