1. OS BONDES

                                               Paulino de Oliveira - 27/03/64

  Do  Zé Weiss ao Lamaçal era a linha principal dos  bondes elétricos de Juiz de  Fora,  quando  aqui  cheguei,  em abril de  1916,  para  trabalhar,  como tipógrafo,  no  "Guia  Geral  de  Indicações úteis",  editado  por  Aristides Maldonado.  Mas  só chega à Santa Casa. O  lamaçal ficava  mais  adiante,  em frente  ao Asilo João Emílio, no local onde está hoje o Bairro Bom Pastor.  A passagem custava duzentos réis e dava direito a "fazer o nó", isto é,  descer pela  rua  do Espírito Santo, passar pela Estação e subir a Marechal Deodoro, ganhando de novo a Avenida Rio Branco. Isto para quem vinha do Zé Weiss. Quem vinha em sentido contrário descia pela Marechal Deodoro e contemplava o  "nó" subindo pela Espírito Santo.
   Havia  também a linha de São Mateus e a da Tapera. Aquela tinha início  na Estação, subia a rua Halfeld até a avenida Quinze de Novembro e, descendo por esta  até a cadeia, ganhava a rua do Espírito Santo, avenida Rio Branco e a rua de São Mateus, que tinha este nome desde o seu entroncamento com a antiga rua Direita. O final da  linha era no Passarela e o preço da passagem era  um tostão.  Apesar de mais barata que as demais, era a linha que mais  rendia  à Cia  Mineira de Eletricidade. Esse preço, aliás, serviu por muito tempo  para regular  os  de outras coisas em Juiz de Fora, principalmente o do cafezinho, que  só  a muito custo passou para duzentos réis, quando já custava tanto  em toda parte.
  A  linha da Tapera era deficitária, pois o bairro não havia alcançado ainda nenhum  progresso,  e  por  isto  a Mineira a mantinha  com  prejuízo,  mesmo cobrando  a passagem mais cara: duzentos réis, como na extensa linha  Passos-Fábrica, segundo a tabuleta que figurava nos bondes do trajeto do Zé Weiss ao
lamaçal.
   Em  novo  contrato  feito com a Prefeitura, a Mineira  se  comprometera  a inaugurar outras linhas, inclusive até Creosotagem, em continuação  da  linha Fábrica-Passos, mas, afinal, só construiu as do Poço Rico, Costa  Carvalho  e Vitorino Braga, levando a Passos-Fábrica até o local em que se encontra,  sem
ligá-la  à de São Mateus pela rua Morais e Castro. Antes, já havia mudado  os trilhos  que subiam a rua Halfeld para a rua Paulo de Frontin. Em 1935  houve uma alteração da linha na praça João Penido: os trilhos, que passavam ao lado da  Estação foram deslocados para a outra extremidade, em frente à Associação Comercial.
   José  Weiss e Lamaçal eram considerados então os dois extremos da  cidade. Galdino  de  Oliveira, numa burleta que escreveu em 1914,  estabeleceu  outro limite num quadro sobre o jogo de bicho: "Atualmente todos jogam/ Do Zé Weiss ao  Fontainha, / Desde os juizes que se togam / à mais bela moreninha", teria preferido  o  Lamaçal,  porque o  Fontainha  (comendador  Eugênio  Fontainha) morava  perto da Santa Casa, pelo menos trezentos metros antes do  início  do Lamaçal.
   Do Zé Weiss ao Lamaçal é o limite dentro do qual aparecerei aqui, de vez em quando, assinando alguns cavacos como este. Se houver leitor para eles, eu me darei por satisfeito.
   Eu  era ainda tipógrafo de "O Dia" quando conheci Alberto de Sales Duarte, ele  era  repórter,  mas,  sendo  tipógrafo também,  auxiliava  nas  oficinas compondo  o  folhetim,  que saia diariamente em roda. Depois  andou  fundando vários jornais na cidade.
    Redigia  mal,  tinha  uma  letra  horrível,  mas  era,  talvez  o  melhor comentarista político que havia no Estado. Sua fama nesse setor  da  Imprensa ultrapassou as fronteiras de Minas e chegou ao Rio, São Paulo e Porto Alegre, onde  a  "Federação"  costumava  citá-lo.  Não  conhecia  apenas  a  política nacional,  mas também a de todos os Municípios, mineiros ou não, pertencentes às  áreas dos políticos em evidência. Conhecia-os de perto e com muitos deles mantinha boas relações. Daí a origem de seus furos.
   Sales Duarte dormia num quarto anexo à redação de "O Dia" e fazia as  suas refeições  nos  melhores restaurantes da cidade. Sem ser um glutão,  era  dos fregueses  mais exigentes. Não fazia seus pedidos ao garção, mas  diretamente ao cozinheiro, a quem gratificava previamente. Entendia da culinária e tornou-
se  especialista na organização de banquetes. Inventou vários  pratos  novos, como  o  "arroz  à  Sales  Duarte",  que  ainda  hoje  é  servido  em  alguns restaurantes. Dizia que era um " arroz à valenciana "mais barato.
    Trabalhei com Sales Duarte, trabalhei para ele e ele trabalhou  para  mim, sob  a  minha  chefia, durante a campanha da Aliança Liberal.  Eu  dirigia  o "Correio de Minas e convidei-o para redator político. Ganhava mais do que eu. Severino  Costa, dono do jornal, ao entregar-me a sua direção,  havia  dito: "Politicamente,  você pode orientá-lo como quiser. Só não pode  falar  mal  de Antonio  Carlos  nem  de Artur Bernardes". Disse isto a  Sales  Duarte.  Tudo correu  muito bem até o dia em que ele escreveu um comentário sob  o  título: "Só  a  chicote!", contra Washington Luis. Modifiquei-o e Sales Duarte brigou comigo.  Estávamos  às vésperas da Revolução e, por causa  dela,  fizemos  as pazes no momento em que ele chegou à redação, dizendo: "Vamos dar o fora, que estão  nos procurando". Ele foi esconder-se no Consulado português e eu  fugi para  São  José  do  Rio Preto, onde permaneci até 27 de outubro.  Clevelande Duarte,  irmão  de Alberto, não sei se de acordo com Severino Costa  ou  não, havia  posto o jornal a circular, sob censura, durante o sítio da  cidade,  o que  me  levou  a abandoná-lo, um ou dois meses depois, sem dar satisfação  a ninguém.  Por que ninguém me esclarecera a razão daquela transformação  e  eu jamais  indaguei  a respeito, Sales Duarte assumiu então sua  direção.  Já  a havia, praticamente, assumido antes do meu regresso.   A  ursada  de  Sales Duarte em nada influiu na amizade que  lhe  dedicava. Quando o coronel Severino Costa vendeu o "Correio de Minas", ele fundou outro jornal,  o  "Diário  da  Mata",  que  não  circulava  diariamente.  Eu  havia ingressado  na Prefeitura como diretor da Secretaria, a convite  do  prefeito Pedro  Marques. Um belo dia, a propósito não sei de que, seu jornal tachou-me de  aproveitador  da  Revolução.  Respondi-lhe  pelo  "Jornal  do  Comércio", chamando sua folha de "Devezenquandária da Mata".
   Nem  desta vez cortei relações com Sales Duarte. Conhecia-o bem, com  seus defeitos  e suas qualidades, e não poderia tornar-me seu inimigo.  A  convite dele,  sendo ainda tipógrafo, foi um dos fundadores da Associação da Imprensa de  Minas,  participando de sua primeira diretoria, e foi com  ele  que  mais convivi durante todo o tempo em que trabalhei ativamente na Imprensa de  Juiz de Fora.
   Sales  Duarte era um patriota. Apresentara-se como voluntário na  primeira guerra  mundial, mas fora rejeitado, no exame médico, por causa de uma  lesão no  coração. Morreu dela, solteiro, muitos anos depois, e eu fui um dos  seus amigos de última hora.
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NOTA  - Um idoso cidadão de Manoel Honório, em carta que me escreveu, informa que,  além  do  Pito Aceso, houve ali também um lugar chamado  Pito  Apagado. Esclarece  que os dois nomes tem origem numa chacina que ali se verificou  há uns  sessenta anos. Diz que era menino na ocasião e que, lá morando,  a  tudo assistiu,  inclusive  o  enterro das vítimas.  Não  é  coisa  do  meu  tempo.
Agradeço, contudo a colaboração e a sua atenciosa carta.


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