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É preciso buscar sinais, ainda que frágeis, que anunciem alguma crise
ou brecha na pesada hegemonia liberal em vigor. Estes sinais podem vir
tanto da realidade mais imediata da luta política e sindical quanto da
chamada alta cultura. Neste último caso, vem-nos à lembrança uma
observação de Keynes em seu livro mais famoso, sublinhando a decisiva
importância das idéias de economistas e filósofos: políticos "práticos",
diz Keynes, consideram-se isentos (ou quase) de qualquer influência
intelectual, mas na verdade são invariavelmente escravos de algum
economista ou filósofo morto.
Este comentário vem a propósito de um recente artigo do filósofo
Richard Rorty, cujo conteúdo nos parece sintomático de uma nova orientação
que pouco a pouco começa a ganhar força entre expressivos intelectuais
americanos. Publicado na tradicional revista "Dissent" (número editado
no inverno de 1997), o texto se chama significativamente "Back to class
politics": de volta à política de classe. Mas, antes, uma constatação:
bem conhecido nos meios acadêmicos, Rorty precisa de uma apresentação,
mesmo que genérica, para que os não especialistas avaliem a importância
e o peso de suas palavras.
Resumidamente, Rorty hoje é o mais importante filósofo da tradição do
pragmatismo americano. Distancia-se, por exemplo, do "realismo" das
posições marxistas clássicas em teoria do conhecimento ou teoria social.
Os marxistas tendem a sublinhar a materialidade e a objetividade dos
processos sociais, enquanto Rorty defende a hipótese da construção
discursiva do mundo. Ou seja, para Rorty, o mundo tal como "realmente"
é depende de nosso discurso sobre ele e modifica-se segundo nossos
objetivos e interesses, igualmente sempre passíveis de transformação.
O que afinal interessa sublinhar, além da importância central dos
trabalhos de Rorty na filosofia contemporânea, independentemente das
discussões específicas que possam produzir, é que nosso autor não é um
pensador marxista. E de nosso ponto de vista isto apenas realça a
significação dos argumentos expostos em "Back to class politics", que
passaremos a acompanhar em seguida.
Rorty anseia por uma retomada da aliança entre movimento sindical e
intelectuais que marcou a vida política americana desde os tempos do
"New Deal" rooseveltiano até, aproximadamente, a "Grande Sociedade" de
Johnson. Era uma época em que acadêmicos como Daniel Bell, Arthur
Schlesinger e John Kenneth Galbraith contribuíam, ao lado dos sindicatos,
para estabelecer uma agenda pública marcada pelo ideal de criação da primeira
sociedade sem classes do mundo -- resultado paradoxal da enorme capacidade
de inclusão social demonstrada pela sociedade americana.
A Guerra do Vietnã, segundo Rorty, teria quebrado esta aliança. Não
está em discussão, obviamente, o caráter injusto e a natureza genocida
da intervenção americana. Mas o protesto estudantil, que toma conta dos
"campi" junto com outras manifestações da Nova Esquerda (feministas, gays
e lésbicas, afro-americanos, hispânicos), decorre num âmbito distanciado
das lutas sindicais, assinalando a fratura de uma aliança que havia sido
decisiva na política americana. Assim, a esquerda passou a se concentrar
na luta propriamente universitária, abandonando a grande política: o
resultado foi que, enquanto ela, a esquerda intelectual, fazia uma marcha
triunfal pelos departamentos universitários, a direita republicana
tomava conta da Casa Branca.
Rorty apela novamente para os valores mais característicos das lutas
dos trabalhadores como antídoto para dois problemas básicos: o estilhaçamento
do sonho americano de uma sociedade sem classes, que tem dado lugar a uma
realidade em que as diferenças se agravam enormemente; e, associado a
isto, o declínio moral, numa situação em que 1% dos americanos detém 40%
da riqueza do país. A chamada "classe do conhecimento", composta pelos
profissionais bem formados e abrangendo num cálculo aproximado os 20%
mais bem situados na escala social, se encarregaria de executar as ordens
dos super-ricos, criando uma América que teria sido inconcebível para
Jefferson, Lincoln ou Walt Whitman.
A história do movimento operário, lembra ainda Rorty, está repleta de
heroísmo, de "atos criminosos" do ponto de vista da legalidade vigente
-- atos que agora são vistos como exemplos de desobediência civil, mas
que em seu tempo foram brutalmente reprimidos. Esta história marcou
profundamente a fisionomia moral da nação: a capacidade de auto-sacrifício,
a solidariedade e mesmo o heroísmo são marcas do percurso do movimento
sindical e constituem recursos a serem de novo utilizados, se o que se
quer, como diz Rorty, é superar o individualismo liberal e retomar o que
de fato conta: a construção de uma sociedade sem classes.
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