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Do ponto de vista da saúde institucional do país, tão graves quanto a crise interna do PT são os
dados de uma pesquisa encomendada pela direção nacional do PSDB (Veja, 6/5/98). Eles
revelam que, apesar de integrarem um partido que hoje ocupa simplesmente a Presidência da
República, 43% dos seus vereadores não acreditam que haja uma democracia no Brasil e 67%
não estão satisfeitos com as políticas sociais do governo e acham que FHC é o principal
responsável pelo desemprego. O caos mostra-se instalado no sistema nervoso do partido, pois os
vereadores vacilaram até mesmo quanto à orientação ideológica: consideraram-se indistintamente
de esquerda, de direita e de centro.
Parece pouca coisa, mas não é. De um ângulo mais abstrato, a pesquisa indica que pode existir
uma cúpula mas não há um partido tucano, isto é, uma organização capaz de agregar quadros e
militantes em torno de uma unidade de pensamento, vontade e ação. De um ângulo mais histórico,
chega a surpreender que um partido nascido de uma ruptura com o «fisiologismo» do PMDB, não
demonstre hoje, vários anos após o seu surgimento e tendo por base uma situação política
amplamente favorável, possuir um discurso político coeso e balizado por uma visão mais
ideológica. Claro, sempre se poderá objetar que vereadores são políticos especiais, que se
entregam mais às questões locais, tópicas e «administrativas» do que aos debates doutrinários.
Mas será que isso vale para todos os partidos, e particularmente para um partido que se pretende
programático e «ideológico» como o PSDB?
Não se trata, evidentemente, de exigir dos tucanos que finjam estar em outro país, quer dizer, que
consigam organizar um partido numa sociedade complexa como a nossa e num sistema partidário
e eleitoral que não concede maiores estímulos à atuação coletiva dos políticos, que estimula entre
eles exatamente o oposto disso, ou seja, o individualismo -- seja em estado puro (cada um vale e
pensa por si), seja condicionado pelas dinâmicas regionais. Trata-se, antes, de aproveitar os dados
da pesquisa para refletir sobre o momento atual.
Não estariam eles a revelar o eixo em torno do qual se estruturam as opções e os dilemas do
PSDB? Podemos imaginar que um partido de centro-esquerda busca o apoio de um partido de
centro-direita, como o PFL, ou porque descobre ter afinidades ideológicas com ele, ou porque
precisa de seus votos no Congresso e está disposto a obtê-los mesmo que tenha de ceder na
coerência, ou porque não tem estrutura nacional para governar e impor outra política de alianças.
A fraqueza orgânica do PSDB, expressa no caso da pesquisa pela falta de unidade de pensamento,
poderia ser empregada tanto para explicar o caráter da sua coligação com o PFL, como para
demonstrar a dramática falta de unidade de ação que parece tirar o sono dos tucanos cada vez que
o governo vai a plenário. Se não há, no PSDB, um vetor doutrinário ligando-o de cima a baixo e lhe
dando identidade, como esperar que ele consiga atuar como um efetivo partido social-democrata?
Não devemos forçar muito a comparação entre tucanos e petistas, até mesmo porque a crise
interna do PT é bem mais profunda e reverbera muito mais. Mas tanto quanto a do PSDB, a situação
do PT também é reveladora: demonstra que uma federação de tendências de esquerda despojadas
de maiores tradições de unidade e com uma cultura democrática ainda incompleta e vacilante,
torna-se presa fácil da «lógica» política brasileira -- a mesma «lógica», aliás, que, amplificando o
divisionismo histórico das esquerdas, explica os contínuos fracassos das tentativas de viabilizar,
entre nós, alianças esquerdistas, ou mesmo frentes democráticas hegemonizadas por partidos de
esquerda.
Se houvesse um partido coeso entre os petistas, seguramente não estaríamos hoje assistindo a
esta impressionante dilapidação de um imponente patrimônio político, que a cada dia parece ficar
pior. Se a decisão do diretório do Rio de Janeiro foi uma cabal demonstração de ausência de
unidade e de direção (além de ter sido um autêntico tiro no pé do próprio partido), a decisão
nacional de desautorizar a decisão regional não só contraria a própria natureza do PT, como se
mostra inócua e inoperante. Apenas atiça um pouco mais o fogo, sem agregar qualquer elemento
ao esforço de recomposição política da estratégia eleitoral do partido.
Seja como for, entre mortos e feridos perderam todos. As várias tendências petistas e todos aqueles
que, de fora do PT, esperam assistir à materialização de uma oposição democrática de esquerda
capaz de delinear uma perspectiva de futuro para a sociedade. Hoje, a possibilidade de que essa
perspectiva venha a existir no curto prazo parece ter ficado um pouco mais tênue.
Tudo somado, conclui-se que os partidos (ou aquilo que deles existe) servem para muito pouca
coisa atualmente. Se não demonstram possuir as condições mínimas que justificam sua existência,
é o caso de perguntar se não seria melhor passar um pano em tudo e recomeçar (não
necessariamente do zero, pois conquistas e tradições certamente existem, mas a partir de novas
agregações, novos pactos de fundação e novas regras institucionais). Enquanto isso, porém,
continuaremos amarrados a um sistema que exponencia a fragilidade de todos e só beneficia os
que, como o PFL, sabem fazer do poder o cimento de toda ação.
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