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O aquecimento da temperatura política não é função apenas da conjuntura
eleitoral que se avizinha. Muito pelo contrário, dificuldades crescentes
se interpõem no caminho da implementação da reforma liberal -- e são
dificuldades de toda ordem, no campo da economia, da política e no da
própria coesão social. Analisar estes temas sem ficar aprisionado no
dilema típico das sucessões presidenciais -- uma disputa freqüentemente
aberta à tentação plebiscitária, à irrupção de um voto meramente de
protesto -- é tarefa difícil, capaz de deixar isolado quem tenta
empreendê-la. Mas não nos intimidemos, vamos a ela.
O resultado dos anos 90, no Brasil, é verdadeiramente pífio: a Era
FHC, até agora, consistiu essencialmente num gigantesco rearranjo
patrimonial em benefício do capital financeiro, num quadro de inserção
passiva do país na globalização em curso. O diagnóstico dos economistas
de oposição começa inclusive a penetrar em ambientes absolutamente
insuspeitos: basta lembrar o recente manifesto "nacionalista" de Benjamin
Steinbruch a propósito da privatização da Acesita/CST, com passagens
que parecem saídas de mestra Maria da Conceição Tavares. A hipocrisia,
diria um cético, é a homenagem que o vício presta à virtude -- e no caso
a observação não seria de todo inconveniente.
Amarrado a um crescimento econômico medíocre, nas palavras do próprio
presidente, o país se vê ainda por cima permanentemente apontado como a
"bola da vez", como o candidato mais forte a epicentro do próximo capítulo
da crise financeira global. E o máximo que a elite dirigente consegue
articular, na tarefa de Sísifo de acalmar o "mercado" -- esta palavra-
fetiche que resume o conjunto de instituições multilaterais e poderes privados
que regem a globalização neoliberal e em cujo nome todo o poder é exercido
-- são promessas de uma "segunda geração de reformas constitucionais",
na qual ponto qualificante é remeter o sistema de aposentadorias para os
azares do capitalismo de cassino sob o qual nos foi dado viver.
Estão dadas as condições, portanto, para que a sucessão presidencial
transcorra em meio a uma crise nacional de graves proporções -- ou, no
mínimo, sob a perspectiva concreta de uma tal crise. Sucumbindo à
tentação plebiscitária que acima mencionamos, a esquerda política, reunida
evidentemente em torno do PT e partidos aliados, pode apostar todas as
fichas na aposta simples -- simplista -- de catapultar seu candidato à
"sala de comando", sem preparar-se para cenários alternativos, igualmente
importantes para o destino da democracia entre nós e, em última análise,
para o próprio país -- sua integridade, sua soberania, sua presença
afirmativa neste perigoso mundo unipolar .
Inicialmente, é vital estabelecer uma estratégia que permita eleger
uma ampla representação parlamentar, tanto no Congresso quanto nas
Assembléias Legislativas. Isto pode parecer uma obviedade, mas de todo
modo está longe de ser irrelevante num contexto em que o Executivo
"desconstruiu" a bel-prazer a Carta de 1988, conseguindo sistematicamente
maiorias de 3/5, ainda que, a bem da verdade, à custa de "ronivons" e outros
métodos capituláveis no Código Penal. A presença de fortes bancadas
permitiria condicionar democraticamente, "por baixo", este processo de
rearranjo do capitalismo brasileiro, que até agora, tanto externa quanto
internamente, esteve sob o monopólio de elites completamente dobradas
ao credo liberal vigente.
Vital, ainda, seria compreender e estimular, no sentido justo, a ação
dos movimentos sociais. Transformar os sem-terra em sujeito político que
conta na cena nacional foi um indiscutível mérito histórico do MST.
Trazer de modo organizado milhões de nordestinos para o mesmo protagonismo,
inviabilizando a estratégia suicida de só conectar as áreas desenvolvidas
às estruturas do capitalismo global, é o desafio que se apresenta sob
nossos olhos, de cuja resolução depende rigorosamente a integridade
territorial do país. E aí cada um de nós, democratas, fará o possível
para que os dirigentes do MST, dos sindicatos, dos movimentos contra a
fome ajam contra a lógica secular de manipulação dos flagelados, sem
esquecerem que a desordem sempre costuma ser a melhor amiga da ordem.
Cabe mencionar um terceiro ponto para a reflexão daqueles que
conjugam indissoluvelmente os termos "esquerda" e "democracia".
Independentemente da campanha presidencial, a esquerda precisa inaugurar
uma dinâmica unitária, afastando-se da lógica autodestrutiva dos "rachas" que
atravancaram sua história. Este, talvez, o maior mérito da aliança entre
PT, PDT, PSB e PC do B. Quem sabe, estamos no início de um processo
constituinte à esquerda do espectro político, capaz de gerar novas (ou
renovadas) formações à altura da função nacional que estão fadadas a ter,
se souberem ir além de si mesmas e interferirem até nas atuais escolhas
do centro, modificando-as para um terreno menos desastroso. Se for assim,
teremos pontos de referência seguros diante da crise que se aproxima.
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