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Não quero assustá-lo, amigo leitor, com antiguidades. Mas penso que Fernando
Henrique anda despencando nas pesquisas porque ainda não descobriu
que este nosso Brasil é barroco e precisa de metafísica para viver e se
movimentar. Na verdade, não me lembro de outro governo com uma visão
racional tão ampla e precisa sobre o país. O conjunto de reformas proposto
por Fernando Henrique abriga uma clara elegância cartesiana, mas uma harmonia
interna que só provoca frouxos de emoção em cientistas. A cascata
de argumentos e raciocínios que o governo despeja sobre nós tem lógica,
mas é gelada como lâmina de guilhotina. O que o governo não nos ofereceu,
ou não conseguiu desenhar, foi um mito correspondente às suas ambições
reformadoras e refundadoras do país. Não a emoção barata dos marqueteiros,
mas um sentido que permitisse à sociedade uma poderosa intuição de
si mesma e de seu destino.
Deixe-me explicar melhor, paciente leitor, esta história de barroco e metafísica.
Não somos barrocos apenas pelas origens históricas. A visão de
mundo do barroco materializava, nos séculos XVII e XVIII, uma "vontade de
crer", uma ânsia de sentidos e significados estáveis para a vida, diante
dos estragos relativistas da ciência nascente e da incerteza quanto à nossa
salvação eterna. O avanço da razão recheava de dúvidas o mundo, e o
barroco organizava a estratégia de reconstituição de um quadro de valores
vitais, reclamando da metafísica um enorme esforço reflexivo para a fixação
de significados claros para a vida. Ciente da precariedade da própria
metafísica, enquanto exercício de razão, o barroco mobiliza a arte para a
certificação sensorial destes valores. Daí a sua gesticulação exagerada,
torturada, espetaculosa, testemunhal, destinada a conferir veracidade aos
valores que não podiam ser afirmados no campo exclusivo da razão.
Pois somos barrocos, leitor, porque vivemos num país e duvidamos dele. Du-
vidamos de seu destino, sempre cercado de precariedade e marcado pela
exploração, pela injustiça, pela falta de desenvolvimento. Mas não podemos
esperar nenhuma salvação fora dele. O seu fracasso é o nosso fracasso e
a nossa perdição. Precisamos acreditar nele, encontrar para ele um significado
e um destino, e isto não é tarefa para as frias lâminas da razão.
Precisamos é de um mito sobre o país, de uma imaginação que nos devolva
permanentemente a fé em suas possibilidades, por mais irracionais que pareçam.
Precisamos de um mito que nos envolva e arrebate, e justifique esta vida
de misérias e sacrifícios no cotidiano. E necessitamos dos gestos
de verismo, de manifestações concretas, pictóricas, sensoriais, que tornem
este mito presente, visível, material e eficaz.
Os norte-americanos ergueram os Estados Unidos com um mito: o de um país
da liberdade e da abundância. Mas este mito, e qualquer um, seria reles
mentira se a realidade nada tivesse a ver com ele. Por isso ele não pode
ser produzido por técnicas de manipulação simbólica. Só existe como o desenho
vivo de um conjunto de valores exigentes, que sincronize e empolgue os
governos e a sociedade. Vargas e JK sabiam disto. A era Vargas sabia do
nosso barroquismo político, da nossa necessidade de metafísica e
de sinais comprobatórios do nosso destino, como Brasília.
Ao proclamar a intenção de uma ruptura com o passado, de refundar a nossa
vida, Fernando Henrique deveria redefinir o nosso mito nacional, reconstruindo-o
de modo mais poderoso e envolvente. Foi o que não fez, entregando-se à
administração prudente, racional e técnica das restrições
objetivas de uma complicada conjuntura econômica. O presidente esqueceu
que o país precisa ser vivido como uma epopéia coletiva, não apenas como
ilustrada mesa de debates. Por isso seu governo é frio e distante. À medida
que se aproximam as eleições, vamos assumindo cada vez mais a condição
de animais metafísicos e brasileiros barrocos. Não é de se admirar este
alvoroço das pesquisas. Ninguém parece ter ainda rasgado o véu do que
precisamos. Nem a oposição.
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