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Por mais que se deva relativizar e contextualizar o sobe-e-desce das recentes pesquisas eleitorais, é inquestionável que
se acendeu uma luz vermelha no Planalto. O que antes era tido como um passeio, no decorrer do qual se cumpriria um rito da
nossa liturgia institucional, agora já começa a ser visto como risco e incerteza. Inevitável que, nessas condições, a confusão se
instale entre os estrategistas da situação e também, em meio a uma mal-disfarçada euforia, entre as oposições.
Para explicar a situação, de pouco serve o discurso oficial que tenta responsabilizar as condições objetivas do País
pelo declínio do prestígio presidencial. A conjunção perversa de acidentes «naturais» (seca, incêndios), saques, desemprego,
juros, déficits, turbulências internacionais e resistências à mudança, que a todo momento é lembrada como causa das
dificuldades governamentais, não explica nada além do óbvio: ao contrário do que afirmam alguns próceres oficiais, seguindo
algumas falas do próprio FHC, governar o Brasil nas circunstâncias atuais é um exercício complexo e difícil. Precisamente por
isso, exige empenho redobrado dos governantes para ativar o único recurso seguro de que dispõem para não romper as
frágeis amarras que os mantêm em contato com a população e os formadores de opinião: o recurso da política.
Pois se é evidente que o governar depende de cálculo, estratégia e ponderação técnica, bem como de uma boa dose
de timing, habilidade e paciência, é igualmente evidente que ele implica acima de tudo tomar decisões e mostrar-se ativo no
combate aos grandes problemas dos governados. Cada decisão postergada, cada iniciativa refreada, cada omissão
governamental tem efeitos desastrosos sobre o ânimo popular. O governar, além disso, depende da construção de apoios
(políticos, sociais, técnicos, ideológicos), sem os quais nenhuma decisão ou idéia se converte em força material e vira
realidade. É também um ato inseparável do manuseio de recursos simbólicos: as atitudes e falas do governante, seus gestos
e ações, suas aparições públicas. Cada silêncio ou frase mal colocada, cada viagem mal programada ou não-realizada, são
contabilizadas implacavelmente pelo eleitorado. O equilíbrio de qualquer governo é sempre precário, produzido que está por
essa diabólica combinação de técnica e política, leis e imaginação, paixões e interesses, responsabilidade e convicção, força e
consentimento. É a lógica do poder, que, como dizem os melhores observadores, sempre pune os que não a decifram.
Isso talvez nos ajude a entender a presente situação. O consenso dos analistas é a esta altura consistente: o virtual
empate técnico entre Lula e FHC deve-se muito mais a um acúmulo de erros do presidente do que a acertos do candidato
oposicionista. Mas erros não são «condições objetivas», mas falhas políticas. Precisam ser explicados como tais, sem muito
glamour ou disfarces.
Mas por quê e onde tem errado FHC? Estaria ele ciente de seus erros? Possui reservas para empreender uma reação?
Não se trata apenas de registrar frases infelizes ou atitudes antipáticas, mas de constatar que o governo não conseguiu
desarmar, junto à opinião pública, a bomba que desde sempre o ameaçava: não conseguiu fazer seu plano de
estabilização desdobrar-se, na prática governamental e no imaginário popular, em política de crescimento econômico,
emprego e justiça social. Permaneceu, até o momento, abraçado à sua grande criação, buscando legitimar-se pelo
econômico e deixando espalhar-se a impressão de que está à espera dos efeitos benéficos que «automaticamente»
adviriam da estabilidade monetária.
O problema é que o governo age desse modo por convicção técnica mas também por opção política: quer dizer, está
convencido da força do plano Real e acredita que é preciso imprimir um ritmo tépido à sua ação como governo.
Qualquer atitude mais ousada é vista como ameaça ao equilíbrio governamental e à sua base de sustentação, tanto em
termos parlamentares quanto em termos regionais ou sócio-econômicos. Toda iniciativa mais «heterodoxa» é
descartada como risco. O governo recolhe-se assim à rotina, que o protege, alienando-se de uma realidade cuja única
rotina é a crise. Não surpreende que se imagine ser «fácil» governar o País.
O governo FHC parece ter caído em sua própria armadilha: o que foi concebido para anestesiar as oposições e
cimentar a governabilidade do País -- uma ampla e pragmática coligação entre partidos doutrinariamente
heterogêneos mas unidos pelo mesmo amor ao «situacionismo» --, transformou-se numa camisa-de-força, que impede
o governo de governar com os olhos nas reais necessidades do povo. A aliança converteu-se no freio do governo, ao
enredá-lo no jogo de cálculos, conchavos e composições que o afasta da ação política ativa.
Os desdobramentos da situação serão numerosos nas próximas semanas. Já entramos naquela faixa da competição
eleitoral em que todas as luzes começam a se acender. A luz vermelha de alerta que pisca no Planalto é um sinal para
as oposições, que agora podem até mesmo curar algumas de suas feridas e ganhar um alento que parecia improvável
semanas atrás. Se avançarão, é algo a se ver. Para elas, no entanto, o vermelho planaltino vale por mil lâmpadas
verdes.
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