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Por qualquer lado que se olhe, a Copa do Mundo adquire todos os
aspectos de megaevento típico de um mundo verdadeiramente globalizado.
Quase quarenta bilhões de telespectadores, em termos de audiência
acumulada, supõe-se que devam assistir aos jogos. A competição, ela
própria, é organizada por uma espécie de multinacional, a Fifa, cujas
associações filiadas superam em número os membros da ONU. E mesmo o
mais distraído e "alienado" dos torcedores já não pode ignorar a presença
massiva, invasora, de multinacionais de verdade, patrocinando equipes
e craques e assinalando simbólica e materialmente, também no universo
paralelo do futebol, o ocaso de uma época em que os valores esportivos
assumiam papel de maior relevo.
Unimo-nos, naturalmente, em torno da "seleção": indisfarçável o
orgulho que sentimos ao nos vermos como o segundo time no coração de
torcedores de tantos outros países. Corre o mundo a identificação do
futebol e do craque brasileiro com os atributos da arte popular -- e,
de fato, gostamos dessa identificação, que praticamente se incorporou
à imagem que fazemos de nós mesmos. Somos criativos, latinos, bons de
bola e de samba, não temos a cintura dura dos gringos, tivemos Garrincha
e Pelé, temos Denilson e Ronaldo.
Que o leitor nos perdoe o impressionismo ou o gosto por analogias
arriscadas, mas quem sabe está aí uma pista para entender o modo brasileiro
de ser e estar no mundo. Garrincha, por exemplo. Há exatos quarenta
anos, o anjo de pernas tortas -- quase uma impossibilidade física --
desmontava defesas tidas como imbatíveis, a começar pela da então
sólida União Soviética. Mané encarnava a rebeldia, a criatividade,
o paradoxo de um mesmo e inevitável drible. Outra comparação arbitrária:
de Garrincha se pode dizer o que Caetano uma vez disse de João Gilberto,
o mestre da eterna bossa. Nunca ninguém se reinventou tanto, parecendo
sempre mudar tão pouco.
E assim -- desculpem a repetição -- gostamos de ser: o verso "gauche"
do poeta Carlos, o violão dissonante de João, o drible torto de Mané, a
arquitetura curva de Niemeyer ou a ... Sudene de Celso Furtado definem,
cada qual a seu modo, a sensação continental, o sentimento de mundo a
ser desbravado, a ser inventado, que temos nós, brasileiros. O Brasil,
tem-nos dito ultimamente, com insistência, o sociólogo Luiz Werneck
Vianna, é "América": uma América diferente daquela outra, anglófona, e
que poderia ser até melhor do que a "matriz". De novo, quem sabe...
Contraria este modo de ser, esta metafísica, se quiserem, a posição
de meninos bem-comportados, incapazes de fazer pipi na cama da globalização
neoliberal. Podemos falar mal dos "políticos", do Congresso (um esporte
nacional muito perigoso, aliás: como ninguém de boa-fé ignora, o pior
Congresso é muitas vezes melhor do que nenhum Congresso!), criticar
masoquistamente o "povinho" que Deus fez habitar a terra paradisíaca, só
para equilibrar as coisas. No entanto, no fundo de cada um resta intacta
a certeza, muitas vezes inexpressa, inarticulada, de participar de uma experiência
nacional original sob muitos aspectos e, em seus pontos mais altos,
avessa a maniqueísmos, malandramente dialética, capaz de conciliar
gostosamente extremos em contradição. Dona Flor, já se disse à exaustão,
não vê sérios motivos para escolher entre o finado amante boêmio e o
previsível esposo vivo, que funciona com a regularidade de relógio suíço...
A intenção, aqui, não é endossar acriticamente as versões mais
edulcoradas da "cordialidade" brasileira, muito menos modernizar o "por
que me ufano" do velho Afonso Celso ou, ainda, engrossar o coro complacente
do eterno país do futuro. O fato é que, de algum modo, estamos conscientes
do enorme, contraditório e penoso caminho percorrido no sentido da criação
de um país moderno, com estrutura social complexa (apesar do campeonato
mundial de desigualdade cujo caneco as elites teimam em trazer para casa)
e com a mais bem-sucedida e diversificada estrutura econômica entre os
países do Sul do planeta -- pelo menos até que estas mesmas elites, num
acesso incontido de bovarismo primeiro-mundista, virassem as costas para
este nosso lado "América", rebelde, criativo, mal-comportado, de fronteira,
que coloca o tema do crescimento em nosso código genético.
Diante de cada experiência que nos fazem -- e neste momento somos o
gigantesco laboratório vivo de uma reforma liberal -- sabemos a pergunta
certa para fazer de volta. A dimensão "americana" exige, nesta terra, que os
filhos vivam melhor que os pais, que o país tenha um projeto socialmente
inclusivo e culturalmente original. É isto o que temos vivido nesta década
de tediosa e plana hegemonia liberal-conservadora? Esta, a pergunta secreta,
o claro enigma de que somos incuráveis portadores. Os que não derem
respostas à altura serão derrotados, mais cedo ou mais tarde, de um modo
ou de outro. Não é nada pessoal: é só porque o país é muito maior do
que eles.
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