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O PT parece ter finalmente consolidado a descoberta de que
existe vida fora de seu território ou dos espaços formais
que a ortodoxia costuma atribuir à esquerda. Já não é mais
o partido "intra-uterino" que precisava afirmar-se a todo
instante como único e verdadeiro representante dos injustiçados,
contra-parte intransigente do Estado. Está mais tranqüilo, mais
convencido de sua força e mais afinado com as exigências da política.
Mais aberto, por isso mesmo, para abraçar questões que até recentemente
eram vistas como alheias ao seu programa e à sua filosofia. Como a das
alianças.
Nos momentos de grandes descobertas ou quando se atesta a justeza
de uma posição, a euforia tende a estimular o exagero e a radicalização.
O PT não foge à regra: admite agora até mesmo o diálogo com ex-governador
de São Paulo Orestes Quercia, figura sempre vista com desconfiança, má-vontade
e uma não-disfarçada hostilidade por todos os petistas. Ao menos em tese,
trata-se de uma guinada em grande estilo, da adoção de uma nova postura,
passível de ser tomada como um indicador de amadurecimento. E mesmo que
motivada por um cálculo eminentemente eleitoral -- com apoios vindos do
"centro" e de áreas alargadas da esquerda ficaria mais fácil obter êxito
nas próximas eleições -- , trata-se de uma postura que tem tudo para
produzir efeitos importantes.
O problemas das alianças é decisivo na política brasileira. Quem
as concebe atabalhoadamente ou de modo tosco, tanto quanto quem
as rejeita in limine ou por princípio, dá-se invariavelmente mal.
Pode até avançar -- como é o caso do próprio PT, bem-sucedido
projeto partidário -- , mas não consegue decolar como real alternativa
de poder nem acumular experiência de governo. Fazer alianças, no Brasil,
é uma imposição da vida: das abismais diferenças sociais, da cidadania
politicamente deseducada, do sistema político desenhado para confundir
o eleitor e pulverizar a representação, dos seguidos ciclos autoritários,
da fragmentação da sociedade civil, do rápido assentamento da política-espetáculo.
Coligar-se, entre nós, é uma condição natural da política.
Mas existem alianças e alianças. Há aquelas que são feitas apenas
para contabilizar votos e arregimentar recursos de campanha. Há as
que visam tão-somente conseguir carona para chegar ao posto almejado.
Invariavelmente, estão despojadas de maior grandeza ou densidade.
Para os democratas e para a esquerda, porém, uma aliança precisa
fazer sentido substantivo, não pode ser mera expressão de uma aritmética
eleitoral. Não pode ser apenas a união circunstancial dos que são contra,
mas deve assentar sobre uma proposta positiva de futuro. Precisa expressar
um eixo programático de larga respiração. Ser uma alternativa para chegar
ao poder, mas também um instrumento para governar. Em suma, ser tanto um
recurso para ganhar eficácia política quanto um elemento de educação política do povo.
Justamente por isso, aliança, para a esquerda, é algo a ser construído
por parceiros dotados de personalidade política e programática bem clara
e capazes de se respeitar em suas especificidades. É uma unidade de coisas
diversas que exige a mais completa transparência e que se equilibra numa
delicada dialética de tolerância e firmeza. Uma operação para gente grande,
já convencida de sua identidade e já tratada pelos outros como tal. Uma
operação para partidos que já saíram do útero, que se põem diante do Estado
como um outro todo, ou seja, como um protagonista capaz de afirmar um programa
para toda a sociedade, e não mais apenas para os seus eleitores. Um
protagonista quase épico, disposto a algum "sacrifício" em nome de um
objetivo maior.
E é precisamente neste ponto que o PT deverá demonstrar que sua
disposição de mudar é mesmo definitiva. Não basta proclamar-se
de esquerda para estar à esquerda. Ser de esquerda não é ser
contra o governo FHC, até mesmo porque há muitos setores de
direita que também o são. Ser de esquerda é bem mais do que
isso: é portar e difundir uma opinião sobre o futuro, uma utopia,
um desenho de sociedade mais justa, uma proposta de governo diferenciado,
uma nova forma de pensar e gerir a economia, uma nova escala de valores e
ideais. É ir além da gestão do capitalismo. É responder aos desafios
interpostos ao socialismo pela "grande transformação" que vem junto
com a globalização econômica, a sociedade informacional e a revolução
tecnológica. Ser de esquerda, em suma, é definir de modo crítico,
realista e criterioso (ou seja, não-doutrinário) um "modelo" de
socialismo e um caminho para viabilizá-lo. Coisa que o PT reluta
em fazer desde a sua criação e que está longe de ter sido feita
pelos demais postulantes da "frente de esquerda" que se ensaia no país.
Sem uma melhor delimitação do que é ser de esquerda hoje, no Brasil,
coalizões, frentes e alianças poderão até se viabilizar, gerando
programas sofisticados e propiciando avanços tópicos aqui e ali.
Mas o futuro continuará tão cinzento e imperscrutável quanto antes.
Pior: a sociedade continuará sem saber o que as forças de esquerda
pretendem fazer com ela amanhã.
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