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Deixe-me começar dramático, caro leitor: somos todos prisioneiros de um
espectro. De um fantasma que o Manifesto Comunista, escrito por Marx e
Engels há cento e cinquenta anos, nos ajuda a reconhecer e identificar. E
paradoxalmente, menos pelos seus acertos preditivos e mais pelo que tem
de inatual e deslocado neste nosso crepúsculo de século e milênio.
O tom bíblico e profético do Manifesto não escondia uma visão luciferina,
prometéica da história, nem uma aposta fáustica no futuro. Para Marx, o
desenvolvimento das forças produtivas deflagrado pelo capitalismo era
equivalente ao gesto mítico de desafio à imutabilidade de uma ordem divina,
gesto que teria iniciado a história como processo de autocriação do
homem. Mais do que isto, o avanço em progressão geométrica destas forças
produtivas era afirmado como o responsável final pela construção da
liberdade humana, seja diante da natureza ou das formas de exploração
secularmente existentes. Mas o Velho Diabo - como Marx gostava de ser
chamado - estava pouco disposto a esperar pela parusia, pelo fim dos tempos
como realização plena das promessas inscritas no desenvolvimento material.
O Manifesto era também um ato de fé na vontade humana esclarecida,
na sua capacidade de alterar o curso da história, antecipando e potencializando
para o presente as virtudes redentoras das forças produtivas. Sem
a intervenção da vontade humana, alertava, o capital se transformará num
deus absconditus da vida, consumindo e esterilizando o horizonte de liberdade
anunciado pelo avanço tecnológico.
Olhando em volta, o que parece inatual em Marx e no Manifesto não é a
denúncia do caráter explorador do capitalismo, nem a previsão de sua reprodução
ampliada e globalizada. É este férreo otimismo em relação aos poderes
humanos, materiais e espirituais. Para muitos, o voluntário abandono
destas "ingênuas" esperanças marxianas seria o sinal de um sadio realismo.
Mas, prezado leitor, o que nos atormenta hoje não são as dores e a
consciência da maturidade. O espectro que ronda o mundo é o realismo vencido
pela cega e brutal factualidade da economia e do capital. O avanço
espetacular da ciência e da tecnologia ainda nos provoca encanto e admiração,
mas não a certeza da liberdade. E depois das feridas que nos inflingimos
nos últimos cento e cinquenta anos, chegamos ao fim do milênio
céticos em relação à nossa capacidade de moldar, ainda que precariamente,
o rumo da história. O discurso arrogante do neoliberalismo é apenas
sintoma e registro de uma abdicação histórica: a abdicação da política
como espaço reflexivo e prático de potencialização da liberdade.
Ao invés de abrigar grandes e ambiciosos projetos, a dimensão da política
se recolhe à sua racionalidade formal e legal, que ninguém em sã consciência
pode dispensar na sua forma democrática. No lugar de ações
deliberadamente construtivas, a obsessão com a fria harmonia do equilíbrio
orçamentário e a intervenção puramente reativa, cosmética, sempre filtrada
pelo pesado cortejo de "restrições objetivas" da economia. Substituindo
o voluntário e generoso movimento de incorporação, a imobilização
das candentes urgências humanas, suspensas como acidentes perturbadores
do circuito do capital. Esvaziada de utopias, despovoada de sujeitos dotados
da capacidade de negociar duramente com o capital, a política organiza
um simulacro de consolação: a cultura da estabilidade, como os
europeus a tem denominado.
Poderá o leitor pensar que estou falando mal de Fernando Henrique, de seu
governo e do seu neo-republicanismo. Não estou. Estou me referindo a um
espírito de época, que lança perplexidades para todos. A uma cultura
simultaneamente antiutópica e antitrágica, que reduz nosso cotidiano a uma
ordenada e tediosa rotina, longe das grandes promessas e aparentemente
distante das grandes catástrofes. Este parece ser o nosso espectro, aquele
que nos mantém imóveis, à espera de não se sabe o quê.
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