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O vocabulário tantas vezes belicoso dos jogos de futebol nos traz,
nestes dias de Copa do Mundo, a expressão "mata-mata". Com ela se
designam aqueles jogos em que, por morte súbita ou disputa de pênaltis,
tem de haver um só vencedor. O time derrotado pode até carregar em torno
de si uma aura de legenda, como o Brasil de Ademir e Zizinho de 1950,
o escrete húngaro de 1954 ou o carrossel holandês de 1974. Nada disso
importa: resta-lhe apenas despedir-se da competição, tomar o rumo de casa
e eventualmente passar a mover-se num território lendário, em que os
passes de Zizinho, os gols de Puskas ou a infernal movimentação de
Cruyff se desenham para sempre, agora sem os contratempos da vida real.
Felizmente, não é assim a política. A não ser em situações extremas,
em que se trata de eliminar o "inimigo interno" sem deixar restos, a
competição minimamente democrática em muito pouco se assemelha a um
torneio do tipo "mata-mata". Nas sociedades ditas "ocidentais" -- o
termo é aqui empregado em seu sentido gramsciano, vale dizer, sociedades
em que Estado e sociedade civil assumem uma relação equilibrada --, a
luta política adquire características de uma prolongada "guerra de
posições", em que os adversários lutam em cada trincheira e buscam não
apenas vencer, mas principalmente convencer. Não se trata, pois, de
empolgar o poder num golpe da fortuna, mas de incidir sobre as relações de
força existentes, conquistar corações e mentes para um projeto alternativo
de sociedade e de Estado, construir lenta e seguramente os elementos
de uma nova hegemonia.
Ora, a sociedade brasileira, há muito, é do tipo ocidental. Aqui soa
como leviandade qualquer estratégia baseada na "guerra de movimentos",
no ataque direto e frontal à fortaleza do Estado, à sala onde supostamente
se localizam os comandos. Trata-se de um dado estrutural, que delimita
as possibilidades da ação política e da própria mudança social. E as
forças de esquerda, se quiserem resgatar a capacidade de conduzir o
mundo numa direção para a qual ele espontaneamente não tende -- usando
uma expressão de Antônio Barros de Castro --, devem daí deduzir os
pontos qualificantes de sua iniciativa política.
Impossível, nesta ótica, ver o embate eleitoral de outubro próximo
como um confronto direto e irrecorrível entre direita e esquerda, entre
Lula e FHC, o santo guerreiro contra o dragão da maldade. O pior que
pode acontecer à aliança de esquerda é, deixando-se levar pela euforia
ou pela depressão segundo o ritmo inconstante (e muitas vezes suspeito)
das pesquisas presidenciais, não levar até o fim a difícil elaboração de
uma visão estratégica da realidade. Esta visão implica, desde logo, uma
constatação duríssima: a crise dos anos 80 e a estratégia de "reformas"
dos anos 90 significaram por toda parte um reforço considerável daquilo
que, com um eufemismo, se pode chamar "poder do mercado". E mercado,
evidentemente, designa os grupos fortes da sociedade, com sua renovada
capacidade de impor modos de acumulação, modelos de sociedade e até
de comportamento individual.
Pode-se dizer sem medo de acusações de "desvio", e a partir de
uma perspectiva abertamente de esquerda, como é o nosso caso, que não
existe rigorosamente saída à esquerda para a presente crise brasileira.
Também não seria aceitável o conformismo dos que não vêem alternativa
a este ciclo de reformas comandadas pelo partido liberal no poder, com
sua enorme carga de concentração econômica, exclusão social e restrição
oligárquica da democracia política. Mas só depois que o pessimismo da
inteligência nos coloca diante de um impasse deste porte, é que se torna
proveitoso recorrer ao otimismo da vontade para buscar a capacidade
estratégica que até agora nós, da esquerda, nem sempre tivemos.
Assim, é vital atuar para modificar as orientações atuais do centro
político. A preocupação com o estrangulamento das perspectivas de
crescimento, com os sinais visíveis de desintegração social, com a
inserção crescentemente subalterna do país no processo da globalização
-- esta preocupação não é prerrogativa da esquerda, mas pode constituir
terreno de encontro com forças e personalidades do centro político,
interessadas numa agenda que restaure as margens de autonomia do Estado
e da sociedade brasileira.
A conquista de governos estaduais significativos e a ampliação da
representação parlamentar nas assembléias e no Congresso são objetivos
factíveis e desejáveis. Experiências de governo estadual podem gerar
inovações importantes e implicar redistribuição de poder e recursos num
sentido democrático. A maior força parlamentar impõe-se por si só, numa
época em que o partido liberal tem veleidades de (contra) revolução
permanente. E, seja qual for o resultado da disputa presidencial, a
esquerda restará em campo com mais vigor e capacidade de atração, apta a
um melhor desempenho naquela situação de cerco recíproco que a política
moderna designa às forças em confronto.
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