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É fato fora de disputa que o Plano Real introduziu um elemento
novo na emergente democracia brasileira, incluindo como ponto permanente
da sua agenda o tema da estabilização monetária, que, assim, deixa de ser
monopólio dos círculos da tecnocracia para se converter em questão de
interesse geral, inclusive dos setores sociais menos treinados nos
debates sobre a administração da vida econômica. Decerto que anos de uma
política de desenvolvimento referida principalmente aos objetivos de
transformar rapidamente a economia do país, modernizando o seu parque
industrial e abrindo a sua fronteira Oeste, como no caso da criação de
Brasília, manteve velada, para as elites políticas, a necessidade de uma
distribuição de renda, cuja pedra de toque, em uma sociedade com as
características demográficas e ocupacionais da nossa, inevitavelmente
deveria se traduzir em uma ampla e generosa reforma agrária. Para esse
resultado, entre outros fatores, conspiraram não só o cálculo dos
dirigentes do Estado no sentido de evitar a cisão entre elites agrárias e
industriais -- desfecho óbvio de uma reforma agrária no contexto político
brasileiro até os anos 80 - -, como também o fato de que o avanço na
modernização econômica acabava por se converter em uma política --
indireta -- de distribuição de renda
favorecendo o fluxo migratório campo-cidade, que, na circunstância das
décadas de 50 e 60, era legitimamente identificada com mobilidade social,
criando novas oportunidades ocupacionais e de vida. Assim, o chamado
"imposto" inflacionário, que contribuiu em alguma medida para o fundo de
poupança que viabilizou a modernização do país, embora recaísse sobre os
mais pobres, se fazia compensar pela expansão do emprego e das atividades
econômicas em geral que, se não beneficiava a todos, como que prometia a
cada um, por efeito demonstração, ser possível mudar para melhor as suas
condições de vida. Não à toa não faltou base popular ao
nacional-desenvolvimentismo, a despeito de suas políticas econômicas de
vocação inflacionária.
Como notório, os aspectos mais perversos da inflação vieram a se
manifestar quando, por razões diversas, entre as quais a mudança no
paradigma de desenvolvimento econômico, se perdeu ímpeto no crescimento
da economia e na geração de empregos e oportunidades de vida, fazendo
dela apenas um instrumento econômico de exasperação da injustiça social
ao favorecer a transferência de renda dos mais pobres para os mais
ricos. Nesse sentido, com independência da intenção original dos seus
autores, os diferentes planos de estabilização monetária, vindos à luz
depois de aberto o período de transição à democracia, se vêm revestindo
de uma conotação substantivamente democrática na medida em que procuram
derrogar um tipo de "imposto" que afeta os setores mais desprotegidos
socialmente da sociedade. Foi da natureza dessa intervenção -- os planos
de estabilização monetária --, que se chegou a esta verdadeira mutação
política que consiste na inesperada e inédita convergência entre atores e
camadas sociais sem qualquer tradição de mútua empatia - tecnocracia
econômica e massas desorganizadas e socialmente excluídas. Basta lembrar
o forte prestígio popular gozado, em sua época, pelos economistas do
Plano Cruzado, pela ministra de assuntos econômicos do governo Collor , e,
mais recentemente -- se bem que, hoje, a confiar nas pesquisas de opinião,
em queda livre --, pelos atuais governantes responsáveis pela aplicação
do Plano Real.
Sabido que à política tudo que provém do social não lhe é
estranho, esse encontro entre regiões da sociedade, tipos de razão e
códigos semânticos tão afastados e díspares não ficou sem resposta, e
que veio pela improvável, ao menos em teoria, associação do
neoliberalismo com o neopopulismo, espécime novo da diversificada fauna
da política brasileira. Assim, deixaríamos para trás o populismo da era
Vargas, com suas práticas manipulatórias, a partir de sindicatos
tutelados pelo Estado, dos trabalhadores organizados, quando se concedia
direitos sociais aos assalariados urbanos a fim de incluí-los na malha da
estrutura corporativa e interditar a sua autonomia, para ingressarmos em
um tipo de populismo cujo objeto não mais é o cidadão (que se queria
regular "por cima" ), e sim o consumidor de bens de mercado e de serviços
sociais prestados por agências estatais, nos dois casos dependente da
razão tecnocrática e das ações da intelligentzia responsável por sua
adequação ao mundo. O populismo do neoliberalismo, ao contrário da
prática prevalecente na era Vargas, ignora as instituições de
intermediação entre o Estado e a sociedade civil, conseqüência, aliás
natural, para quem entende que a dimensão da economia deve prevalecer
sobre a da política. E, ademais, como corolário disso, leva à
desconsideração do centro político, visando estabelecer vínculos diretos
entre intelligentzia tecnocrática e massas desorganizadas,
ultrapassando-se as formas organizadas da sociedade civil e as suas
instituições-líderes, depreciadas como de caráter corporativo. Tanto as
eleições de 1989 como as de 1994 -- e o tipo de governo que se seguiu a
ambas -- assumiram esse figurino, mais um contraste com o estilo da
política do período nacional-desenvolvimentista, quando a captura do
centro político -- compreendido, então, como o lugar das chamadas "forças
vivas" da nação -- consistia no primeiro e estratégico objetivo das
lideranças em presença.
Contudo, a deserção do centro político que caracterizou o recente
cenário da política brasileira, cujo indicador mais espantoso está na
irrisória votação, nas eleições de 1989, de Ulisses Guimarães, o grande
nome da resistência liberal-democrática à ditadura militar, não resultou
apenas da ação dos neoliberais. Foi obra comum com a esquerda, bastando
lembrar que o PPS (então PCB), em 1989, optou pela candidatura própria em
detrimento da de Ulisses, e que, na mesma oportunidade, no segundo turno
das eleições, o PT não julgou de relevância política conduzir ao seu
palanque eleitoral o mesmo Ulisses, a liderança que melhor expressava o
centro político no país. Chassez le naturel, et il y revient au gallop ,
e o que se assiste nestes dois últimos dois anos de governo FHC é o
retorno do centro político, inclusive do ponto de vista eleitoral com a
candidatura Ciro Gomes do PPS e a de Lula pela coalizão PT-PDT, uma
guinada ao centro operada pela esquerda que deve, sem dúvida, ainda mais
se arriscar audaciosamente nesse movimento. De outra parte, provavelmente
consultando as pesquisas de opinião, o próprio governo vem abdicando,
como visível, entre outros exemplos, na mudança de política quanto à
greve da Universidade, da sua posição de quase nojo nos contatos com a
sociedade civil organizada, com o que procurava zelar pela integridade
das certezas talmúdicas que o inspiravam. A ida ao centro político,
pois, nestas eleições de 1998, tornou-se a meca de todos, dos crentes a
antigos incréus, fazendo com que a mutação política do neopopulismo já
tenha sido reprovada no teste da seleção natural, mais se assemelhando a
bichos clonados, cuja fabricação em laboratório está apenas destinada à
curiosidade geral.
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