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Chega em boa hora a iniciativa de João Pedro Stédile de convocar um debate sobre o problema
agrário brasileiro com base nos textos, especialmente o ensaio/entrevista de José de Sousa
Martins, recolhidos pela liderança do MST para a coletânea A reforma agrária e a luta do MST,
editada pela Vozes em fins de 1997, e não por acaso esgotada em menos de um mês. De fato, nada
melhor para sugerir os termos dessa discussão contemporânea do que a ensaística de um dos nossos
intelectuais agraristas, talvez o mais importante após a publicística dos anos 50 e 60 (1).
A entrevista/ensaio de Martins que abre o livro do MST evoca outros textos e relembra temas
antigos – o PCB, a cultura camponesa, a contemporaneidade do velho e do novo (na territorialização
dos industriais do pós-64; no take off da modernização); a abrangência da reforma agrária –
fornecendo um pano de fundo altamente expressivo dos sistemas de orientação mais presentes nos
movimentos camponeses do pós-64.
De um modo bem sumário, sujeito a revisão mais atenta, é possível divisar alguns pontos
essenciais dessa ensaística dedicada à figura dos excluídos do chamado "grande pacto político"
das elites brasileiras: os camponeses. Partindo da "querela" implícita (... contra Caio Prado
Jr.?) no par expropriação/exploração (Martins, 1980) (2), passando pela valorização dos surtos
messiânicos, milenaristas e, especialmente, o movimento das Ligas Camponesas, como expressões
identitárias disruptivas da ordem (Martins, 1981), até a introdução da questão da cultura
popular no debate agrarista, o constructo de Martins tem como ponto alto a proposição sobre os
movimentos camponeses do pós-64 como um "ator moderno" convocado a fazer da sua resistência à
modernização burguesa (Martins, 1994) uma obra supletiva ao que o próprio "capital" não realizou,
ou o fez muito precariamente neste país.
Talvez o fio de maior continuidade seja a recorrência ao tema da persistência de um
pretérito agrário até hoje incrustado nos poros de nossa estrutura política, um oligárquico
agrário (Martins chama de "poder do atraso") que inclusive teria se reforçado após 64, mesmo
quando se intensifica o capitalismo na agricultura. Vale relembrar a dissertação: sob a forma
de um casamento do "capital" com a "renda da terra", a modernização agrária dos militares
terminou acentuando o traço "não-clássico" do nosso capitalismo e, como tal – esse um ponto
importante a reter –, não arejou a mentalidade política dos grandes proprietários de terra;
pelo contrário, só lhes teria robustecido a impermeabilidade, comprometendo até mesmo a já
débil modernidade dos industriais urbanos (idem).
Também há reproposições propriamente ditas, como é o caso de uma espécie de retorno à
filiação a Henri Lefebvre, lembrada pelo autor para reconceituar em fim de século a revolução
como "revolução no modo de vida" à Heller. O ponto de impacto certamente é o da avaliação que
Martins faz das atuais possibilidades da reforma agrária, remontando àquele tema do pacto
agrário-industrial que atravessou as nossas Repúblicas, fez lenta a história brasileira
(Martins, 1994) e veio tornar a questão agrária processo de tempo largo (Entrevista/ensaio;
doravante Martins, 1997). Também trazido da história comparada, esse tipo de tematização ajuda
a compreender que a aquela que tem status de "questão" ("nacional", na tradição marxista;
também em certa bibliografia clássica) é a questão agrária (sendo a reforma agrária, uma de
suas soluções possíveis), daí sendo necessário observar esta premissa de Martins: "o tempo do
nosso problema agrário é um tempo longo, implica em buscar sua origem e lenta expressão desde o
passado" (idem: 11). E, por conseguinte, também requer ver a reforma agrária em perspectiva,
como um processo cuja implementação tem sido igualmente custosa. E continuará sendo, prossegue
Martins, enquanto não se vencer o "impasse histórico" da modernização brasileira de "estilo
próprio", intensa no econômico e conservadora no plano societário e político (idem) (3).
Convém lembrar um ponto sensível, a merecer nestes dias muita generosidade e sensatez.
Martins também foi um crítico severo das esquerdas, em primeiro lugar do PCB; esquerdas que,
segundo ele, se mostraram incapazes da "tarefa histórica" de mediar a quebra da dependência
pessoal dos camponeses, estimulando-os a se converterem em protagonistas da sua própria
libertação; processo paralisado desde 64, não fosse o aggiornamento da Igreja, mais afeita e
mais competente para tal tipo de empresa de "inovação cultural" (Martins, 1989), acrescentamos,
em contexto de tradição. Inclusive ele chega a cobrar de setores da frente de esquerda derrotada
em 89 (fala mais incisivamente de alguns intelectuais) a atitude conciliatória que teriam
mantido com as velhas classes políticas no contexto da derrota da reforma agrária na Constituinte.
O ponto essencial da crítica – diríamos, de natureza antropológico-epistemológica – consiste,
em último termo, na denúncia do iluminismo de esquerda, segundo ele, especialmente presente nos
mediadores de classe média, marcados que ainda estariam por uma espécime de "filosofia da
história" operária, vale explicitar, de ontologia marxiana e de classe universal, própria ao
marxismo clássico, e pela práxis política centrada nos temas do partido e do Estado (Martins,
1989).
No ensaio/entrevista ora publicado na coletânea do MST, Martins oferece uma reflexão
sobre as possibilidades deste atual "momento histórico" no qual os protagonistas decisivos do
processo – movimentos sociais e governo– têm à sua frente tarefas bem precisas e que poderiam
fazer avançar a resolução do problema agrário de tempo longo, tal como este, insiste novamente
Martins, se colocara à hora da Abolição. Diríamos: imergirem agora numa dialética ainda sem
síntese, vale dizer, repetindo um ensaísta brasileiro, ainda sem um mediador competente: numa
ponta, o MST como ator que trouxe do passado a questão agrária "como impasse político" (Martins,
1997); na outra, o sociólogo-presidente, tratando de pôr essa condição de "impasse político"
"na agenda política do Estado", isto é, procurando convencer a direita de que se trata de
tarefa de mandato político e, assim, responsabilidade do poder; e não uma questão de política
de confronto (idem). Aliás, e também de modo parecido ao do passado mais contemporâneo, quando
a questão agrária também fora considerada trava de monta, "obstáculo ao desenvolvimento" no
polarizado quadro político do pré-64, e tida (perversamente) como "bloqueio ao processo político"
(idem) (vale lembrar: esse, aliás, o sentido da política agrária dos militares, receosos da
guerrilha camponesa).
Hoje posição quase solitária à esquerda, vale a pena desdramatizar a avaliação de
Martins, observando como a sociologia de história comparada também se faz presente naquela sua
proposta de convergência, ajudando o argumento. Com efeito, Martins recorda que, se na maioria
dos casos a reforma agrária procedeu de revoluções, não se deve esquecer igualmente os "grandes
acordos", como no exemplo da reforma agrária dos americanos no Japão. Como experiência
não-revolucionária, a brasileira teria hoje a possibilidade de o governo negociar (se fosse
esperto, diz ele) a via de incorporação social sob a liderança do MST, e de as esquerdas
negociarem com Fernando Henrique a ampliação da base de sustentação governamental "no que diz
respeito às reformas sociais" (sic). O autor fala mesmo é deste atual governo, "originado da
esquerda e pela esquerda abandonado" e que "é obrigado a dispender um tempo enorme e enormes
recursos com uma aliança política com as oligarquias, que seguem o processo histórico e impedem
a modernização do país. Ao invés de estar negociando desbloqueios, estaria negociando soluções
concretas e democráticas civilizadas, para seus problemas sociais" (Martins, 1997: 29).
Nesta espécie de caminho de volta à melhor raiz da sua tradição, as atuais esquerdas
teriam de continuar em frente e decifrar o seu enigma contemporâneo: excluída a revolução neste
país socialmente diversificado, elas se veriam chamadas a exercer um papel pedagógico inclusive
sobre uma elite que não é (citemos o autor) "claramente fragmentada pela oposição entre
interesses agrários e os interesses propriamente capitalistas como o foi na história européia.
Essa unidade de interesses agrário-capitalistas por si mesma já fragiliza uma intervenção
conseqüente das esquerdas no processo político, nos esquemas de alianças possíveis". Segue-se:
"Isso talvez explique por que esse quadro, de um lado, e a fragmentação e intolerância
ideológica das esquerdas entre si, de outro, deixa a cada um dos grupos de esquerda e
centro-esquerda, como se vê atualmente (e se veria na eventualidade de que outro partido de
esquerda ou de centro-esquerda tivesse eleito o presidente da República), como única alternativa
de intervenção no processo político uma pequena variação de esquemas de aliança com as
oligarquias" (idem: 30-31).
"Qualquer pessoa que chegue à presidência da República não governa sem fazer acordos
políticos com eles (os remanescentes daquele atraso - RS). Nem Fernando Henrique nem Lula, nem
ninguém" (idem: 32). José de Souza Martins parece levar às últimas conseqüências a sua
sociologia de história lenta, ao concluir da dissertação sobre a persistência do atraso – atraso
que sabota qualquer ação reformista do Executivo, paralisa o Congresso etc. (e contra isso não
adiantaria nenhum "foquismo institucional", diz ainda)–, ao extrair dessa visão sobre a
sobrevida do pretérito agrário a obrigatoriedade da conduta política de se lhe opor um combate
a partir de acordos largos (idem: 37-38), como na cultura política do velho PCB.
Pode-se observar na entrevista/ensaio que Martins ainda volta a criticar as instituições
de mediação, censurando-as agora pelo bloqueio e dificuldades que elas interpõem às alianças
políticas consideradas indispensáveis à mobilização agrária de hoje, as quais ("nas condições de
organizações nacionais", como ele dizia em 1989) já não poriam em risco o status sociopolítico
próprio ora conquistado pelos camponeses. O autor também parece estar se remontando a esse tipo
de autonomismo camponês quando não duvida em dizer que o MST deixou de ser um movimento social,
porquanto agora ostenta estrutura de organização e atua como um "partido agrário" (sic), "o
primeiro e único que temos no Brasil, apesar de não ter programa e organização propriamente
partidários" (idem: 62-63). Embora à primeira vista o sentido que ele quer conferir a este
partidarismo agrário possa parecer impreciso, resulta deveras instigante atentar para a forma
como Martins vê nele um "lado positivo" do MST.
Por certo seria preciso reler melhor os seus textos, mas, como nos parece que tal
partidismo identitário já não teria a mesma função disruptiva atribuída pelo autor às Ligas
Camponesas, dá a impressão de que, nessa sua idéia de "partido agrário" de hoje, de um lado,
Martins se refere a uma antiga in-satisfação com a "insuficiência teórica" (sic) dos partidos e
mediadores agraristas; e, de outro, que aquela sua definição do MST (4) espelha a sua proposição de
antropologia política segundo a qual haveria nos movimentos agrários dos anos 90 uma nova
pedagogia política in nuce (ver Martins, 1994).
Agora o ponto programático da entrevista: a "nova" reforma agrária que Martins vê se
processar nos assentamentos é a mesma da época da sua rejeição ao PCB, aliás, segundo ele,
partido emblemático da práxis fundada na crença no progressismo do desenraizamento dos
camponeses e na espera de que a sua ida à cidade haveria de lhes conferir civic culture, como
na leitura de Lênin. Martins chega a se confessar partidário da reforma agrária, mesmo nos
casos "em que não se produza um grão de milho", concebendo-a à Habermas como elevação da
condição humana; reforma agrária chamada hoje a resolver três problemas: diminuir a miséria
urbana, dinamizar o mercado e concluir a modernização sociopolítica do país. Como já dizia em
A caminhada no chão da noite, trata-se de um movimento para interromper a recriação dos
excedentes de expulsos da terra; a rigor, um movimento supletivo, se se pensa na abdicação do
"capital" e o caráter de exclusão integrativa marginal da sua incorporação, a qual, relembre-se,
continuou tangendo aquelas populações dos setores produtivos para outros mais recessivos; em
suma, uma reforma agrária como processo de reinclusão dos excluídos. Tal será a resposta a uma
questão agrária que não é só de natureza fundiária, mas que deve ser pensada sobremaneira a
partir das "suas conseqüências sociais e urbanas" (idem: 24); aliás (por quê não recordar?),
como sugeria no passado a fórmula caiopradiana de "reforma agrária mista", vale dizer, de
vitalização da economia rural a partir da complementaridade do setor moderno da "grande empresa"
com a pequena economia, dinamizando espaços regionais, varrendo a mentalidade pretérita e
residual com a generalização da lei trabalhista.
Ademais, após o revival da agricultura familiar, não estranha que José de Souza Martins
procurasse nos assentamentos a confirmação das razões que ao longo do tempo apresentara à
disputa bibliográfica. Em lugar do desempenho econômico, Martins diz que é preciso mirar no
melhor que o setor reformado exibe: o "lado da promessa", o novo destino aberto aos pobres e
excluídos, a sociabilidade alternativa. E mais: ali se reinventa um "mundo camponês em bases
modernas", gesta-se capacidade empresarial própria, descobre-se tecnologia intermediária, num
tipo de integração da "cultura comunitária e familista" de um modo mais plástico (e não em
termos de estímulo à coletivização, esta sempre de fundo arbitrário), ou seja, ali pode ocorrer
uma coletivização "realista, de fundo moral", própria à cooperação familiar. Tratar-se-ia de
colocar esses recursos em lógica econômica mais ampla, como no exemplo bem-sucedido da
experiência italiana, nas regiões de tradicional presença do PCI. A propósito, Martins cobra
do MST trabalhar a propaganda desta última dimensão, muitíssimo menos presente na mídia do que
"o lado pior e negativo politicamente", que é a face que vem se alojando no imaginário
construído e deformado pelos grandes meios de comunicação.
Alargando pontos, convergem a essa "base" do debate fornecida por José de Sousa Martins,
o artigo de Leonilde Medeiros dedicado à trajetória das lutas de reforma agrária, um texto do
próprio Stédile apresentando o programa do MST e o ensaio de Bernardo M. Fernandes sobre
formação e territorialização (Unesp). A experiência de ressocialização das populações nos
assentamentos instiga a se pensar em uma espécie de refundação da pedagogia (cf. "O MST e a
educação", de Roseli Salete Caldart (UFRS) e Edgar J. Kolling (MST); o texto de Maria Regina de
Oliveira Andrade (Unicamp) fala da emergência de um novo homem rural, enquanto um outro, de
Gelsa Knijnik (Unisinos), procura mostrar a contribuição do processo comunitário dos
assentamentos à própria educação popular. A indagação recorrente sobre a viabilidade dos
assentamentos tem nos artigos de Sérgio Leite (UFRRJ) e outro de Jurandir Zamberlain e Alceu
Froncheti (Unicruz) as primeiras respostas das pesquisas em andamento sobre o poder de
irradiação, não só econômica, mas econômico-societária, da área reformada que ora se afirma no
mundo rural. O artigo "O MST e o direito" de Marcelo D. Varella (UFSC) traz esta nova questão;
outros temas voltam sob a forma do testemunho e da memória, como os escritos de Frei Betto-MST
("Sem terra & cidadania") e do Frei Sérgio Görgen-CPT ("Religiosidade e fé na luta pela terra")
e de "Pedro Tierra"/Hamilton Pereira da Silva-DF ("Somos a perigosa memória das lutas"),
mencionando-se ainda as breves entrevistas com Maria da Conceição D'Incao (Unicamp) e a que
João Pedro Stédile faz com Celso Furtado, o qual, aliás, veio lembrar do passado o tema do
emprego na reforma agrária.
Voltando ao nosso intelectual agrarista: enquanto Martins persiste na entrevista em
sua antropologia política e oferece alguns ensinamentos ao MST (neste ponto candente da relação
dos camponeses com a política), a sua problematização mais antiga dos camponeses como "grupo
emblemático" (sic) da resistência à contemporaneidade burguesa – com a qual em vários momentos
ele se opôs aos leninistas brasileiros–, reaparece na coletânea em chave diversa. Volta agora
como discussão sobre a emergência de um novo protagonismo camponês. Este tema, assim formulado,
é levado às últimas conseqüências no ensaio de James Petras-EUA ("Os camponeses: uma nova força
revolucionária na América Latina"). Lembrando a velha sociologia das revoluções, a teoria
veiculada por Petras procura ver em alguns movimentos agrários dos anos 90, como em Chiapas, na
mobilização do MST, em outras áreas da América Latina, a afirmação da figura de um novo
condonttiere social da revolução ainda não realizada. A questão é controversa no interior da
própria coletânea, pois lá estão também as "Sete teses" de Zander Navarro (UFRGS), justamente
sobre a correlação entre lutas sociais, reforma agrária e MST, falando daquele e de outros
itens também interessantes à discussão que Stédile pede às forças aliadas da reforma agrária em
andamento no país (5).
Notas
(1) Referimo-nos a Caio Prado Jr. como emblema de um movimento de intelectuais muito mais amplo.
Em torno do Iseb e do PCB desenvolveu-se uma "literatura das idéias" (como gostava de dizer em
1952 talvez o primeiro desses intelectuais), autoconsciente da própria missão publicística que
se atribui de ensaísmo de "imagem de Brasil" (na expressão de Vieira Pinto), ou, como querem os
mais novos (Bresser Pereira, Francisco de Oliveira), estruturada a partir de uma "interpretação
do Brasil". Aliás, quem sabe já se faz a hora de uma interpretação desta rica vertente do nosso
pensamento social, pois já vai bem crescida a bibliografia sobre os grandes pensadores e os
ensaístas de Estado das décadas anteriores. Afinal, são ou não são os anos 50 daqueles intelectuais
do tipo intelligentsia os de maior ativação das massas em nossa "revolução burguesa", em
contexto de franco processo de democratização política e protagonismo dos partidos na vida política
nacional?
(2) A propósito, a dissertação "Contribuição à análise da luta pela terra no Brasil: as interprettações
de Caio Prado Jr. e José de Sousa Martins", de Sylvia Maria Gomes Faria, defendida no CPDA (Curso
de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade - Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro) em 1990, constitui uma referência específica a ser considerada no estudo do que
aqui chamamos o "segundo" debate agrarista brasileiro, ou melhor, o contexto discursivo em que
se dá a interpelação de José de Sousa Martins à cultura leninista brasileira, tema que começa a
ser investigado na pesquisa Questão agrária e política no Brasil (CPDA).
(3)Sem pretender uma interpretação tout court, não poderíamos deixar de observar, já agora,
que em seus textos Martins mobiliza Gramsci, mas não no sentido da abertura analítica que certa
ensaística pecebista do pós-64 quer ver na dissertação da "revolução passiva". Aliás, foi com
este conceito que alguns lukácsianos/gramscianos na segunda metade dos anos 70 começaram a
transitar da idéia leniniana da política geral rumo ao tema da democracia política, vale
dizer, valorizando, primeiro, o frentismo pluriclassista reformador (do pré-64) e depois a
política da resistência à ditadura, vendo nela o fundamento de uma "estratégia democrática ao
socialismo"; socialismo cada vez mais pensado como via de democratização progressiva da
sociedade, este último processo, afinal, o locus da resolução da questão agrária, como
insistiria Ivan Ribeiro.
(4)Embora à época não tenha equacionado a especificidade do conceito na reflexão gramsciana
sobre o Risorgimento (Moderados/"Partido da Ação"), Fernando de Azevedo é dos primeiros,
se não o primeiro, a pensar, já em sua dissertação de mestrado (1980), as Ligas de Julião do
imediato pré-64 como "partido agrário".
(5)No grupo de pesquisa "Historiografia e memória agrária" (CPDA), o autor deste comentário
bibliográfico e Luiz Flávio de Carvalho Costa organizamos a coletânea Política e reforma
agrária (Rio de Janeiro, Mauad, 1998), com textos, entre outros, de José Graziano da Silva,
Moacir Palmeira e Sérgio Leite, Regina Novaes, Leonilde Medeiros, Marcos Lins, Zander Navarro,
Roberto Moreira e Ilse Scherer-Warren. Os organizadores se sentiriam recompensados se a reunião
de pontos de vista diferenciados, mas em recorte de análise política, se lidos num único volume,
realçasse as potencialidades que a ação política sempre teve e sempre terá no encaminhamento da
reforma agrária brasileira.
Textos de José de Sousa Martins citados:
Expropriação e violência (a questão política no campo). São Paulo: Hucitec, 1980.
Os camponeses e a política no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1981.
A caminhada no chão da noite. Emancipação política e libertação nos movimentos sociais no campo. São Paulo: Hucitec, 1989.
A chegada do estranho. São Paulo: Hucitec, 1993.
O poder do atraso. Ensaios de sociologia da história lenta. São Paulo: Hucitec, 1994.
João Pedro Stédile (org.). A reforma agrária e a luta do MST. Petrópolis: Vozes, 1998, 318p.
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