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Tantos os defensores quanto os críticos da reforma liberal do
capitalismo brasileiro devemos nos dar conta de que ela, se não está
encerrada, já tem pelo menos um perfil bem definido. Sob o signo da
privatização, da desregulação e da abertura comercial, a sociedade e a
economia vivem rigorosamente desde o início dos anos 90 o desmonte do
que em termos genéricos se chamou de "a Era Vargas".
Uma Era Vargas dilatada no tempo, evidentemente, alcançando não apenas
os períodos entre 1930/45 e 1950/54, mas todo o arco da história que
chega até o final dos anos 80 e inclui o regime militar, de resto
sugestivamente considerado como o Estado Novo da UDN. A Carta de
1988, como se sabe, nasceu morta. Fruto ainda da ampla frente de
centro-esquerda que se ergueu contra o autoritarismo e que tinha como
símbolo vivo a figura de Ulysses Guimarães, aquela Carta pretendia
basicamente democratizar as estruturas do Estado desenvolvimentista,
quando o diagnóstico das elites já era substancialmente outro.
Tratava-se de desmontar este Estado, adequando-o aos novos ventos
liberais que sopravam com força durante os anos 80 e que redobraram
de intensidade com os acontecimentos internacionais de 89/91.
"Com esta Constituição não é possível governar" -- foi a palavra de
ordem que unificou os setores dominantes a partir de então. Collor de
Mello abriu a temporada das "reformas constitucionais" a golpes de
caratê. Viu-se a seguir que o movimento era irresistível: depois do
"impeachment" e da relativa rearrumação de forças no governo Itamar,
o segundo presidente eleito diretamente haveria de retomar com vigor o
programa reformista. E o velho Estado desenvolvimentista da Era Vargas
veio a compartilhar a sina da Geni, do Chico Buarque. Não passa um
dia sem que lhe atirem uma pedra qualquer, ou coisa pior.
O essencial, como dissemos acima, já está feito. O "tripé" que
sustentou a acumulação capitalista no vasto processo de modernização
conservadora que varreu o país desde 1930 e se aprofundou mesmo depois
de 1964 -- "tripé" constituído pelo Estado, o capital estrangeiro e o
capital privado nacional -- transforma-se a olhos vistos, com a
privatização e a abertura, numa criatura bípede, quando não pula com a
solitária pata transnacional. Programaticamente, não há nada a esperar
do Estado, a não ser o papel de guardião das regras do jogo do mercado,
do qual deve surgir em algum momento o impulso para um novo ciclo de
dinamismo econômico e social. (Só o que se pode argumentar é que falta
uma reforma crucial, a da Previdência, que a retiraria do modelo de
repartição e a situaria no novo modelo da capitalização, com o que as
aposentadorias seriam entregues aos azares do mercado financeiro mas
supostamente se garantiria um novo padrão de financiamento -- à custa,
naturalmente, do estoque de aposentados atuais, que terão pela frente uma
"argentinização" de suas condições de sobrevivência.)
De algum modo, pois, vivemos já numa espécie de "day after": estamos
em plena Era FHC, e a continuidade das reformas -- como a desregulação
do mercado de trabalho, para ficar num exemplo -- apenas prefigura "mais
da mesma coisa". E o que se pode registrar desde agora é o novo patamar
de concentração do poder econômico, sob a égide do capital financeiro.
Apesar de o processo ainda estar em curso -- afinal, o sistema elétrico,
o de telecomunicações e a própria Petrobrás ainda não estão inteiramente
em mãos privadas -- e de ser muito difícil discernir quem é quem na caixa-
preta das participações acionárias, despontam os heróis da nova era, ou
pelo menos os candidatos a tal. O empresário Benjamin Steinbruch, neste
sentido, é o personagem mais em evidência, desbancando, como no caso da
Vale do Rio Doce, figuras históricas do industrialismo, como Ermírio de
Morais.
José Luís Fiori, de quem esta breve análise retirou algumas sugestões,
lembra que um exercício importante a ser feito no futuro próximo é
determinar os deslocamentos de poder político que desde já acompanham
-- e com o tempo se farão ainda mais significativos -- esta nova
configuração do capitalismo. Por outro lado, o retraimento do Estado e da própria
política como instrumentos de programação democrática da economia, de
promoção de intervenções agressivas na área do desenvolvimento social --
esse retraimento, dizíamos, certamente haverá de ter projeção externa.
Sem política, ou com uma política que se limita a ouvir de modo mais ou
menos dócil o veredito dos mercados internacionais, é provável que este
Estado termine como o fiador de uma inserção passiva na globalização
neoliberal em curso, garantindo a renovação e o aprofundamento do caminho
dependente e associado do capitalismo brasileiro. Não deixa de ser
irônico que o piloto desta manobra tenha sido exatamente, há muitos anos,
um dos aclamados autores de uma certa "teoria da dependência".
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