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A primeira impressão que a política brasileira passa a um observador
menos atento é a de que todos os jogos estão rigorosamente feitos. A
reeleição de Fernando Henrique Cardoso assume ares de coroação, poucas
vezes um bloco de poder foi tão poderoso em nossa história política, as
oposições se mostram incapazes de qualquer alternativa.
O Sol parece, em suma, girar definitivamente em torno de uma Terra
imóvel, num cenário de conotações ptolomaicas. A coalizão de centro-
direita estende-se do PPB ao PMDB, passando pelo PFL e o PSDB. Sem
dúvida, se consolidado, este seria o maior partido do Ocidente enfim
encontrado, fundindo os herdeiros de Arena e MDB em torno do ponto de
equilíbrio representado pela figura insubstituível de FHC.
E nesta altura, puxando o fio da meada, quem sabe poderíamos ir
admitindo desde já uma nova recandidatura em 2002, como algo que decorre
sem surpresa da própria natureza do processo. De resto, Menem e Fujimori
anteciparam-se neste movimento, e ao parceiro brasileiro das reformas
liberais caberia apenas extrair as conseqüências lógicas, como num
silogismo. Aos enjoados de sempre, demagogos inveterados de quem o povo
anda cheio, restaria o protesto irrazoável, o apelo anacrônico à
estabilidade das regras do jogo, quando, neste momento exaltante de
conformação da sociedade às exigências do "mercado", regras do jogo
valem menos do que resultados do próprio jogo.
"Eppure si muove", diria um Galileu tropical, meio "gauche", descobrindo
tensões sob a aparência de placidez, desequilíbrios disfarçados sob a superfície
amena. Começaria por observar que este grande consenso liberal-conservador
tem sido muito eficiente no desmonte das estruturas tradicionais do
Estado, mas infinitamente menos capaz de indicar -- positivamente --
a nova forma de Estado que defende. Nosso heterodoxo herói facilmente
focaria o telescópio noutro fato indiscutível: o êxito do plano de combate
à inflação se paga, cada vez mais, com a incapacidade de relançar o
desenvolvimento de modo sustentado. Falha mortal num país cujo código
genético impõe soluções desenvolvimentistas, a serem evidentemente
reinventadas num novo contexto de redistrituição de rendas e de ênfase
inequívoca nos temas da democracia política e da coesão social.
Em decorrência destas e de outras falhas, até mesmo em parte
significativa das elites econômicas se generaliza a idéia de que se conduziu
o país a uma armadilha difícil de desmontar. Câmbio valorizado, juros
para lá de escorchantes, dependência viciosa de capitais externos -- a
sensação que se difunde é que bombas de efeito retardado já se armaram
pelo caminho a percorrer. E, num momento em que se quer a política
como expressão passiva da economia, destituída de qualquer ousadia e
criatividade, uma tal perspectiva de petardos econômicos tende a sugerir
ou mesmo impor, desde já, realinhamentos políticos não desprezíveis.
Como a confirmar que, ao fim e ao cabo, nem mesmo os atores deste
paquidérmico partido da ordem burguesa acreditam muito no mundo
ptolomaico que ajudaram a criar.
Anotem-se, por exemplo, alguns movimentos já visíveis a olho nu. A
reaproximação entre Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães tem o claro
sentido de reagrupar a direita tradicional, simultaneamente aumentando-lhe
o poder de condicionamento dentro da coalizão dominante e habilitando-a
como eventual alternativa no caso de colapso desta mesma coalizão. Tudo
dependeria -- e aqui nos expressamos apenas metaforicamente, é claro --
de os ratos saberem escapulir na hora certa, quem sabe articulando até
mesmo uma argumentação "oposicionista". Uma questão de tempo, por
certo, matéria em que pelo menos ACM já se mostrou mais de uma vez um
mestre consumado, se descontarmos a obstinada adesão a Collor de Mello.
Do centro peessebista e peemedebista vêm às vezes sinais de que uma
parceria futura, de caráter mais exclusivo, seria uma boa saída para fugir
de pressões indesejáveis. Dada a profunda convicção liberal que hoje
assinala esta área, aparece como altamente improvável, no momento,
qualquer aceno na direção de uma coalizão de centro-esquerda, capaz de
reconstruir a política democrática como poder efetivo sobre os processos
econômicos.
Setores da esquerda têm se mostrado sensíveis a novas alternativas de
aliança fora de seu campo estrito. Mesmo o PT, antes tão exclusivamente
cuidadoso com a identidade partidária, tomado como estava pelo "espírito
de cisão", dá sinais de maturidade. Mas ainda há muito a percorrer antes
de consolidar-se, à esquerda, a consciência de que não basta olhar para o
próprio umbigo e é preciso agir tendo em vista a possibilidade -- e a
necessidade -- de incidir sobre as orientações do centro político, ajudando
a desagregar o grande consenso liberal. Um movimento estratégico de
largo alcance -- mas do qual precisa desesperadamente o país.
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