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No primeiro semestre do ano em curso (1998), Luiz Werneck Vianna ministra um curso sobre o
pensamento de Antonio Gramsci, no Iuperj. A base do curso, desenvolvido em seminários
quinzenais, são os textos dos Cadernos do cárcere, principalmente aqueles em que G.
desenvolve o tema do Risorgimento assim com o da relação entre intelectuais e ciência.
Objeto inicial do curso é a sociologia política do poder local, desenvolvida por G. na
análise do Mezzogiorno. Partindo da ortodoxia marxista, G. chega a conclusões inovadoras
acerca da vantagens do atraso para o processo revolucionário. O atraso da Itália
meridional, ainda, seria vantajoso para a reprodução do ordenamento burguês, visto
que a organização da sociedade meridional proporcionaria uma forma de dominação em que
uma armadura flexível resguardaria o poder estatal. Nesta perspectiva, G. examina o papel
dos intelectuais na organização do consenso e também os pressupostos da forma como a
Itália entra no mundo moderno.
O curso aborda ainda a sociologia histórica comparada dos Cadernos. G. não é um ideólogo
dos intelectuais. Os intelectuais não substituem as classes, embora a questão da
hegemonia torne-se mais complexa em sociedades capitalistas menos desenvolvidas: G. está
atento à maior complexidade dos nexos entre população e sistema de mando prevalecente,
decorrente das "sedimentações passivas do passado". Daí também a importância dos
intelectuais para assegurar a hegemonia nos países de capitalismo retardatário. Em
contraposição, as superestruturas se racionalizam nos países de capitalismo avançado. Há
menor necessidade de mobilização da política para resguardar o poder em tais contextos.
Ressaltam-se ainda, neste mesmo módulo, temas como a necessidade da reforma ético-moral
para a superação do capitalismo; a importância de estudar a reforma protestante; e a
importância da relação intelectuais-massa para a reorganização do senso comum.
A próxima etapa do curso versa sobre o papel primacial da política para G. Por que, para
ele, é fundamental realizar a transição do plano econômico-corporativo para o
ético-político? A política aparece como a possibilidade de superar o mundo fragmentado,
como resposta à hipótese de uma concepção unitária da vida social. Daí os temas da ação
política criadora, da paixão, do programa, da ação organizada, ou seja, do partido: a
subjetividade como um fiat indispensável. O foco passa, então, para a interrogação
gramsciana do "Prefácio" de 1859 bem como para suas análises do sujeito em Marx, a partir
das Teses sobre Feuerbach e da Miséria da filosofia. Outros tópicos neste mesmo campo
são a concepção da sociedade civil em G., a herança hegeliana, a solução de G. para o
problema da eticidade, a presença do Estado na sociabilidade, a sociedade civil como um
"Estado ampliado".
O fenômeno do fascismo suscita novas intervenções de G. analisadas no curso. Por exemplo,
sua crítica à idéia de que as crises hegemônicas necessariamente proporcionam uma situação
política favorável para as classes subalternas. Ou então a influência do atraso italiano
para a emergência do fascismo: uma crise orgânica do capitalismo retardatário resolve-se
na forma de uma revolução-restauração. Daí a crítica das interpretações economicistas do
fascismo formuladas pela III Internacional, a ênfase na impropriedade de subordinar a
dimensão da política aos movimentos da "estrutura". Por tudo isto, o fascismo surge em
G. como um fenômeno político radicalmente singular.
O módulo seguinte do curso trata do americanismo e, portanto, da racionalizão do mundo.
O americanismo é concebido como um momento da economia programática em que se gerava um
novo tipo de sociabilidade. G. empreende então uma crítica ao antiamericanismo,
sublinhando a importância daquele novo capitalismo na produção de uma sociedade
auto-regulada. G. enfatiza a centralidade da fábrica e o descentramento da política,
perguntando-se como entender a hegemonia neste contexto e estabelecendo distinções entre
Europa e América. O americanismo surge assim como uma forma intensificada e depurada da
civilização européia. E, de novo, a pergunta: como a classe operária pode interpretar o
processo de americanização advindo do americanismo, de modo a deixar de ser objeto deste
processo? Por último, explora-se a idéia de que em G. o fascismo italiano aparece como
uma americanização "pelo alto".
O curso aborda a seguir os temas da filosofia da práxis, do marxismo como historicismo
real e absoluto, capaz de antever a própria superação. Daí a pergunta: a filosofia da
práxis já se realizou? Trazendo G. para o mundo de hoje, analisa-se a organização
totalitária das sociedades reguladas pelo mercado, a necessidade de incluir uma agenda
normativa no programa liberal. Repropõe-se a idéia de sociedade regulada como o momento
de realização da filosofia da práxis. E também o avanço dos espaços de liberdade e a
redefinição da subjetividade humana: o mundo como livre criação, o homem como esteta de
si mesmo, a centralidade da ética... Ainda, na mesma ordem de idéias, a necessidade da
intervenção política para recuperar a dimensão ética das sociedades. E a realização da
filosofia da práxis como condição social para a validade das verdades especulativas do
idealismo filosófico alemão.
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