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  A Perspectiva do Gênero nos Estudos de Masculinidade: uma análise da revista Êle Ela em 1969

 

Autor: Marko Monteiro (markosy@uol.com.br)

(Campinas, 1997)

 

     O presente trabalho visa, através de uma análise de alguns artigos retirados dos primeiros números da revista Êle Ela: uma revista para ler a dois, do ano de 1969, delinear uma abordagem analítica. Busco, através da utilização de metodologias de gênero formuladas no âmbito das teorias feministas, estudar criticamente a masculinidade enquanto aspecto que perpassa os textos e a abordagem da revista, relacionando este saber sobre a masculinidade com práticas de poder (institucionais ou não) na sociedade mais abrangente da época. Tal abordagem se baseia nas formulações de Foucault sobre o poder (relacionado com a produção social da verdade), e nas teorias feministas que, utilizando teorias pós-estruturalistas (como a de Foucault), formulam o conceito de gênero como categoria analítica. Conceito este que reafirma a historicidade de relações de gênero, a sua importância enquanto pressuposto estruturador da experiência e das relações, criticando posições essencialistas e relacionando o modo como se dá a percepção dos papéis de gênero com a dominação e o poder.
     Este artigo faz parte de um projeto maior, que pretende analisar revistas masculinas brasileiras das décadas de 70 e 80 afim de mapear como foram formuladas as percepções da masculinidade neste período, em relação é claro com acotecimentos sócio-culturais da época. A revista Ele Ela, atualmente uma revista masculina de grande circulação, surgiu em 1969 com o subtítulo "uma revista para ler a dois". Naquela época destinava-se a casais, ou a leitores de ambos os sexos, contendo informações escolhidas especificamente para cada grupo. Somente a partir de 1976, com a mudança da revista que passa a ter o subtítulo prazer e informação para o homem, é que a revista se direciona completamente para um público majoritariamente masculino.
     Neste trabalho, analisando apenas alguns artigos dos primeiros números da revista, ainda de 1969, pretendo como já falei esclarecer qual é a abordagem pretendida nesse tipo de análise, quais são os pressupostos teóricos envolvidos e como se aplica esta toria para a análise de exemplos concretos. Num trabalho posterior, pretendo aplicar a mesma metodologia construída aqui para o estudo histórico mais amplo, possivelmente incluindo outras revistas como Playboy, Fiesta, Status, etc..
     Escolhi analisar revistas masculinas, por elas serem locais privilegiados de produção e circulação de saberes e significados acerca do homem, portanto sendo objeto interessantíssimo para um estudo crítico da masculinidade. O recorte temporal mais amplo se justifica, ao meu ver, no que tange ao significado deste período. A literatura consultada aponta para a erupção, a partir da década de 70, de diversos movimentos sociais urbanos (SKIDMORE, 1988; MACRAE, 1990) que, inseridos num contexto de redemocratização e distensão política (SKIDMORE, op. cit.), representaram um sério questionamento acerca das identidades e da sexualidade (MACRAE, op. cit.; ALVAREZ, 1988), promovendo uma intensa produção e revisão dos discursos acerca das identidades dos sujeitos, em diversos níveis.
     Pode-se dizer que o vetor principal de liderança e orientação dessa revisão dos discursos e das práticas foi o fortalecido movimento feminista. Nesse período o questionamento acerca das práticas e discursos sobre a sexualidade não se dissocia do movimento pela redemocratização, o que aponta também para uma visível mudança de tática e de prática por parte dos grupos organizados urbanos. Ao movimento feminista se aliaram também o homossexual e o negro (onde estavam melhor organizados), todos no mesmo contexto de renovação de práticas e discursos.
     Tanto o movimento feminista quanto o homossexual questionaram seriamente o papel do homem e as hierarquias entre os diferentes grupos. Tanto o feminismo quanto o movimento homossexual vão questionar o patriarcado, a superioridade do homem sobre outros grupos, a obrigatoriedade do heterossexualismo e o modo como o homem relacionava-se consigo, com outros homens e com as mulheres. Todo esse questionamento teve influência a nível cultural e das práticas discursivas, o que vemos aparecer nas revistas masculinas. O homem, categoria naturalizada por séculos, se viu questionado em sua posição de maneira jamais antes vista, tanto no Brasil como em outros países. Durante o período analisado, que significou o auge desses movimentos, vemos nos documentos um movimento de redefinição do homem enquanto sujeito, em vista da necessidade de se confrontar com o surgimento de novos discursos e novos sujeitos que estavam se constituindo.(1) *            *            *

     Creio que posso construir a minha argumentação teórica em cima do binômio saber-poder. Não pretendo com isso uma dicotomia simples, ou uma relação (afirmada no senso comum) do tipo saber é poder, etc.. Quero aqui seguir na linha argumentativa de Michel Foucault, dentro de uma perspectiva de análise de discurso. A partir de Foucault, principalmente nas obras Microfísica do Poder e História da Sexualidade I, pretendo contruir a relação entre saber/poder como um dos pressupostos básicos, que fundamentará as teorias de gênero que usarei e exporei mais adiante.
     Na sua Microfísica, Foucault evoca a interseção saber /poder de inúmeras formas. Num dos artigos, ele afirma que a verdade pode ser vista como social e histórica: "A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder." (FOUCAULT, 1979:12).
     O autor fala de uma política ou regime da verdade, que cada sociedade possui para regulamentar discursos tachados de falsos ou verdadeiros, sancionando assim alguns e produzindo efeitos de poder relacionados ao discurso 'verdadeiro'. Para ele, a verdade (ou o saber) é "o conjunto de regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder.". Em se tratando da masculinidade, aquela que é mais 'verdadeira' que as outras é mais legítima possuindo dessa forma um mecanismo de poder sobre outras.
     Para Foucault, seu método genealógico de analisar a historicidade dos discursos e seus efeitos de poder parte do pressuposto de que interpretar não é uma atividade metafísica de descobrir algo oculto na origem. Interpretação é, como ele descreve, apoderar-se por violência de um sistema de regras (ou uma tecnologia de produção de verdade, ou de um foco de saber/poder), que em si não possuem significado essencial, e direcioná-lo, dobrá-lo a um novo sentido, impor uma nova interpretação. Este processo descreve o movimento das lutas em torno da produção da verdade e do poder, e a genealogia busca investigar mudanças que não se restringem ao plano do sentido e da comunicação, mas integram sistemas e normas de produção de saberes que sancionam, validam, produzem e participam de esquemas de poder.
     Minha pesquisa é genealógica neste sentido, quando busca mapear os movimentos de sentido que ocorrem a respeito da masculinidade. Esses sentidos integram esquemas sociais de poder que podemos vagamente classificar de machistas ou patriarcais, dando sentido à dominação de um sexo sobre o outro; ou de uma masculinidade sobre outras masculinidades e feminilidades. Tais raciocínios fundamentam as teorias feministas de gênero mais atuais, como a proposta pós-estruturalista de Joan Scott com a qual trabalharei e as propostas de David Morgan sobre o estudo de masculinidades que discutirei mais adiante.
 
     Não podemos nos contentar em dizer que o poder tem necessidade de tal ou tal descoberta, desta ou daquela forma de saber [como sugere o conceito de ideologia ou de aparência no pensamento marxista], mas que exercer o poder cria objetos de saber, os faz emergir, acumula informações e as utiliza. Não se pode compreender nada sobre o saber econômico se não se sabe como se exercia, quotidianamente, o poder, e o poder econômico. O exercício do poder cria perpétuamente saber e, inversamente, o saber acarreta efeitos de poder. (FOUCAULT, 1979:142).

     A hegemonia de algumas masculinidades sobre outras se dá nesse sentido: ela é exercida quotidianamente (práticas sociais), produzindo saberes sobre o homem que se reforçam e se constróem nas relações formadas entre homens e entre homens e mulheres no seu quotidiano e através da história. Esses saberes são produtores de efeitos de poder, reforçam e integram as práticas de dominação e submissão, e no seu movimento também alteram e subvertem essa dominação.
     Essa mesma relação pode ser vista, na História da Sexualidade I, a partir de quatro "prescrições de prudência" que Foucault enumera ao analista dessa mesma história:

     1) regra da imanência: a produção de saberes se relaciona com relações de poder; focos de saber-poder.
 Ou seja, o poder se relaciona com as práticas que o exercem, é assim "a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização" (op. cit., pg. 88). O poder não surge então de um locus específico, está presente em todas as partes e especialmente na relação entre um ponto e outro (relações e práticas sociais).
     2) regra das variações contínuas: as relações de poder não são estáticas, não há dualidade opressor/oprimido.
 O poder não é detido em locus nenhum, assim como pensar numa simples dominação global de "oprimidos" já não faz sentido para entender processos complicados de relações sociais; as correlações de força são dinâmicas, interagem entre si, se reorganizam, se separam, se contradizem, ou formam sistemas mais abrangentes.
     3) regra do duplo condicionamento: os focos locais de poder são condicionados por estratégias globais (ou sistemas abrangentes de dominação) e vice-versa, apoiando-se mutuamente um no outro.
     A simples dualidade opressor/oprimido desaba, assim como a noção de que o poder que domina e oprime vem do exterior, do estado, etc. O poder existe e acontece nas relações micro, no cotidiano, nas relações face a face e nas pequenas organizações e práticas. Dessa forma compreendemos melhor o porquê da força dos movimentos sociais urbanos das décadas de 70 e 80, que abandonaram um discurso estritamente marxista de questionamento do poder estatal e de valorização de estratégias globais, para renovar o discurso e prática das esquerdas, propondo a luta a nível do quotidiano, das relações mais banalizadas entre as pessoas, a nível do local. Esses grupos questionaram exatamente a presença do poder e da dominação em todos os níveis, e queriam mudar a estrutura desses poderes; acabando por contribuir para uma estratégia global de redemocratização do país. Especialmente neste ponto vale relembrar a regra do duplo condicionamento: movimentos sociais enquanto prática/ discurso e redemocratização enquanto mudança de práticas e discursos globais são indissociáveis.
     4) regra da polivalência: o discurso não reflete a realidade, o poder e o saber se articulam no discurso. Não há discursos excluídos e dominantes, mas sim uma multiplicidade de discursos, que se inserem em estratégias diversas. O discurso veicula e produz poder.

     É aqui onde a relação saber-poder aparece de forma mais clara. Para compreender melhor essa parte, que é o foco da discussão, podemos ver como essa relação se explicita na chamada análise de discurso.
     Essa abordagem se baseia na não literalidade da língua, o que significa, como disse Foucault, que o discurso não reflete a realidade. Eni Orlandi (1992) trabalha essa questão nesses termos, opondo a essa suposta literalidade e neutralidade da língua a materialidade histórica desta. Ou seja, a linguagem não é um sistema neutro de símbolos convencionais que transmite de forma clara e neutra um conteúdo determinado (como a matemática), mas sim um sistema que organiza os significados possíveis e não-possíveis, mapeando as possibilidades do entendimento a partir de um contexto histórico específico, articulando a compreensão da realidade por parte de sujeitos que não são autônomos ou livres, mas se encaixam nesse sistema de significação e são formados a partir das possibilidades de compreensão. Ou seja, cada momento histórico possui o seu dizível e não dizível, que são frutos de processos sociais e históricos que buscam instituir e redefinir os espaços de significação.
     A língua é material, opaca, não transparente, histórica e não eterna. A língua codifica significados que são frutos de relações e embates sociais, ou seja, de práticas que são históricas; é aqui que o poder e o saber se entrecruzam: essas cadeias de significado são portanto fruto de e exprimem relações sociais de poder.
     Como pensa Paul Veyne (1982) o discurso (ou o saber) é a objetivação de práticas reais e concretas, ao mesmo tempo ordenando a percepção dessas práticas. As práticas (o poder, relações sociais) são "referentes pré-discursivos", que serão objetivados e percebidos em discursos, ou saberes sobre essas práticas. O referente não é natural, também é produzido em decorrência das diversas objetivações que recebe. É fruto do modo como nós o percebemos. Essa relação mostra como poder e saber são interdependentes, se entrecortam e se moldam mutuamente, numa relação que é simbiótica e dialética.
     Por isso a abordagem analítico-discursiva, baseada na escola francesa (Foucault e outros) nos permite uma análise extremamente rica e reveladora de processos e movimentos de sentidos (neste caso contidos em revistas masculinas) e do movimento histórico das práticas.
     No campo das teorias feministas de gênero, que recentemente promoveram uma explosão de discursos sobre a masculinidade (dos quais este artigo faz parte), toda a discussão que construí anteriormente funda, como já mencionei, diversos dos argumentos e das críticas formuladas. As teorias feministas, que até recentemente discutiam a categoria "mulher" como significativa ou não para a análise, levaram às teorias pós-estruturalistas que questionam o sujeito e utilizam Foucault e a análise de discurso para renovar o campo da teoria no feminismo. Nesse contexto a historiadora N. Americana Joan Scott desponta como pensadora de peso. Scott tenta formular o gênero enquanto categoria analítica (1988), vendo como as identidades são construídas historicamente através dos discursos e como diferentes sentidos são atribuídos à diferença sexual. Scott pensa também, na mesma linha de pensamento que desenvolvi anteriormente, como esses sentidos diferenciados correspondem a práticas de poder históricas. O surgimento ou formulação do gênero como categoria analítica possibilitou não só uma renovação no campo da história feminista como influenciou todo o estudo recente sobre a masculinidade. Na verdade, o discurso atual sobre a masculinidade ou a "crise da masculinidade" se deu a partir dessa mudança de enfoque teórico (MORT, 1994).
     Com as teorias pós-estruturalistas estudiosos foram levados a perceber como diferentes conceitos de masculinidade são construídos social e historicamente, e como os sentidos atribuídos à masculinidade se relacionam com práticas de poder específicas. Nesse contexto teórico se insere a minha pesquisa, visando preencher (ao menos minimamente) essa lacuna do conhecimento sobre a história no Brasil. Conhecendo e desconstruindo discursos e práticas sobre o homem e a masculinidade no Brasil, podemos conhecer como sistemas de poder são criados e cristalizados e, a partir daí, formular questionamentos visando uma mudança de tais esquemas.
     David Morgan, sociólogo inglês que desenvolve um trabalho importante sobre relações de gênero e masculinidades no campo da sociologia (1992), faz uma série de propostas extremamente produtivas para o desenvolvimento do meu trabalho, procurando também compreender como as relações de gênero são desiguais entre homens e entre homens e mulheres, e como saberes sobre essas relações, que são historicamente constituídos, se integram com práticas concretas de poder nas mais diversas esferas da vida, criando situações de dominação e exclusão. Uma das colocações mais interessantes, se relacionada à discussão sobre saber/poder já feita, é de que a masculinidade deve ser vista não como um atributo que homens possuem em maior ou menor quantidade, mas sim como algo inserido em relações de poder e que ajuda a perpetuar tais relações. Ou seja, o saber sobre a masculinidade não reflete uma essência própria do homem, que determina práticas também específicas; essas noções são parte de um 'esquema de verdade' que é social e histórico, e que penetra, estrutura e se relaciona com práticas quotidianas de poder na sociedade.
     Morgan antes de tudo ressalta a importância dos estudos feministas enquanto pesquisa, método e crítica, relembrando que este tipo de estudo crítico de masculinidades, o qual eu tento fazer, só foi possível a partir desses estudos. Ele também lembra que é problemática a apropriação de métodos feministas para estudar a masculinidades, pois os homens estão efetivamente em situação privilegiada na sociedade. Esse contexto não impede, mas dificulta que esse sujeitos façam estudos críticos sobre a sua própria situação de poder, (ele mesmo é um sociólogo homem preocupado com a questão) se constituindo em fator que não se pode ignorar.
     Morgan vê, assim como Foucault, o saber não como objeto mas como um processo, ou fruto de um processo constante que involve conflitos políticos em torno da legitimidade de saberes em competição. Disso decorre o estabelecimento de hierarquias entre os saberes, que influenciam e se relacionam com hierarquias nas relações sociais. Para a nossa discussão, a partir desses pressupostos, importa lembrar que o saber é perpassado por concepções de gênero, é assim gendered; o saber crítico produzido sobre gênero pode ser visto também como perpassado por noções de gênero, e visa criticar hierarquias vigentes (é a apropriação de esquemas de interpretação mediante a violência de que falava Foucault anteriormente). Nesse sentido, ele levanta algumas questões extremamente relevantes para o analista de masculinidades:

 A) If knowledge is in some measure limited by its gendered base, then to what extent and in what ways is a critical understanding of men mand masculinitie possible?
 B) This can be put in stronger terms. Since we are dealing with a context of power inequalities, to what extent is it possible or reasonable to expect men to develop these forms of self-knowledge which will inevitably lead to the erosion of male power and priviledge?
 C) How far and in what ways are sharings of gendered knowledge possible between men and women?
 D) Is it possible now, or in the future, to talk about genuinely gender-neutral knowledge? (MORGAN, 1992:37)

     Essas questões remetem aos pressupostos filosóficos que validam ou não a investigação científica. Apesar de ser uma discussão extremamente longa e complexa, que não é o objeto específico dessa pesquisa e para qual não estou preparado para participar ativamente, creio que ela propõe desafios a mim enquanto analista. Pois eu parto do pressuposto de que, enquanto homem, inserido numa sociedade machista e patriarcal (brasileira e ocidental), posso estudar criticamente a masculinidade até certo ponto, e também posso me apropriar, de forma crítica, de saberes desenvolvidos por mulheres que questionam a dominação do homem para a sociedade. Tanto que estes estruturam toda a minha análise, assim como a análise de Morgan.
     Longe de querer resolver esta questão, creio que devo explicitar minha posição recorrendo a Weber e sua discussão sobre a objetividade do conhecimento (1993). Ou seja, no âmbito do método, e no que diz respeito à construção da análise a partir de modelos ideal-típicos, creio que há a possibilidade de um pensamento com um certo mínimo de objetividade e que pode ser compartilhado tanto com feministas quanto com outros analistas que discordem dos meus resultados. Me nego sim à pretensão de revelar o verdadeiro funcionamento dos processos que analiso, até porque não creio que tal coisa seja possível, pensando tanto nas posições de Weber quanto de Foucault.
     Segundo Morgan, as feministas tiveram grande influência não só na elaboração de teorias e na crítica de conceitos, mas ao penetrarem efetivamente nas instituições de produção do saber (politica, universidades, mercado de trabalho), ou que produzem saberes dominantes, causaram rupturas no que diz respeito às práticas sociais de produção desses saberes. Em outras palavras, o impacto do feminismo não decorre somente de um corpus teórico questionador, mas é influência de um movimento social e político que afetou a maneira com a qual a realidade é vista, afetando assim a percepção do homem sobre o seu papel nestas estruturas sociais. Assim este autor conceitua o que se chama contemporâneamente de "crise de masculinidade". Morgan ressalta que tal crise não é unívoca em seu funcionamento ou conseqüências, e que faz parte de processos sociais mais amplos, um dos principais sendo as sucessivas ondas de crítica feminista presentes no ocidente desde o século XIX.
     No que diz respeito às revistas masculinas, ou a uma genealogia das masculinidades no país, acho necessário prestarmos atenção a processos macro-sociais, como nos lembra Morgan. No período em que estudo, podemos destacar a redemocratização, aliada a um processo que denomino "modernização", que é a conjugação de processos amplos na esfera política, econômica, e cultural-social. Como compreendo isto: a intensa urbanização e a industrialização do país, a sua redemocratização mediante o surgimento de novos movimentos sociais urbanos (provindos dessa nova estruturação da sociedade) como o homossexual, o feminista e o negro, que promoveram também uma crítica cultural e das relações sociais. Não cabe neste projeto analisar com profundidade estes processos, que ocorrem no decorrer das décadas de 70 e 80, mas de ver como eles são mediados por relações de gênero, e como a reelaboração das concepções de gênero passa por tais processos mais amplos.
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     Passarei agora à análise dos artigos eles mesmos, tentando esclarecer como se faz a aplicação dos conceitos com os quais lidei até agora, assim como trazer à tona alguns temas levantados pelas revistas. Com isso quero dizer identificar algumas regularidades, onde elas existem, para fins de comparação com o que pode ser econtrado no decorrer da revista.
     Creio que um aspecto bem marcante da abordagem típica dos artigos da revista é a oposição constante e a definição interrelacionada entre homem e mulher. Um não existe sem o outro, um não se define a não ser em oposição ao outro. Isso serve não só de mote para todo o argumento que a revista apresenta no decorrer de seus artigos e editoriais (ressaltando aqui que é perigoso inferir uma unidade ou coerência nos argumentos apresentados, a não ser para fins analíticos, a exemplo da construção de um tipo-ideal weberiano), mas nos lembra um aspecto vital na construção da análise.  Qual seja, de que as categorias e formulações que porventura são encontradas nos textos da revista se definem sempre em relação ou em oposição a uma série de outros conceitos, que são organizados também de maneira hierárquica nos dizendo algo sobre as relações de poder presentes na sociedade entre os sujeitos apresentados nas revistas. Nos textos analisados, a oposição homem/mulher era a mais presente, ao mesmo tempo nivelando todas as distinções entre eles (por exemplo, definindo uma unidade argumentativa que põe a relação heterossexual entre homens e mulheres como fim último da existência emocional dos sujeitos, construindo uma relação estanque entre ambos), e ignorando uma relação de desigualdade que porventura exista entre esse sujeitos assim definidos em relação um com o outro. Não obstante a insistência da revista em mencionar uma repressão das mulheres, tal situação é freqüentemente descrita como passada (em oposição a uma "mulher moderna" que existe no presente da revista), e a relação de subordinação nunca é lidada diretamente no seu funcionamento e nas suas conseqüências mais concretas. Apesar disso tudo, proporei algumas leituras que mostram que os temas de subordinação da mulher, o que implica numa superioridade do homem, apesar de não serem lidados diretamente pela revista estão presentes constantemente "nas entrelinhas".
     Uma dificuldade que encontrei, exatamente como conseqüência do tipo de abordagem da revista, foi lidar com temas de masculinidade separados de temas de construção da feminilidade. Não nos esqueçamos que a revista, durante este período, não se definia como revista masculina, mas sim como uma "revista para ler a dois", portanto lida constantemente com temas ligados a homens e mulheres e sua relação. Toda a proposta inicial da Êle Ela se funda nesses termos. No que diz respeito à análise, também não podemos nos esquecer de que noções de gênero se configuram em relação e em oposição a outras (SCOTT, 1988), portanto uma comparação entre noções de masculinidade e feminilidade se faz em certos casos necessária, sendo sempre instigante. Mas não é suficiente, se não quisermos sucumbir a uma reificação das oposições construídas pelos textos eles mesmos entre homem/mulher. Esta oposição é ela mesma uma construção, que apaga uma míriade de outras relações e oposições possíveis, especialmente uma relação homem/homem (afetiva ou não), que se mostram também importantes na definição de relações de gênero e de hierarquias também entre os homens. Em outras palavras, devemos desconstruir uma oposição binária homem/mulher estanque no momento da análise, prestando atenção para a infinidade de outras relações e oposições que se somam na construção das masculinidades.
     A análise precedente encontra muitos dos seus elementos no seguinte editorial de Justino Martins:

     Ao contrário dos demais personagens shakesperianos, Ofélia não chega a ser um símbolo, é apenas um mau exemplo: o do amor pelo 'doce príncipe' problemático que não tinha tempo para amá-la. Compensando-a em sua desventura, Shakespeare enfeitou-lhe a morte trágica com flores.
     A mulher moderna não pretende repetir o drama de Ofélia, e, por isso, ao suicídio romântico prefere a vida, e, na vida, prefere conhecer-se a si mesma e conhecer os homens. Tal fórmula evitará que ela termine afogada em suas angústias e, com flôres ou sem flôres, a mulher já está cansada das angústias que a marcaram por tanto tempo.
     Êle Ela, neste seu segundo número, continua mostrando a face real dos problemas mais íntimos do homem e da mulher modernos. Exemplos como o de Ofélia, situações típicas e ilustrativas dos mais diversos conflitos atuais encontram, nas páginas que se seguem, um estudo pormenorizado e sincero que muito ajudará ao homem e à mulher na busca da felicidade comum e do comum destino. (Êle Ela, junho 1969).
 
     Vemos como o texto recorre à literatura para evocar uma mulher a-histórica, transcedental, para lidar com problemas que são bem reais e históricos. Retirando o símbolo de seu contexto, tem-se a impressão de que os problemas são de ordem moral, ética, apagando-se a processualidade. Vemos a oposição entre Ofélia e a "mulher moderna", que ao se recusar a reviver o drama suicida, aparenta estar alheia à opressão e à subordinação. Como se a mulher moderna, por razões não explicitadas, tivesse uma opção de mudar completamente a sua vida subordinada, como se mudar sua vida fosse uma questão de opção pessoal (pois Ofélia desgraçou-se aparentemente por opção pessoal, amorosa).
     Vemos também a sugestão de uma relação obrigatória e inevitável entre o homem e a mulher, personagens acabados, homogêneos, referindo-se a uma universalidade tanto interna (só há um 'homem'), quanto na relação entre ambos. A mulher moderna, por ser livre, prefere conhecer a vida e conhecer os homens. Essas duas coisas são associadas com tamanha naturalidade que a inferência a um ideal universalista heterossexual é bastante clara. Mais óbvia ainda é a associação feita no final: "...um estudo pormenorizado e sincero que muito ajudará ao homem e à mulher na busca da felicidade comum e do comum destino". Essas associações são feitas também com extrema naturalidade, como se 'a felicidade' e 'o destino' incluíssem necessariamente a relação homem mulher tal como é sugerida. Felicidade e destino comuns. Além disso, uma oposição simples como essa não só apaga as desigualdades na relação mútua entre homems e mulheres (dando uma aparência de simetria onde ela não existe), mas homogeneiza ambos os personagens, como já mencionei, apagando as suas contradições internas enquanto grupos separados (desigualdades entre os homens, como já falei).
     Como vemos, o editorial dessa revista dá o tom para o tratamento das questões do decorrer da mesma, nos servindo de auxílio para a formulação da análise. Mas, procurando mais a fundo, "nas entrelinhas", podemos perceber como a revista por vezes força a realidade a caber nessas categorias delineadas acima. Escolhi um artigo onde, pelo fato do exemplo ser bastante destoante da realidade proclamada ou idealizada pela revista, nos revela um pouco sobre como esta vê a realidade ou procura interpretá-la, organizá-la para caber em suas classificações. O artigo nos dá pistas também para lidar com algumas questões de masculinidade, por involver um casal.
     O artigo em questão trata do desquite de um casal aparentemente famoso na época: Denner, um estilista, e Maria Stela, uma modelo. Como já descrevi anteriormente, a revista trata do caso a partir da oposição estanque homem/mulher, e a apresentação dos conteúdos ao leitor se presta para reforçar isto. O artigo é uma entrevista com ambos dias antes de terem realmente desquitado. A revista sempre apresenta uma pergunta, repondida por ele e ela sucessivamente, ou faz igual número de perguntas a ele e ela, criando assim o diálogo da entrevista, editando-o dessa forma (porque dificilmente um diálogo na vida real transcorre nesses moldes) para que a oposição se reforce visualmente e no conteúdo. O casamento enquanto instituição universal também é reforçado na maneira como a revista comenta o caso, assim como nas próprias perguntas formuladas. A imagem que o leitor provavelmente deve ter (em função dos elementos apresentados) é de um casal simétrico, feliz, "típico" em todos os aspectos. Esta tipicidade remonta a uma suposta universalidade da relação a dois descrita, assim como da suposta felicidade mútua do casal e realização dentro do casamento. "Destino e felicidade comuns".
     Mas salta aos olhos a imagem de Denner: estilista, um pouco efeminado, "chique", decadente. A sua mulher é uma jovem modelo, aparentando mais uma menina do que uma mulher, a mulher, que realizou-se no casamento. Ambos escapam um
pouco do modelo homogêneo de homem e mulher, especialmente Denner, tanto no seu visual como nas suas respostas à revista:

     Denner - Não. Antes de me casar eu já era uma espécie de 'dona-de-casa'. Não precisava de uma espôsa para isso. Aliás não considero Stela uma boa dona-de-casa. Eu é que sou o verdadeiro dono e dona de casa. E tenho muito gôsto nisso. Gosto de tudo arrumado, confortável, bonito. Sou um maníaco pela minha casa. (Êle Ela, junho 1969).

     Denner claramente não se encaixa no modelo de homem evocado pela revista no decorrer de seus artigos. De forma resumida, o homem retratado pela revista, ou que pode ser inferido dela, trabalha fora, não se preocupa com a casa, mantém uma espécie de relação não emocional com a mulher, mantendo-se no seu domínio que é separado do dela, e não interferindo nele. Esse modelo se choca com os ideais proclamados pela revista, que não se confundem com uma análise a posteriori dos ideais de gênero que podem ser identificados a partir dos pressupostos presentes nas revistas. Os modelos analíticos, como já mencionei, não devem se confundir com os modelos verbalizados nos textos. Uma coisa é o que a revista se pretende a mostrar, outra é o que ela realmente tem enquanto pressupostos, na medida em que podemos analisá-los.
     Denner se apresenta como decididamente invadindo o território 'feminino' de sua esposa, proclamando-se enquanto melhor dono/dona-de-casa do que ela própria. Também o invade quando verbaliza seus gostos: arrumado, confortável, bonito. São valores tidos como 'femininos', que fazem parte da experiência da mulher (de acordo com os pressupostos da revista, e da sociedade que a produziu). Poucos homens se sentiriam confortáveis na revista dizendo que são maníacos pela casa. Há uma óbvia ambigüidade de valores pensando este personagem, que se revela mais adiante na entrevista também:

 Êle Ela - O que acha da Tropicália?
 Denner - Um existencialismo fantasiado. Não gosto, eis tudo. Sou sofisticado, não por imposição de um estilo, mas por temperamento. Veja: antes mesmo de ser moda, eu já tinha esses cabelos e me vestia assim. Veja o Zé Ronaldo, por exemplo: é baixo, calvo, não poderia criar o mesmo tipo que eu. (Êle Ela, junho 1969).

     Vemos aqui um homem preocupado com estilo, com a moda, com a beleza estética da aparência. Isso pode ser visto como um exemplo do tipo de invasão de territórios de que já falamos.
     Um complicador na análise de exemplos como esse se cria na medida em que a revista constantemente, na busca de seu projeto "moderno" tanto para mulheres como para homens, veicula frequentemente artigos sobre a crescente preocupação de homens com moda e com a aparência, a evaporação de fronteiras entre os sexos (moda unissex), a liberação sexual e quebra de tabus. Se fôssemos tomar literalmente aquilo que a revista verbaliza enquanto seus pressupostos, a minha crítica a respeito da figura de Denner não faria sentido. Mas eu acredito, como já mencionei, que podemos analisar a revista construtivamente e criticar seu suposto "modernismo" a partir da distinção entre o universo de valores que a revista veicula ou verbaliza, e os seus pressupostos mais elementares, que estão por trás, na base de sua construção discursiva ou argumentativa. Por isso posso fazer a crítica da revista quando ela constrói uma oposição simétrica entre homem/mulher, verbaliza esses valores, mostrando que na sua construção básica ela reservou à mulher uma posição subalterna em relação à do homem; lhe reservou a esfera doméstica, a esfera dos sentimentos, da criação dos filhos. Argumentarei também que, apesar da revista verbalizar um ideal de homem que aparenta ser liberal, preocupado com a aparência, femininizado, na verdade ela pressupõe um homem desligado de seus sentimentos, que vive numa esfera "pública", do trabalho, fora de casa. Por isso penso poder dizer que, apesar de a revista pretender um homem liberado a partir de uma "modernidade" (portanto passível de acolher personagens como Denner), se mostra difícil aceitar ideais masculinos como Denner levando-se em conta os pressupostos da revista sobre o que seja o homem.
     Podemos dizer que, para se construir uma análise desses pressupostos de masculinidade presentes nas revistas masculinas, devemos ou somos obrigados a fazê-lo confrontando essas duas esferas: aquilo que é verbalizado e aquilo que não o é, mas é inferível a partir da análise (os pressupostos). É dessa forma que utilizo os conceitos de formação discursiva, de não-dito, de opacidade e historicidade da língua presentes em Orlandi (1992), na sua concepção de análise do discurso. É a partir desse raciocínio que minha análise se pretende uma análise do discurso das revistas.
     Um exemplo de um discurso machista a respeito do homem, demonstrando pressupostos que entram em conflito com a tão discutida "modernidade", pode ser encontrado no artigo "Por que os homens traem", que pretende ser um comentário científico, apoiado em psicólogos e sociólogos estrangeiros (portanto 'moderno', isento de tabus ou preconceitos) sobre a infidelidade do homem. Bem, como ocorre muito na revista, a mulher entra na discussão de uma forma ou de outra. Dessa vez, a mulher (esposa) se torna quase que a culpada da traição o marido, por não cumprir suas funções matrimoniais.
     A insistência no casamento enquanto central na vida das pessoas é marcante, e a revista se debate diversas vezes sobre o assunto. Muitas vezes é para dizer que o casamento está em vias de extinção, por ser "limitador da experiência humana", repetindo um discurso de 'revolução sexual' e dos costumes comum na época. Mas em outros artigos que não debatem o possível fim do casamento, este é tido como fundamental na vida a dois, como o destino que une o homem à mulher na sua felicidade comum. Dentro do casamento, a divisão dos papéis é bem clara entre os sexos, entrando diretamente em contradição com o discurso "moderno".
     No artigo sobre a traição masculina, diversas razões psicológicas são expostas para explicar (quase que para justificar) o comportamento altamente desigual do homem (que trai mais do que a mulher, por razões aqui científicas). A mulher é vista como possível cúmplice dessa traição, pois, segundo o artigo, muitas vezes ela ocorre por responsabilidade dela, a mulher que não cumpre o seu papel de mulher. A mulher é culpada da própria submissão no casamento. Num depoimento exposto, o marido trai a mulher porque esta é demasiadamente "resmungona", está sempre indisposta, etc. Sua amante, no entanto, é muito mais jovial. O tom do artigo é de que o marido não quer, mas foi forçado a trair a mulher ela ser inconveniente.
 Um psiquiatra alemão, Dr. L. Meyer, explica no artigo:

     Todo homem compreende que a espôsa, depois do nascimento dos filhos, dedique-se em primeiro lugar à sua tarefa de mãe. Mas algumas mulheres exageram nessa dedicação [...]. Além de colocarem o marido numa posição permanentemente secundária, tornam-se obsessivas em relação aos filhos. Nenhum homem suporta tal situação por muito tempo. A mulher, preocupada exclusivamente com os seus deveres de mãe e de dona-de-casa, pouco a pouco torna-se uma estranha aos olhos do marido [...]. No fundo, a mulher está dando ao marido a matéria prima para o adultério, pois é evidente que neste processo uma coisa ficou evidente: ela não cuida mais de sua aparência física. (Êle Ela, agosto 1969).

     Ou seja, a mulher tem o dever de cuidar dos filhos, cuidar da casa e estar sempre atraente, à disposição do marido, quando este quiser. No fundo, ela esta numa constante luta pelo seu marido, que a qualquer momento, por culpa dela mesma, poderá sair com outras mulheres mais interessantes. A revista, um pouco adiante no mesmo artigo, enfatiza a importância da aparência física da mulher no relacionamento: "E êste é, na verdade, um sinal revelador de muitos dramas conjugais: o marido geralmente chega a implorar que a mulher se cuide um pouco mais, a fim de novamente amá-la."
     A mulher é uma figura, um objeto mesmo, totalmente estetizado no discurso global da revista. Tanto em artigos como este (onde é uma obrigação conjugal da mulher se cuidar), como em fotos, onde as mulheres desfilam pelas páginas nuas, seminuas ou em roupas provocantes, "a última moda", descaracterizadas, sem personalidade, descontextualizadas. O homem quase não aparece em fotos, e quase nunca da mesma forma que as mulheres. Ele paira sobre a revista, quase como abstrato, como um universal, negando a crescente estetização do homem alardeada pela própria revista. Não quero aqui simplificar a posição da revista: há sim uma presença de fotos de homens, de uma certa estetização do masculino, mas numa proporção ínfima se comparada à mulher, e recorrendo, nessa estetização, à polarização homem/mulher, universos distintos. O discurso é, sem dúvida, paradoxal, revelando a convivência de diversos discursos ou pressupostos num mesmo argumento.
     Uma propaganda de perfume que encontrei na revista ilustra um pouco isto de que estou falando:

 Agreste!
 O perfume másculo de Alert, limão
 Selvagem, indomável e violentamente masculino.
 O perfume másculo de Alert limão,
 o perfume para homens de verdade.
 Creme de barbear, loção após barba, desodorante e colônia Alert limão. (Êle Ela, agosto 1969)

     Apesar de ser publicidade para perfumes, colônias e produtos cosméticos, geralmente associados à aparência (universo feminino), o enfoque busca legitimar a "virilidade" do produto associando-o a valores tipicamente 'masculinos': selvagem, indomável, violência. "O perfume para homens de verdade", ou seja, aqueles que se identificam com esses adjetivos. Aqui vemos clara a existência de uma hierarquia entre as masculinidades, as mais 'viris' sendo mais valorizadas que as outras.
     Outro exemplo deste tipo de paradoxalidade, que revela diversos discursos convivendo num mesmo argumento (o argumento da revista, verbalizado por ela) é a foto de um homem nu ou seminu com um bebê no colo, tema clássico da propaganda até hoje, presente em diversos anúncios fotográficos e na televisão. Na foto, a fragilidade da criança é contrastada com o poder, a solidez, a segurança do homem. Ao mesmo tempo em que se constitui num movimento de mudança (não exatamente questionamento) em relação à postura machista, pois mostra o homem, seu corpo, estetizado, nu (quase um tabu na mídia em geral); e um homem dócil, carinhoso, até frágil. Mas a foto pressupõe outras coisas. A estetização da imagem do homem se dá ressaltando a sua "virilidade", principalmente ao mostrar o corpo masculino com os músculos trabalhados, acentuados (como é mais comum quando a oposição homem/bebê é mostrada). E muito do efeito estético da foto, decorre da sua alusão ao homem como fonte do poder, como força bruta, com hiatos momentâneos de fragilidade.
     Espero ter sucedido, através da minha discussão teórica no início do artigo e dos exemplos de aplicação práticos que dei depois, em delinear algumas perspectivas de uma abordagem de gênero no estudo crítico das masculinidades em revistas. O presente estudo será inevitavelmente incompleto, mas ao meu ver sugere que tais estudos são importantes e podem nos mostrar direções inusitadas no estudo crítico da sociedade.
 
 
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 

- ALVAREZ, Sonia. "Politizando as relações de gênero e engendrando a democracia". in  Democratizando o Brasil. Alfred Stepan (org.). Tradução de Ana Luísa Pinheiro.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

- Êle Ela: uma revista para ler a dois. Ano I, número 2, junho de 1969.

- Idem, Ano I, número 4, agosto de 1969.

- FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria  Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro:  Graal, 1993.

- _________________. Microfísica do poder. Tradução e organização de Roberto  Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

- FRY, Peter. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro:  Zahar, 1982.

- MACRAE, Edward. A Construção da Igualdade: Identidade Sexual e Política no Brasil da Abertura. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.

- MORGAN, David. Discovering Men. New York, London: Routledge, 1992.

- MORT, Frank. "Crisis Points: Masculinities in History and Social Theory". in Gender and History, vol. 6 (1), April 1994, pp.124-130.

- ORLANDI, Eni Puccinelli. As Formas do Silêncio: no movimento dos sentidos.  Campinas: Ed. da UNICAMP, 1992.

- SCOTT, Joan. Gender and the Politics of History. New York: Columbia University  Press,  1988.

- SKIDMORE, Thomas. Brasil: De Castelo a Tancredo. Tradução de Mário Salviano  Silva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

-VEYNE, Paul. "Foucault Revoluciona a História".in Como se Escreve a História.  Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília: Editora da UNB,  1982.

- WEBER, Max."A 'Objetividade' do Conhecimento na Ciência Social e na Ciência  Política" [1904]. In Metodologia das Ciências Sociais, parte 1. Tradução de  Augustin Wernet. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da UNICAMP,  1993.
 
 

(1) Não podemos perder de vista que tais fenônemos foram exclusivos de grupos determinados, no caso do Brasil as classes médias urbanas (FRY, 1982). No entanto o mapeamento desses processos é importante pela sua abrangência a nível político (no que diz respeito à reorganização da vida política brasileira a partir dos anos 80) e a nível ideológico, representando os grupos politicamente e socialmente dominantes, influindo de maneira decisiva nas mentalidades de outras classes (processo esse do qual eu não tratarei no presente trabalho). [volta ao texto].


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