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A Perspectiva do Gênero nos Estudos de Masculinidade: uma análise da revista Êle Ela em 1969
Autor: Marko Monteiro (markosy@uol.com.br)
(Campinas, 1997)
O presente trabalho visa, através de uma análise de alguns artigos
retirados dos primeiros números da revista Êle Ela: uma revista
para ler a dois, do ano de 1969, delinear uma abordagem analítica.
Busco, através da utilização de metodologias de gênero
formuladas no âmbito das teorias feministas, estudar criticamente a
masculinidade enquanto aspecto que perpassa os textos e a abordagem da revista,
relacionando este saber sobre a masculinidade com práticas de poder
(institucionais ou não) na sociedade mais abrangente da época.
Tal abordagem se baseia nas formulações de Foucault sobre o
poder (relacionado com a produção social da verdade), e nas
teorias feministas que, utilizando teorias pós-estruturalistas (como
a de Foucault), formulam o conceito de gênero como categoria analítica.
Conceito este que reafirma a historicidade de relações de gênero,
a sua importância enquanto pressuposto estruturador da experiência
e das relações, criticando posições essencialistas
e relacionando o modo como se dá a percepção dos papéis
de gênero com a dominação e o poder.
Este artigo
faz parte de um projeto maior, que pretende analisar revistas masculinas
brasileiras das décadas de 70 e 80 afim de mapear como foram formuladas
as percepções da masculinidade neste período, em relação
é claro com acotecimentos sócio-culturais da época.
A revista Ele Ela, atualmente uma revista masculina de grande circulação,
surgiu em 1969 com o subtítulo "uma revista para ler a dois". Naquela
época destinava-se a casais, ou a leitores de ambos os sexos, contendo
informações escolhidas especificamente para cada grupo. Somente
a partir de 1976, com a mudança da revista que passa a ter o subtítulo
prazer e informação para o homem, é que a revista se
direciona completamente para um público majoritariamente masculino.
Neste trabalho,
analisando apenas alguns artigos dos primeiros números da revista,
ainda de 1969, pretendo como já falei esclarecer qual é a abordagem
pretendida nesse tipo de análise, quais são os pressupostos
teóricos envolvidos e como se aplica esta toria para a análise
de exemplos concretos. Num trabalho posterior, pretendo aplicar a mesma metodologia
construída aqui para o estudo histórico mais amplo, possivelmente
incluindo outras revistas como Playboy, Fiesta, Status,
etc..
Escolhi analisar
revistas masculinas, por elas serem locais privilegiados de produção
e circulação de saberes e significados acerca do homem, portanto
sendo objeto interessantíssimo para um estudo crítico da masculinidade.
O recorte temporal mais amplo se justifica, ao meu ver, no que tange ao significado
deste período. A literatura consultada aponta para a erupção,
a partir da década de 70, de diversos movimentos sociais urbanos (SKIDMORE,
1988; MACRAE, 1990) que, inseridos num contexto de redemocratização
e distensão política (SKIDMORE, op. cit.), representaram um
sério questionamento acerca das identidades e da sexualidade (MACRAE,
op. cit.; ALVAREZ, 1988), promovendo uma intensa produção e
revisão dos discursos acerca das identidades dos sujeitos, em diversos
níveis.
Pode-se dizer
que o vetor principal de liderança e orientação dessa
revisão dos discursos e das práticas foi o fortalecido movimento
feminista. Nesse período o questionamento acerca das práticas
e discursos sobre a sexualidade não se dissocia do movimento pela
redemocratização, o que aponta também para uma visível
mudança de tática e de prática por parte dos grupos organizados
urbanos. Ao movimento feminista se aliaram também o homossexual e
o negro (onde estavam melhor organizados), todos no mesmo contexto de renovação
de práticas e discursos.
Tanto o movimento
feminista quanto o homossexual questionaram seriamente o papel do homem e
as hierarquias entre os diferentes grupos. Tanto o feminismo quanto o movimento
homossexual vão questionar o patriarcado, a superioridade do homem
sobre outros grupos, a obrigatoriedade do heterossexualismo e o modo como
o homem relacionava-se consigo, com outros homens e com as mulheres. Todo
esse questionamento teve influência a nível cultural e das práticas
discursivas, o que vemos aparecer nas revistas masculinas. O homem, categoria
naturalizada por séculos, se viu questionado em sua posição
de maneira jamais antes vista, tanto no Brasil como em outros países.
Durante o período analisado, que significou o auge desses movimentos,
vemos nos documentos um movimento de redefinição do homem enquanto
sujeito, em vista da necessidade de se confrontar com o surgimento de novos
discursos e novos sujeitos que estavam se constituindo.(1) *
* *
Creio que posso construir a minha argumentação teórica
em cima do binômio saber-poder. Não pretendo com isso uma dicotomia
simples, ou uma relação (afirmada no senso comum) do tipo saber
é poder, etc.. Quero aqui seguir na linha argumentativa de Michel
Foucault, dentro de uma perspectiva de análise de discurso. A partir
de Foucault, principalmente nas obras Microfísica do Poder
e História da Sexualidade I, pretendo contruir a relação
entre saber/poder como um dos pressupostos básicos, que fundamentará
as teorias de gênero que usarei e exporei mais adiante.
Na sua Microfísica,
Foucault evoca a interseção saber /poder de inúmeras
formas. Num dos artigos, ele afirma que a verdade pode ser vista como social
e histórica: "A verdade é deste mundo; ela é produzida
nele graças a múltiplas coerções e nele produz
efeitos regulamentados de poder." (FOUCAULT, 1979:12).
O autor fala
de uma política ou regime da verdade, que cada sociedade possui para
regulamentar discursos tachados de falsos ou verdadeiros, sancionando assim
alguns e produzindo efeitos de poder relacionados ao discurso 'verdadeiro'.
Para ele, a verdade (ou o saber) é "o conjunto de regras segundo as
quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos
específicos de poder.". Em se tratando da masculinidade, aquela que
é mais 'verdadeira' que as outras é mais legítima possuindo
dessa forma um mecanismo de poder sobre outras.
Para Foucault,
seu método genealógico de analisar a historicidade dos discursos
e seus efeitos de poder parte do pressuposto de que interpretar não
é uma atividade metafísica de descobrir algo oculto na origem.
Interpretação é, como ele descreve, apoderar-se por
violência de um sistema de regras (ou uma tecnologia de produção
de verdade, ou de um foco de saber/poder), que em si não possuem significado
essencial, e direcioná-lo, dobrá-lo a um novo sentido, impor
uma nova interpretação. Este processo descreve o movimento
das lutas em torno da produção da verdade e do poder, e a genealogia
busca investigar mudanças que não se restringem ao plano do
sentido e da comunicação, mas integram sistemas e normas de
produção de saberes que sancionam, validam, produzem e participam
de esquemas de poder.
Minha pesquisa
é genealógica neste sentido, quando busca mapear os movimentos
de sentido que ocorrem a respeito da masculinidade. Esses sentidos integram
esquemas sociais de poder que podemos vagamente classificar de machistas
ou patriarcais, dando sentido à dominação de um sexo
sobre o outro; ou de uma masculinidade sobre outras masculinidades e feminilidades.
Tais raciocínios fundamentam as teorias feministas de gênero
mais atuais, como a proposta pós-estruturalista de Joan Scott com
a qual trabalharei e as propostas de David Morgan sobre o estudo de masculinidades
que discutirei mais adiante.
Não podemos nos contentar em dizer
que o poder tem necessidade de tal ou tal descoberta, desta ou daquela forma
de saber [como sugere o conceito
de ideologia ou de aparência no pensamento marxista], mas que exercer o poder cria objetos de
saber, os faz emergir, acumula informações e as utiliza. Não
se pode compreender nada sobre o saber econômico se não se sabe
como se exercia, quotidianamente, o poder, e o poder econômico. O exercício
do poder cria perpétuamente saber e, inversamente, o saber acarreta
efeitos de poder. (FOUCAULT, 1979:142).
A hegemonia de algumas masculinidades sobre outras se dá nesse sentido:
ela é exercida quotidianamente (práticas sociais), produzindo
saberes sobre o homem que se reforçam e se constróem nas relações
formadas entre homens e entre homens e mulheres no seu quotidiano e através
da história. Esses saberes são produtores de efeitos de poder,
reforçam e integram as práticas de dominação
e submissão, e no seu movimento também alteram e subvertem
essa dominação.
Essa mesma relação
pode ser vista, na História da Sexualidade I, a partir de quatro
"prescrições de prudência" que Foucault enumera ao analista
dessa mesma história:
1) regra da imanência: a produção de saberes se relaciona
com relações de poder; focos de saber-poder.
Ou seja, o poder se relaciona com
as práticas que o exercem, é assim "a multiplicidade de correlações
de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas
de sua organização" (op. cit., pg. 88). O poder não
surge então de um locus específico, está presente em
todas as partes e especialmente na relação entre um ponto e
outro (relações e práticas sociais).
2) regra das
variações contínuas: as relações de poder
não são estáticas, não há dualidade opressor/oprimido.
O poder não é detido
em locus nenhum, assim como pensar numa simples dominação global
de "oprimidos" já não faz sentido para entender processos complicados
de relações sociais; as correlações de força
são dinâmicas, interagem entre si, se reorganizam, se separam,
se contradizem, ou formam sistemas mais abrangentes.
3) regra do
duplo condicionamento: os focos locais de poder são condicionados
por estratégias globais (ou sistemas abrangentes de dominação)
e vice-versa, apoiando-se mutuamente um no outro.
A simples dualidade
opressor/oprimido desaba, assim como a noção de que o poder
que domina e oprime vem do exterior, do estado, etc. O poder existe e acontece
nas relações micro, no cotidiano, nas relações
face a face e nas pequenas organizações e práticas.
Dessa forma compreendemos melhor o porquê da força dos movimentos
sociais urbanos das décadas de 70 e 80, que abandonaram um discurso
estritamente marxista de questionamento do poder estatal e de valorização
de estratégias globais, para renovar o discurso e prática das
esquerdas, propondo a luta a nível do quotidiano, das relações
mais banalizadas entre as pessoas, a nível do local. Esses grupos
questionaram exatamente a presença do poder e da dominação
em todos os níveis, e queriam mudar a estrutura desses poderes; acabando
por contribuir para uma estratégia global de redemocratização
do país. Especialmente neste ponto vale relembrar a regra do duplo
condicionamento: movimentos sociais enquanto prática/ discurso e redemocratização
enquanto mudança de práticas e discursos globais são
indissociáveis.
4) regra da
polivalência: o discurso não reflete a realidade, o poder e
o saber se articulam no discurso. Não há discursos excluídos
e dominantes, mas sim uma multiplicidade de discursos, que se inserem em
estratégias diversas. O discurso veicula e produz poder.
É aqui onde a relação saber-poder aparece de forma mais
clara. Para compreender melhor essa parte, que é o foco da discussão,
podemos ver como essa relação se explicita na chamada análise
de discurso.
Essa abordagem
se baseia na não literalidade da língua, o que significa, como
disse Foucault, que o discurso não reflete a realidade. Eni Orlandi
(1992) trabalha essa questão nesses termos, opondo a essa suposta
literalidade e neutralidade da língua a materialidade histórica
desta. Ou seja, a linguagem não é um sistema neutro de símbolos
convencionais que transmite de forma clara e neutra um conteúdo determinado
(como a matemática), mas sim um sistema que organiza os significados
possíveis e não-possíveis, mapeando as possibilidades
do entendimento a partir de um contexto histórico específico,
articulando a compreensão da realidade por parte de sujeitos que não
são autônomos ou livres, mas se encaixam nesse sistema de significação
e são formados a partir das possibilidades de compreensão.
Ou seja, cada momento histórico possui o seu dizível e não
dizível, que são frutos de processos sociais e históricos
que buscam instituir e redefinir os espaços de significação.
A língua
é material, opaca, não transparente, histórica e não
eterna. A língua codifica significados que são frutos de relações
e embates sociais, ou seja, de práticas que são históricas;
é aqui que o poder e o saber se entrecruzam: essas cadeias de significado
são portanto fruto de e exprimem relações sociais de
poder.
Como pensa Paul
Veyne (1982) o discurso (ou o saber) é a objetivação
de práticas reais e concretas, ao mesmo tempo ordenando a percepção
dessas práticas. As práticas (o poder, relações
sociais) são "referentes pré-discursivos", que serão
objetivados e percebidos em discursos, ou saberes sobre essas práticas.
O referente não é natural, também é produzido
em decorrência das diversas objetivações que recebe. É
fruto do modo como nós o percebemos. Essa relação mostra
como poder e saber são interdependentes, se entrecortam e se moldam
mutuamente, numa relação que é simbiótica e dialética.
Por isso a abordagem
analítico-discursiva, baseada na escola francesa (Foucault e outros)
nos permite uma análise extremamente rica e reveladora de processos
e movimentos de sentidos (neste caso contidos em revistas masculinas) e do
movimento histórico das práticas.
No campo das
teorias feministas de gênero, que recentemente promoveram uma explosão
de discursos sobre a masculinidade (dos quais este artigo faz parte), toda
a discussão que construí anteriormente funda, como já
mencionei, diversos dos argumentos e das críticas formuladas. As teorias
feministas, que até recentemente discutiam a categoria "mulher" como
significativa ou não para a análise, levaram às teorias
pós-estruturalistas que questionam o sujeito e utilizam Foucault e
a análise de discurso para renovar o campo da teoria no feminismo.
Nesse contexto a historiadora N. Americana Joan Scott desponta como pensadora
de peso. Scott tenta formular o gênero enquanto categoria analítica
(1988), vendo como as identidades são construídas historicamente
através dos discursos e como diferentes sentidos são atribuídos
à diferença sexual. Scott pensa também, na mesma linha
de pensamento que desenvolvi anteriormente, como esses sentidos diferenciados
correspondem a práticas de poder históricas. O surgimento ou
formulação do gênero como categoria analítica
possibilitou não só uma renovação no campo da
história feminista como influenciou todo o estudo recente sobre a
masculinidade. Na verdade, o discurso atual sobre a masculinidade ou a "crise
da masculinidade" se deu a partir dessa mudança de enfoque teórico
(MORT, 1994).
Com as teorias
pós-estruturalistas estudiosos foram levados a perceber como diferentes
conceitos de masculinidade são construídos social e historicamente,
e como os sentidos atribuídos à masculinidade se relacionam
com práticas de poder específicas. Nesse contexto teórico
se insere a minha pesquisa, visando preencher (ao menos minimamente) essa
lacuna do conhecimento sobre a história no Brasil. Conhecendo e desconstruindo
discursos e práticas sobre o homem e a masculinidade no Brasil, podemos
conhecer como sistemas de poder são criados e cristalizados e, a partir
daí, formular questionamentos visando uma mudança de tais esquemas.
David Morgan,
sociólogo inglês que desenvolve um trabalho importante sobre
relações de gênero e masculinidades no campo da sociologia
(1992), faz uma série de propostas extremamente produtivas para o
desenvolvimento do meu trabalho, procurando também compreender como
as relações de gênero são desiguais entre homens
e entre homens e mulheres, e como saberes sobre essas relações,
que são historicamente constituídos, se integram com práticas
concretas de poder nas mais diversas esferas da vida, criando situações
de dominação e exclusão. Uma das colocações
mais interessantes, se relacionada à discussão sobre saber/poder
já feita, é de que a masculinidade deve ser vista não
como um atributo que homens possuem em maior ou menor quantidade, mas sim
como algo inserido em relações de poder e que ajuda a perpetuar
tais relações. Ou seja, o saber sobre a masculinidade não
reflete uma essência própria do homem, que determina práticas
também específicas; essas noções são parte
de um 'esquema de verdade' que é social e histórico, e que
penetra, estrutura e se relaciona com práticas quotidianas de poder
na sociedade.
Morgan antes
de tudo ressalta a importância dos estudos feministas enquanto pesquisa,
método e crítica, relembrando que este tipo de estudo crítico
de masculinidades, o qual eu tento fazer, só foi possível a
partir desses estudos. Ele também lembra que é problemática
a apropriação de métodos feministas para estudar a masculinidades,
pois os homens estão efetivamente em situação privilegiada
na sociedade. Esse contexto não impede, mas dificulta que esse sujeitos
façam estudos críticos sobre a sua própria situação
de poder, (ele mesmo é um sociólogo homem preocupado com a
questão) se constituindo em fator que não se pode ignorar.
Morgan vê,
assim como Foucault, o saber não como objeto mas como um processo,
ou fruto de um processo constante que involve conflitos políticos
em torno da legitimidade de saberes em competição. Disso decorre
o estabelecimento de hierarquias entre os saberes, que influenciam e se relacionam
com hierarquias nas relações sociais. Para a nossa discussão,
a partir desses pressupostos, importa lembrar que o saber é perpassado
por concepções de gênero, é assim gendered; o
saber crítico produzido sobre gênero pode ser visto também
como perpassado por noções de gênero, e visa criticar
hierarquias vigentes (é a apropriação de esquemas de
interpretação mediante a violência de que falava Foucault
anteriormente). Nesse sentido, ele levanta algumas questões extremamente
relevantes para o analista de masculinidades:
A) If knowledge
is in some measure limited by its gendered base, then to what extent and
in what ways is a critical understanding of men mand masculinitie possible?
B) This can be put in stronger
terms. Since we are dealing with a context of power inequalities, to what
extent is it possible or reasonable to expect men to develop these forms
of self-knowledge which will inevitably lead to the erosion of male power
and priviledge?
C) How far and in what ways
are sharings of gendered knowledge possible between men and women?
D) Is it possible now, or in
the future, to talk about genuinely gender-neutral knowledge? (MORGAN, 1992:37)
Essas questões remetem aos pressupostos filosóficos que validam
ou não a investigação científica. Apesar de ser
uma discussão extremamente longa e complexa, que não é
o objeto específico dessa pesquisa e para qual não estou preparado
para participar ativamente, creio que ela propõe desafios a mim enquanto
analista. Pois eu parto do pressuposto de que, enquanto homem, inserido numa
sociedade machista e patriarcal (brasileira e ocidental), posso estudar criticamente
a masculinidade até certo ponto, e também posso me apropriar,
de forma crítica, de saberes desenvolvidos por mulheres que questionam
a dominação do homem para a sociedade. Tanto que estes estruturam
toda a minha análise, assim como a análise de Morgan.
Longe de querer
resolver esta questão, creio que devo explicitar minha posição
recorrendo a Weber e sua discussão sobre a objetividade do conhecimento
(1993). Ou seja, no âmbito do método, e no que diz respeito
à construção da análise a partir de modelos ideal-típicos,
creio que há a possibilidade de um pensamento com um certo mínimo
de objetividade e que pode ser compartilhado tanto com feministas quanto
com outros analistas que discordem dos meus resultados. Me nego sim à
pretensão de revelar o verdadeiro funcionamento dos processos que
analiso, até porque não creio que tal coisa seja possível,
pensando tanto nas posições de Weber quanto de Foucault.
Segundo Morgan,
as feministas tiveram grande influência não só na elaboração
de teorias e na crítica de conceitos, mas ao penetrarem efetivamente
nas instituições de produção do saber (politica,
universidades, mercado de trabalho), ou que produzem saberes dominantes,
causaram rupturas no que diz respeito às práticas sociais de
produção desses saberes. Em outras palavras, o impacto do feminismo
não decorre somente de um corpus teórico questionador, mas
é influência de um movimento social e político que afetou
a maneira com a qual a realidade é vista, afetando assim a percepção
do homem sobre o seu papel nestas estruturas sociais. Assim este autor conceitua
o que se chama contemporâneamente de "crise de masculinidade". Morgan
ressalta que tal crise não é unívoca em seu funcionamento
ou conseqüências, e que faz parte de processos sociais mais amplos,
um dos principais sendo as sucessivas ondas de crítica feminista presentes
no ocidente desde o século XIX.
No que diz respeito
às revistas masculinas, ou a uma genealogia das masculinidades no
país, acho necessário prestarmos atenção a processos
macro-sociais, como nos lembra Morgan. No período em que estudo, podemos
destacar a redemocratização, aliada a um processo que denomino
"modernização", que é a conjugação de
processos amplos na esfera política, econômica, e cultural-social.
Como compreendo isto: a intensa urbanização e a industrialização
do país, a sua redemocratização mediante o surgimento
de novos movimentos sociais urbanos (provindos dessa nova estruturação
da sociedade) como o homossexual, o feminista e o negro, que promoveram também
uma crítica cultural e das relações sociais. Não
cabe neste projeto analisar com profundidade estes processos, que ocorrem
no decorrer das décadas de 70 e 80, mas de ver como eles são
mediados por relações de gênero, e como a reelaboração
das concepções de gênero passa por tais processos mais
amplos.
*
* *
Passarei agora à análise dos artigos eles mesmos, tentando esclarecer
como se faz a aplicação dos conceitos com os quais lidei até
agora, assim como trazer à tona alguns temas levantados pelas revistas.
Com isso quero dizer identificar algumas regularidades, onde elas existem,
para fins de comparação com o que pode ser econtrado no decorrer
da revista.
Creio que um
aspecto bem marcante da abordagem típica dos artigos da revista é
a oposição constante e a definição interrelacionada
entre homem e mulher. Um não existe sem o outro, um não se
define a não ser em oposição ao outro. Isso serve não
só de mote para todo o argumento que a revista apresenta no decorrer
de seus artigos e editoriais (ressaltando aqui que é perigoso inferir
uma unidade ou coerência nos argumentos apresentados, a não
ser para fins analíticos, a exemplo da construção de
um tipo-ideal weberiano), mas nos lembra um aspecto vital na construção
da análise. Qual seja, de que as categorias e formulações
que porventura são encontradas nos textos da revista se definem sempre
em relação ou em oposição a uma série
de outros conceitos, que são organizados também de maneira
hierárquica nos dizendo algo sobre as relações de poder
presentes na sociedade entre os sujeitos apresentados nas revistas. Nos textos
analisados, a oposição homem/mulher era a mais presente, ao
mesmo tempo nivelando todas as distinções entre eles (por exemplo,
definindo uma unidade argumentativa que põe a relação
heterossexual entre homens e mulheres como fim último da existência
emocional dos sujeitos, construindo uma relação estanque entre
ambos), e ignorando uma relação de desigualdade que porventura
exista entre esse sujeitos assim definidos em relação um com
o outro. Não obstante a insistência da revista em mencionar
uma repressão das mulheres, tal situação é freqüentemente
descrita como passada (em oposição a uma "mulher moderna" que
existe no presente da revista), e a relação de subordinação
nunca é lidada diretamente no seu funcionamento e nas suas conseqüências
mais concretas. Apesar disso tudo, proporei algumas leituras que mostram
que os temas de subordinação da mulher, o que implica numa
superioridade do homem, apesar de não serem lidados diretamente pela
revista estão presentes constantemente "nas entrelinhas".
Uma dificuldade
que encontrei, exatamente como conseqüência do tipo de abordagem
da revista, foi lidar com temas de masculinidade separados de temas de construção
da feminilidade. Não nos esqueçamos que a revista, durante
este período, não se definia como revista masculina, mas sim
como uma "revista para ler a dois", portanto lida constantemente com temas
ligados a homens e mulheres e sua relação. Toda a proposta
inicial da Êle Ela se funda nesses termos. No que diz respeito
à análise, também não podemos nos esquecer de
que noções de gênero se configuram em relação
e em oposição a outras (SCOTT, 1988), portanto uma comparação
entre noções de masculinidade e feminilidade se faz em certos
casos necessária, sendo sempre instigante. Mas não é
suficiente, se não quisermos sucumbir a uma reificação
das oposições construídas pelos textos eles mesmos entre
homem/mulher. Esta oposição é ela mesma uma construção,
que apaga uma míriade de outras relações e oposições
possíveis, especialmente uma relação homem/homem (afetiva
ou não), que se mostram também importantes na definição
de relações de gênero e de hierarquias também entre
os homens. Em outras palavras, devemos desconstruir uma oposição
binária homem/mulher estanque no momento da análise, prestando
atenção para a infinidade de outras relações
e oposições que se somam na construção das masculinidades.
A análise
precedente encontra muitos dos seus elementos no seguinte editorial de Justino
Martins:
Ao contrário dos
demais personagens shakesperianos, Ofélia não chega a ser um
símbolo, é apenas um mau exemplo: o do amor pelo 'doce príncipe'
problemático que não tinha tempo para amá-la. Compensando-a
em sua desventura, Shakespeare enfeitou-lhe a morte trágica com flores.
A mulher
moderna não pretende repetir o drama de Ofélia, e, por isso,
ao suicídio romântico prefere a vida, e, na vida, prefere conhecer-se
a si mesma e conhecer os homens. Tal fórmula evitará que ela
termine afogada em suas angústias e, com flôres ou sem flôres,
a mulher já está cansada das angústias que a marcaram
por tanto tempo.
Êle
Ela, neste seu segundo número, continua mostrando a face real dos
problemas mais íntimos do homem e da mulher modernos. Exemplos como
o de Ofélia, situações típicas e ilustrativas
dos mais diversos conflitos atuais encontram, nas páginas que se seguem,
um estudo pormenorizado e sincero que muito ajudará ao homem e à
mulher na busca da felicidade comum e do comum destino. (Êle Ela, junho 1969).
Vemos como o
texto recorre à literatura para evocar uma mulher a-histórica,
transcedental, para lidar com problemas que são bem reais e históricos.
Retirando o símbolo de seu contexto, tem-se a impressão de
que os problemas são de ordem moral, ética, apagando-se a processualidade.
Vemos a oposição entre Ofélia e a "mulher moderna",
que ao se recusar a reviver o drama suicida, aparenta estar alheia à
opressão e à subordinação. Como se a mulher moderna,
por razões não explicitadas, tivesse uma opção
de mudar completamente a sua vida subordinada, como se mudar sua vida fosse
uma questão de opção pessoal (pois Ofélia desgraçou-se
aparentemente por opção pessoal, amorosa).
Vemos também
a sugestão de uma relação obrigatória e inevitável
entre o homem e a mulher, personagens acabados, homogêneos, referindo-se
a uma universalidade tanto interna (só há um 'homem'), quanto
na relação entre ambos. A mulher moderna, por ser livre, prefere
conhecer a vida e conhecer os homens. Essas duas coisas são associadas
com tamanha naturalidade que a inferência a um ideal universalista
heterossexual é bastante clara. Mais óbvia ainda é a
associação feita no final: "...um estudo pormenorizado e sincero
que muito ajudará ao homem e à mulher na busca da felicidade
comum e do comum destino". Essas associações são feitas
também com extrema naturalidade, como se 'a felicidade' e 'o destino'
incluíssem necessariamente a relação homem mulher tal
como é sugerida. Felicidade e destino comuns. Além disso, uma
oposição simples como essa não só apaga as desigualdades
na relação mútua entre homems e mulheres (dando uma
aparência de simetria onde ela não existe), mas homogeneiza
ambos os personagens, como já mencionei, apagando as suas contradições
internas enquanto grupos separados (desigualdades entre os homens, como já
falei).
Como vemos,
o editorial dessa revista dá o tom para o tratamento das questões
do decorrer da mesma, nos servindo de auxílio para a formulação
da análise. Mas, procurando mais a fundo, "nas entrelinhas", podemos
perceber como a revista por vezes força a realidade a caber nessas
categorias delineadas acima. Escolhi um artigo onde, pelo fato do exemplo
ser bastante destoante da realidade proclamada ou idealizada pela revista,
nos revela um pouco sobre como esta vê a realidade ou procura interpretá-la,
organizá-la para caber em suas classificações. O artigo
nos dá pistas também para lidar com algumas questões
de masculinidade, por involver um casal.
O artigo em
questão trata do desquite de um casal aparentemente famoso na época:
Denner, um estilista, e Maria Stela, uma modelo. Como já descrevi
anteriormente, a revista trata do caso a partir da oposição
estanque homem/mulher, e a apresentação dos conteúdos
ao leitor se presta para reforçar isto. O artigo é uma entrevista
com ambos dias antes de terem realmente desquitado. A revista sempre apresenta
uma pergunta, repondida por ele e ela sucessivamente, ou faz igual número
de perguntas a ele e ela, criando assim o diálogo da entrevista, editando-o
dessa forma (porque dificilmente um diálogo na vida real transcorre
nesses moldes) para que a oposição se reforce visualmente e
no conteúdo. O casamento enquanto instituição universal
também é reforçado na maneira como a revista comenta
o caso, assim como nas próprias perguntas formuladas. A imagem que
o leitor provavelmente deve ter (em função dos elementos apresentados)
é de um casal simétrico, feliz, "típico" em todos os
aspectos. Esta tipicidade remonta a uma suposta universalidade da relação
a dois descrita, assim como da suposta felicidade mútua do casal e
realização dentro do casamento. "Destino e felicidade comuns".
Mas salta aos
olhos a imagem de Denner: estilista, um pouco efeminado, "chique", decadente.
A sua mulher é uma jovem modelo, aparentando mais uma menina do que
uma mulher, a mulher, que realizou-se no casamento. Ambos escapam um
pouco do modelo homogêneo de homem
e mulher, especialmente Denner, tanto no seu visual como nas suas respostas
à revista:
Denner - Não. Antes de me casar eu já era uma espécie de 'dona-de-casa'. Não precisava de uma espôsa para isso. Aliás não considero Stela uma boa dona-de-casa. Eu é que sou o verdadeiro dono e dona de casa. E tenho muito gôsto nisso. Gosto de tudo arrumado, confortável, bonito. Sou um maníaco pela minha casa. (Êle Ela, junho 1969).
Denner claramente não se encaixa no modelo de homem evocado pela revista
no decorrer de seus artigos. De forma resumida, o homem retratado pela revista,
ou que pode ser inferido dela, trabalha fora, não se preocupa com
a casa, mantém uma espécie de relação não
emocional com a mulher, mantendo-se no seu domínio que é separado
do dela, e não interferindo nele. Esse modelo se choca com os ideais
proclamados pela revista, que não se confundem com uma análise
a posteriori dos ideais de gênero que podem ser identificados a partir
dos pressupostos presentes nas revistas. Os modelos analíticos, como
já mencionei, não devem se confundir com os modelos verbalizados
nos textos. Uma coisa é o que a revista se pretende a mostrar, outra
é o que ela realmente tem enquanto pressupostos, na medida em que
podemos analisá-los.
Denner se apresenta
como decididamente invadindo o território 'feminino' de sua esposa,
proclamando-se enquanto melhor dono/dona-de-casa do que ela própria.
Também o invade quando verbaliza seus gostos: arrumado, confortável,
bonito. São valores tidos como 'femininos', que fazem parte da experiência
da mulher (de acordo com os pressupostos da revista, e da sociedade que a
produziu). Poucos homens se sentiriam confortáveis na revista dizendo
que são maníacos pela casa. Há uma óbvia ambigüidade
de valores pensando este personagem, que se revela mais adiante na entrevista
também:
Êle Ela - O que acha da Tropicália?
Denner - Um existencialismo
fantasiado. Não gosto, eis tudo. Sou sofisticado, não por imposição
de um estilo, mas por temperamento. Veja: antes mesmo de ser moda, eu já
tinha esses cabelos e me vestia assim. Veja o Zé Ronaldo, por exemplo:
é baixo, calvo, não poderia criar o mesmo tipo que eu. (Êle Ela, junho 1969).
Vemos aqui um homem preocupado com estilo, com a moda, com a beleza estética
da aparência. Isso pode ser visto como um exemplo do tipo de invasão
de territórios de que já falamos.
Um complicador
na análise de exemplos como esse se cria na medida em que a revista
constantemente, na busca de seu projeto "moderno" tanto para mulheres como
para homens, veicula frequentemente artigos sobre a crescente preocupação
de homens com moda e com a aparência, a evaporação de
fronteiras entre os sexos (moda unissex), a liberação sexual
e quebra de tabus. Se fôssemos tomar literalmente aquilo que a revista
verbaliza enquanto seus pressupostos, a minha crítica a respeito da
figura de Denner não faria sentido. Mas eu acredito, como já
mencionei, que podemos analisar a revista construtivamente e criticar seu
suposto "modernismo" a partir da distinção entre o universo
de valores que a revista veicula ou verbaliza, e os seus pressupostos mais
elementares, que estão por trás, na base de sua construção
discursiva ou argumentativa. Por isso posso fazer a crítica da revista
quando ela constrói uma oposição simétrica entre
homem/mulher, verbaliza esses valores, mostrando que na sua construção
básica ela reservou à mulher uma posição subalterna
em relação à do homem; lhe reservou a esfera doméstica,
a esfera dos sentimentos, da criação dos filhos. Argumentarei
também que, apesar da revista verbalizar um ideal de homem que aparenta
ser liberal, preocupado com a aparência, femininizado, na verdade ela
pressupõe um homem desligado de seus sentimentos, que vive numa esfera
"pública", do trabalho, fora de casa. Por isso penso poder dizer que,
apesar de a revista pretender um homem liberado a partir de uma "modernidade"
(portanto passível de acolher personagens como Denner), se mostra
difícil aceitar ideais masculinos como Denner levando-se em conta
os pressupostos da revista sobre o que seja o homem.
Podemos dizer
que, para se construir uma análise desses pressupostos de masculinidade
presentes nas revistas masculinas, devemos ou somos obrigados a fazê-lo
confrontando essas duas esferas: aquilo que é verbalizado e aquilo
que não o é, mas é inferível a partir da análise
(os pressupostos). É dessa forma que utilizo os conceitos de formação
discursiva, de não-dito, de opacidade e historicidade da língua
presentes em Orlandi (1992), na sua concepção de análise
do discurso. É a partir desse raciocínio que minha análise
se pretende uma análise do discurso das revistas.
Um exemplo de
um discurso machista a respeito do homem, demonstrando pressupostos que entram
em conflito com a tão discutida "modernidade", pode ser encontrado
no artigo "Por que os homens traem", que pretende ser um comentário
científico, apoiado em psicólogos e sociólogos estrangeiros
(portanto 'moderno', isento de tabus ou preconceitos) sobre a infidelidade
do homem. Bem, como ocorre muito na revista, a mulher entra na discussão
de uma forma ou de outra. Dessa vez, a mulher (esposa) se torna quase que
a culpada da traição o marido, por não cumprir suas
funções matrimoniais.
A insistência
no casamento enquanto central na vida das pessoas é marcante, e a
revista se debate diversas vezes sobre o assunto. Muitas vezes é para
dizer que o casamento está em vias de extinção, por
ser "limitador da experiência humana", repetindo um discurso de 'revolução
sexual' e dos costumes comum na época. Mas em outros artigos que não
debatem o possível fim do casamento, este é tido como fundamental
na vida a dois, como o destino que une o homem à mulher na sua felicidade
comum. Dentro do casamento, a divisão dos papéis é bem
clara entre os sexos, entrando diretamente em contradição com
o discurso "moderno".
No artigo sobre
a traição masculina, diversas razões psicológicas
são expostas para explicar (quase que para justificar) o comportamento
altamente desigual do homem (que trai mais do que a mulher, por razões
aqui científicas). A mulher é vista como possível cúmplice
dessa traição, pois, segundo o artigo, muitas vezes ela ocorre
por responsabilidade dela, a mulher que não cumpre o seu papel de
mulher. A mulher é culpada da própria submissão no casamento.
Num depoimento exposto, o marido trai a mulher porque esta é demasiadamente
"resmungona", está sempre indisposta, etc. Sua amante, no entanto,
é muito mais jovial. O tom do artigo é de que o marido não
quer, mas foi forçado a trair a mulher ela ser inconveniente.
Um psiquiatra alemão, Dr.
L. Meyer, explica no artigo:
Todo homem compreende que a espôsa, depois do nascimento dos filhos, dedique-se em primeiro lugar à sua tarefa de mãe. Mas algumas mulheres exageram nessa dedicação [...]. Além de colocarem o marido numa posição permanentemente secundária, tornam-se obsessivas em relação aos filhos. Nenhum homem suporta tal situação por muito tempo. A mulher, preocupada exclusivamente com os seus deveres de mãe e de dona-de-casa, pouco a pouco torna-se uma estranha aos olhos do marido [...]. No fundo, a mulher está dando ao marido a matéria prima para o adultério, pois é evidente que neste processo uma coisa ficou evidente: ela não cuida mais de sua aparência física. (Êle Ela, agosto 1969).
Ou seja, a mulher tem o dever de cuidar dos filhos, cuidar da casa e estar
sempre atraente, à disposição do marido, quando este
quiser. No fundo, ela esta numa constante luta pelo seu marido, que a qualquer
momento, por culpa dela mesma, poderá sair com outras mulheres mais
interessantes. A revista, um pouco adiante no mesmo artigo, enfatiza a importância
da aparência física da mulher no relacionamento: "E êste
é, na verdade, um sinal revelador de muitos dramas conjugais: o marido
geralmente chega a implorar que a mulher se cuide um pouco mais, a fim de
novamente amá-la."
A mulher é
uma figura, um objeto mesmo, totalmente estetizado no discurso global da
revista. Tanto em artigos como este (onde é uma obrigação
conjugal da mulher se cuidar), como em fotos, onde as mulheres desfilam pelas
páginas nuas, seminuas ou em roupas provocantes, "a última
moda", descaracterizadas, sem personalidade, descontextualizadas. O homem
quase não aparece em fotos, e quase nunca da mesma forma que as mulheres.
Ele paira sobre a revista, quase como abstrato, como um universal, negando
a crescente estetização do homem alardeada pela própria
revista. Não quero aqui simplificar a posição da revista:
há sim uma presença de fotos de homens, de uma certa estetização
do masculino, mas numa proporção ínfima se comparada
à mulher, e recorrendo, nessa estetização, à
polarização homem/mulher, universos distintos. O discurso é,
sem dúvida, paradoxal, revelando a convivência de diversos discursos
ou pressupostos num mesmo argumento.
Uma propaganda
de perfume que encontrei na revista ilustra um pouco isto de que estou falando:
Agreste!
O perfume másculo de Alert,
limão
Selvagem, indomável e
violentamente masculino.
O perfume másculo de Alert
limão,
o perfume para homens de verdade.
Creme de barbear, loção
após barba, desodorante e colônia Alert limão. (Êle Ela, agosto 1969)
Apesar de ser publicidade para perfumes, colônias e produtos cosméticos,
geralmente associados à aparência (universo feminino), o enfoque
busca legitimar a "virilidade" do produto associando-o a valores tipicamente
'masculinos': selvagem, indomável, violência. "O perfume para
homens de verdade", ou seja, aqueles que se identificam com esses adjetivos.
Aqui vemos clara a existência de uma hierarquia entre as masculinidades,
as mais 'viris' sendo mais valorizadas que as outras.
Outro exemplo
deste tipo de paradoxalidade, que revela diversos discursos convivendo num
mesmo argumento (o argumento da revista, verbalizado por ela) é a
foto de um homem nu ou seminu com um bebê no colo, tema clássico
da propaganda até hoje, presente em diversos anúncios fotográficos
e na televisão. Na foto, a fragilidade da criança é
contrastada com o poder, a solidez, a segurança do homem. Ao mesmo
tempo em que se constitui num movimento de mudança (não exatamente
questionamento) em relação à postura machista, pois
mostra o homem, seu corpo, estetizado, nu (quase um tabu na mídia
em geral); e um homem dócil, carinhoso, até frágil.
Mas a foto pressupõe outras coisas. A estetização da
imagem do homem se dá ressaltando a sua "virilidade", principalmente
ao mostrar o corpo masculino com os músculos trabalhados, acentuados
(como é mais comum quando a oposição homem/bebê
é mostrada). E muito do efeito estético da foto, decorre da
sua alusão ao homem como fonte do poder, como força bruta,
com hiatos momentâneos de fragilidade.
Espero ter sucedido,
através da minha discussão teórica no início
do artigo e dos exemplos de aplicação práticos que dei
depois, em delinear algumas perspectivas de uma abordagem de gênero
no estudo crítico das masculinidades em revistas. O presente estudo
será inevitavelmente incompleto, mas ao meu ver sugere que tais estudos
são importantes e podem nos mostrar direções inusitadas
no estudo crítico da sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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- Êle Ela: uma revista para ler a dois. Ano I, número 2, junho de 1969.
- Idem, Ano I, número 4, agosto de 1969.
- FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
- _________________. Microfísica do poder. Tradução e organização de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
- FRY, Peter. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
- MACRAE, Edward. A Construção da Igualdade: Identidade Sexual e Política no Brasil da Abertura. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.
- MORGAN, David. Discovering Men. New York, London: Routledge, 1992.
- MORT, Frank. "Crisis Points: Masculinities in History and Social Theory". in Gender and History, vol. 6 (1), April 1994, pp.124-130.
- ORLANDI, Eni Puccinelli. As Formas do Silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1992.
- SCOTT, Joan. Gender and the Politics of History. New York: Columbia University Press, 1988.
- SKIDMORE, Thomas. Brasil: De Castelo a Tancredo. Tradução de Mário Salviano Silva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
-VEYNE, Paul. "Foucault Revoluciona a História".in Como se Escreve a História. Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp. Brasília: Editora da UNB, 1982.
- WEBER, Max."A 'Objetividade'
do Conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política"
[1904]. In Metodologia das Ciências Sociais, parte 1. Tradução
de Augustin Wernet. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da
UNICAMP, 1993.
(1) Não podemos perder de vista que tais fenônemos foram exclusivos de grupos determinados, no caso do Brasil as classes médias urbanas (FRY, 1982). No entanto o mapeamento desses processos é importante pela sua abrangência a nível político (no que diz respeito à reorganização da vida política brasileira a partir dos anos 80) e a nível ideológico, representando os grupos politicamente e socialmente dominantes, influindo de maneira decisiva nas mentalidades de outras classes (processo esse do qual eu não tratarei no presente trabalho). [volta ao texto].
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