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Que homem é esse? O masculino em questão.
Autor: Carlos Alberto Messeder Pereira (camp@cfch.ufrj.br)[1]
(originalmente publicado como em
Sócrates Nolasco (org.) A Desconstrução do Masculino.
Rio de Janeiro: Rocco, 1995, pg. 53 a 58. Reproduzido com autorização
do autor)
Cena I
Já passado algum tempo mas, certamente, ainda na memória de todos. TV Globo, horário nobre, novela das 20:00 - no ar, "De Corpo e Alma" [2]. Na tela, o stripper Gino (Guilherme Leme), exibindo seu corpo bem torneado, rebolando, sensual, se oferece às mulheres por dinheiro, no melhor estilo do "homem-objeto". Num jogo de sedução diante de uma platéia feminina ávida por tocar aquele corpo, ele acaba também por seduzir os telespectadores pacatamente instalados em seus lares. Alguns machões desorientados diante dessa imagem "ambígua" (e sensual) dirão lá com seus botões: "Isso é coisa de viado!". No entanto, a acusação se revela inútil e o sucesso do personagem, da novela e do assunto em pauta é cada vez maior.
A crítica especializada,
por sua vez, também reage com alguma indignação: "É
triste. Beatriz não tem se queixado, mas é constrangedor acompanhar
o esforço de uma atriz de seu porte em cenas tão rastaqueras
quanto as do Clube de Mulheres. Sem moralismo, mas o personagem Stella não
existe. Uma mulher que se diverte com michês, que corre o risco do
submundo da prostituição masculina, não tem a compostura
que Beatriz mostra no vídeo".[3]
A própria atriz, em entrevista
à imprensa [4], revela-se bem menos preconceituosa, excitando
ainda mais a imaginação do público: "O clube de mulheres
é o lugar onde se pratica um certo erotismo, mas não há
nada de pornográfico nele. Está longe de ser imoral ou indecente,
tanto que é frequentado por avós, mães e filhas juntas.
É uma brincadeira, uma forma de colocar o homem como objeto, o que
acho profundamente saudável. É puro preconceito achar que a
mulher não precisa de sexo, que ela é feita para servir, e
não para ser servida. No clube de mulheres, pela primeira vez, a mulher
é servida (...) O que choca na Stella [personagem por ela interpretado]
é que ela admite ter necessidade de sexo e separa sexo de amor. Isso
está deixando o público excitadíssimo".
Cena II
Algum tempo atrás, durante
os anos 80. Em plena Galeria Alaska - um dos santuários gays de Copacabana,
antes dos tempos mais negros da AIDS frequentado, nos fins de noite, por
toda a "marginália cult" carioca - um show faz um enorme sucesso:
"Os Leopardos". No palco, homens exibem, mais uma vez, seus corpos (às
vezes excessivamente bem torneados) e sua virilidade. Tendo, de início,
atraído o público masculino tradicional da Galeria, marcadamente
gay, o show vai ampliando sua penetração junto ao público
em geral e termina por ganhar uma platéia onde a presença feminina
se destaca tanto pelo número quanto pelo entusiasmo da participação.
Mais uma vez, o "homem objeto"
fazia um enorme sucesso. Exibição de corpos, strip tease e,
"last but not the least", um final apoteótico: cada um dos "rapazes"
(como eram apresentados por Eloína - travesti responsável pela
coordenação do espetáculo e pela seleção
dos que se apresentavam) entrava em cena para uma última volta no
palco exibindo seu pênis em ereção! Associando o prazer
de se exibir à possibilidade de ascenção através
de novas oportunidades de trabalho ou de bons contatos, os "rapazes" seduziram
homens e mulheres durante um largo tempo, constituíndo-se numa referência
"cult" para uma nova erótica exibicionista, marcada de modo acentuado
por uma sensualidade bastante explícita e um tanto grotesca, que envolvia
o corpo masculino.
Cena III
Há alguns anos, ainda nos anos 80. Um dos resultados do movimento gay, especialmente do americano (e exportado com sucesso para outros países), foi o surgimento e a afirmação de um padrão, de um modelo masculino gay marcado pela ênfase em corpos bem definidos, demonstrando fôrça física (às vezes com um certo ar de "brutalidade" ou de "violência") - um "simulacro" contemporâneo dos "fortões" dos anos 50 - e, mais uma vez, lançando mão de um erotismo fortemente exibicionista. Um exibicionismo que, em certos casos, tomava o lugar da prática sexual efetiva. Evidentemente, o aparecimento da AIDS veio reforçar esta substituição eventual da prática sexual efetiva pela exibição. Afirmava-se uma espécie de "safe sex" radical e retórico. Embora esta erótica exibicionista não se confunda com (ou não se reduza ao) discurso no interior do qual se produziu a idéia de "safe sex", sendo-lhe anterior e mais geral, um elemento serviu de reforço ao outro. Entrava em cena um personagem que, calcado na ambiguidade, exacerbava características masculinas tradicionais e as inseria numa nova lógica[5]. Paralelamente, os Rambos e congêneres - encarnando talvez na mídia esta erótica gay - seduziam um público adolescente cada vez menos preocupado com a identidade ou com a orientação sexual de seus heróis.
Neste ponto, vale uma pergunta: que "masculino" é esse que se revela ou que se afirma em cada um desses tres casos? Apesar das eventuais diferenças entre cada uma das cenas, todas parecem convergir na direção de pelo menos duas características marcantes: de um lado, uma forte dose de exibicionismo; de outro, a presença da ambiguidade e da simulação. Se pensarmos com calma, veremos que estas eram, até recentemente, características do "feminino". Afinal de contas, era a "mulher" que, exibindo-se, seduzia o "homem"; era a "mulher" que fingia, que simulava até o gozo. Daí, aliás, o "perigo" representado pela "mulher", ou pelo "feminino" em geral. Em direta oposição, situava-se, também até muito recentemente e com razoável clareza, um "masculino" ou um "homem" marcado pela discrição e reserva, por uma ausência de ambiguidade que resultava numa definição categórica, uma espécie de "certeza fundamental" capaz de limitar e conter a ambiguidade do "feminino".
Se o ponto de partida (não muito distante) era tão claro, como chegamos a esta "confusão" contemporânea entre os sexos, ou melhor, entre os gêneros? Esta idéia de confusão, de mistura me parece fundamental. Aliás, ela já esteve, ao longo dos anos 30, presente no debate relativo ao que então se designava como "inversão sexual". A medicina legal da época, principalmente com base nos trabalhos e reflexões de Afrânio Peixoto, importante figura do campo médico daquele momento, desenvolveu a curiosa noção de missexualidade[6]. Qual o seu significado? Missexual era aquele indivíduo que misturava, em seu comportamento, características da ordem do masculino com características da ordem do feminino. E era exatamente este aspecto da mistura que tornava problemático este tipo de comportamento. A solução proposta, bem ao sabor daqueles "tempos modernos", era a obtenção de uma nova ordenação, o estabelecimento de uma nova ordem através da eliminação desta "confusão". De um lado, o masculino; de outro, o feminino. Ambos em estado puro e tendo como referência definitiva (e definidora) a anatomia.
Apesar das idas e vindas do pensamento psicanalítico e do esforço na construção de uma visão menos empirista, linear e simplificadora - sem que se esqueça, evidentemente, que estes médicos leram e citaram Freud - um certo senso comum bastante hegemônico parece ter se agarrado fortemente a este tipo de visão que privilegia uma demarcação clara e definitiva entre o masculino e o feminino. E mais: fixou-se também um certo senso comum para o qual a oposição entre hetero e homossexualismo (bem como a "veracidade" definitiva destas categorias) tem a mesma naturalidade daquela assumida entre masculino e feminino. Entretanto, toda a naturalidade e a simplicidade deste raciocínio bipolar e mais ou menos reificador parece estar se esgotando atualmente[7]. Ao mesmo tempo, a idéia de confusão, de mistura retoma agora a cena só que com um sinal positivo. Nosso presente "pós-moderno" valoriza a ambiguidade, a fragmentação, a indefinição, enfim, as "zonas cinzentas" do comportamento.
Na trajetória recente da história do "masculino", pelo menos de meados dos anos 60 para cá, dois dados parecem merecer algum destaque. Sem, evidentemente, querer estabelecer relações mecânicas e necessárias e também sem esquecer que as discussões atuais em torno da noção de masculino vão chamar a atenção para aspectos bastante específicos[8] - o que aponta para uma trajetória até certo ponto própria deste debate - gostaria de lembrar o papel desempenhado tanto pelo movimento feminista quanto pelo movimento gay.
Em primeiro lugar, havia, tanto num caso quanto no outro, uma interlocução mais ou menos explícita com o "masculino" -ainda que se deva levar em conta, é claro, que esta categoria pode apontar para os mais distintos significados e, assim, o "masculino" que se discute hoje pode ter pouco a ver com aquele de ontem. Em segundo lugar, ambos os movimentos tiveram um impacto bastante siginificativo sobre a noção mesma de identidade - seja no sentido de acentuar e esquentar a discussão em torno deste tema, seja no sentido de revelar seu caráter de construção simbólica, produzida no contexto de complexas determinações sociais e políticas, terminando por relativizar a "rigidez" de seus contornos e a "fôrça" de sua base.
Assim, a possibilidade da colocação em discussão da idéia de uma identidade masculina, de um comportamento masculino ou da própria categoria masculino se encontra hoje fortemente acentuada. O assunto é frequentemente abordado na imprensa, grupos de discussão começam a se formar e o espaço acadêmico dá mostras de interesse. Diante disso, como nos situarmos? Inventamos um "masculinismo" que vá fincar o pé no terreno aparentemente sólido da identidade em plena era das "identificações" sucessivas, do "para além da identidade"? Percorremos mais uma vez (talvez agora com ar de farsa!) os mesmos caminhos do movimento feminista ao longo dos últimos 20 anos? Ou, num gesto ousado (mas talvez consequente), apostamos na "confusão"/"simulação" contemporânea [9] e aí investimos política e teoricamente com o objetivo de ir fundo na tentativa da desconstrução do discurso naturalista e linear no qual se inserem as oposições masculino/feminino e tantas outras do gênero?[10] Esta última hipótese, ainda que arriscada, me parece mais tentadora.
NOTAS:
[1] Antropólogo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ onde coordena o Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação (NEPCOM). [volta].
[2] Novela levada ao ar pela Rede Globo, de agosto de 92 a março de 93, dirigida por Roberto Talma, Fábio Sabag e Ivan Zettel e escrita por Glória Perez. Além do interesse gerado pela trama que envolvia os strippers, o episódio do assassinato da atriz Daniela Perez (que teve como principal acusado o ator que contracenva com ela - a propósito, um ex-Leopardo), durante a gravação da novela, fez com que a novela ganhasse ampla divulgação na imprensa, além de desencadear um debate acalorado envolvendo sedução, violência e certos modelos de masculinidade. [volta].
[3] Arthur Santos Reis, "Personagem corrompe talento de atriz", Revista de TV, Jornal do Brasil, 26/9/92. [volta].
[4] Revista Veja, 23/9/92. [volta].
[5] Para uma discussão da identidade dos body-builders (independente do fato de se tratar de grupos gays ou não) ver o trabalho recentemente publicado nos EUA, com o título Little Big Men: bodybuilding, subculture & gender, de autoria do antropólogo Alan M. Klein. No jargão do dia-a-dia, os "fortões" começam a ganhar um nome curioso: Barbies (Ver reportagem publicada pelo jornal O Globo, 2/1/94, intitulada " 'Barbie', o novo nome da noite carioca", assinada por Hélio Hara). [volta]
[6] Ver o trabalho de Afrânio Peixoto intitulado "Los Misexuales", artigo de sua autoria publicado em Buenos Aires, em 1931, nos Archivos de Medicina Legal. Para uma discussão deste e de outros autores, bem como do contexto desta discussão da "inversão sexual" levada a efeito pela medicina legal no Brasil dos anos 30, ver meu trabalho intitulado "O Direito de curar: homossexualidade e medicina legal no Brasil dos anos 30", publicado no livro A invenção do Brasil moderno: Medicina, educação e engenharia nos anos 20/30 (Ed. Rocco, 1994), organizado por mim e por Micael Herschmann. [volta].
[7] Ver, a este respeito, o interessantíssimo trabalho de Eve Kosofsky Sedgwick, intitulado Epistemology of the Closet, Los Angeles, University of California Press, 1990. [volta].
[8] Neste sentido, ver o trabalho de Sócrates Nolasco, intitulado O Mito da Masculinidade (Rio de Janeiro: Rocco, 1993), bem como o livro Men & Intimacy, editado por Franklin Abbot (The Crossing Press/Freedom, CA/1990). [volta].
[9] Neste sentido vale a pena considerar o "travestismo" atual das "drag queens". Embora extremamente interessante do ponto de vista do modo contemporâneo de lidar com as questões da identidade, da simulação, ou mesmo das complicadas articulações entre masculino e feminino, o fenômeno, até o momento (pelo menos no Brasil), só foi tratado (e ainda de modo bastante superficial) pela imprensa, merecendo uma reflexão mais detida. Neste sentido, vale a pena ver o material publicado pela Folha de São Paulo, Caderno Mais, de 20/9/92 - sob o título geral: "Linhas Cruzadas" (Na mídia, na moda e no comportamento, masculino e feminino se cruzam sob o signo alegre das "drag queens"); ver também, no mesmo Caderno já referido, os artigos "O mundo é uma drag!!!", "Glamour de botinão", bem como "O travesti quer mais", de Arnaldo Jabor. No contexto desta discussão, é impossível esquecer também personagens como Michael Jackson ou Madonna, marcados por uma ambiguidade sexual agora consumida de modo massivo, ao contrário do que ocorria nos tempos áureos do rock ainda muito marcado pela rebeldia cult da contracultura (vide, por exemplo, personagens como Mick Jagger ou David Bowie, entre outros). No que se refere à Madonna, especialmente, ver o material publicado pela Folha de São Paulo, Caderno Mais, de 20/9/92, sob o título geral "A Vênus das ondas de rádio" (incluindo artigo de Camille Paglia sobre Madonna). Sobre Michael Jackson, além do farto material recente de imprensa, ver o livro Michael Jackson: body and soul, de Geoff Brown, NY, Beaufort Books, 1984. [volta].
[10] Ver, por exemplo, o artigo "How Many Sexes Are There?", publicado no The New York Times de 12/3/93, assinado por Anne Fausto-Sterling, uma geneticista e professora de ciência médica de Brown, autora de Myths of Gender: Biological Theories about Women and Men. Ver também o trabalho de Eve K. Sedgwick referido anteriormente. [volta].
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