Gênero e homossexualidade no romance

The Well of Loneliness, de Radclyffe Hall

Autora: Érica Renata de Souza (e_souza@uol.com.br)

Doutora em Ciências Sociais e Mestre em Antropologia Social pela UNICAMP

HALL, Radclyffe. The well of loneliness. N.Y.: Permabooks, 1951, 467p. [Original de 1928]

 

Trabalho apresentado no III Encontro de Pesquisadores Universitários "Cultura e Homoerotismo" - Os Estudos Gays e Lésbicos: os movimentos sociais, as políticas públicas e a universidade, realizado na UFF, Niterói (RJ), de 11 a 13 de junho de 2001, na mesa-redonda O cânone literário e o homoerotismo.


Numa época em que as convenções inglesas eram bastante rígidas, The well of loneliness foi publicado, em 1928, e logo após confiscado pelas autoridades inglesas devido ao seu teor "sáfico"; no que se refere à própria autora, provavelmente devido "às suas inclinações", nas palavras de Virginia Woolf, a qual chegou a testemunhar no tribunal a favor de Hall. Leonard Woolf, marido de Virginia, foi um dos primeiros intelectuais a elaborar uma petição em defesa da escritora diante da proibição do livro (Woolf, 1994; Bell, 1979).

Este trabalho tem por objetivo analisar o romance a partir de uma leitura antropológica com ênfase na questão do gênero. Pode-se perguntar o motivo da escolha de uma ficção para análise antropológica, e a resposta imediatamente pode ser dada pelos estudos pós-modernos. Um dos principais representantes do pós-modernismo, James Clifford, na introdução à coletânea Writing Culture (1986), lembra-nos que o poético e o político, o acadêmico e o literário, são inseparáveis e interpenetráveis.

Acredito que toda ficção é atravessada pelo contexto social, histórico e político no qual o autor se localiza: os elementos desse contexto são resignificados e incorporados na ficção. Seja sob a forma de metáforas, ironias, críticas ou assertivas, o social torna-se base estruturante para a ficção, já que é desse lugar - desse contexto - que o autor fala, pois é onde está situado. Mas não foi apenas por acreditar nessa relação mútua entre o poético e o político, entre a arte e a vida, que The well of loneliness foi escolhido. Não deve parecer surpreendente que uma pesquisadora de gênero, no início do século XXI, sinta-se curiosa diante de uma obra publicada há quase um século e apresentada, na sua capa, da seguinte forma: "Denounced, banned, and applauded - the strange love story of a girl who stood midway between the sexes."

Em plena era de discussão cross-sex nas questões de gênero [ver nota 1] (isto é, além dos binarismos homem x mulher e masculino x feminino), essa apresentação ganha um caráter atual. Ainda mais instigante é encontrar, nas primeiras páginas, uma citação de Havelock Ellis: "The relation of certain people - who, while different from their fellow human beings, are sometimes of the highest character and the finest aptitudes - to the often hostile society in which they move, presents difficult and still unsolved problems."

Havelock Ellis, assim como Richard von Krafft-Ebing, faz parte de um grupo de sexólogos cujo discurso vigorava no final do século XIX e início do século XX sobre a homossexualidade enquanto patologia e anomalia. Para Krafft-Ebing, as lésbicas eram, numa relação reflexiva de causa e conseqüência, tipos masculinos e desviantes que ganhavam a classificação de "invertidas":

" The first category of lesbians included women who 'did not betray they anomaly by external appearanceor by mental [masculine] sexual characteristics.' They were, however, responsive to the approaches of women who appeared or actted more masculine. The second classification included women with a 'strong preference for male garments.' These women were the female analogy of effeminate men. By the third stage 'inversion' was 'fully developed, the woman [assuming] a definitely masculine role.' The fourth stage represented 'the extreme grade of degenerative homosexuality. 'The woman of this type', Krafft-Ebing explained, 'possesses of the feminine qualities only the genital organs [ver nota 2]; thought, sentiment, action, even external appearance are those of men.' Not only was the most degenerate lesbian the most masculine, but any gender-crossing or aspiration to male privilege was probably a symptom of lesbianism." (Newton, 1985, p.16, grifos meus) [ver nota 3]

Essa "inversão" feminina é vista por Havelock Ellis como um "degrau" da masculinidade, "parte de um instinto orgânico" (Newton, op. Cit., p.18) [ver nota 4]. E Newton acrescenta que, segundo Ellis, o casal lésbico era construído no modelo heterossexual, sendo composto de um "homem" e uma invertida.

Essa apresentação inicial fez-se necessária para entendermos em que contexto intelectual se encontrava Radclyffe Hall ao criar a protagonista do romance, Stephen Gordon. Ao longo da obra fica explícita a referência teórica de Hall, especialmente pautada em Krafft-Ebing, para o qual a homossexualidade era um processo natural complexo "subjacente à diversidade das experiências individuais e dos efeitos sociais" (Almeida, 1995). Esse discurso, segundo Almeida, "terá minado as tentativas feministas iniciais, declarando que os aspectos da sexualidade masculina e da heterossexualidade, que as feministas viam como sociais e políticos, eram afinal naturais." (p.91)

Quanto ao contexto político, Radclyffe Hall fez parte de uma segunda geração de feministas lésbicas, nascidas nas últimas décadas do século XIX, denominadas "desviantes", num contexto social e histórico pautado no sexo fálico, no ideal vitoriano da mulher passiva e assexuada, confinada à atividade reprodutiva. Radclyffe Hall, por sua vez, era lésbica militante e "tie-wearing" (hábito de vestir-se com roupas masculinas) (Newton, 1995). Ou seja, a autora mesma foi uma então denominada "invertida".

O discurso da "inversão" pregava uma identidade fixa, dada pela natureza, que precisava ser compreendida. Hall defende no livro não apenas a compreensão dessa "condição dada", mas sua aceitação social e o direito à existência dessas "criaturas" inventadas pela natureza, por Deus (Hall era católica), mas negadas pelo mundo (ou seja, pela sociedade fundada e sustentada pela matriz heterossexual). São inúmeras as passagens nas quais a autora fala por si mesma ou através de Stephen Gordon sobre o sofrimento da não-aceitação social, uma "carga" que se carrega sem culpa, já que vê a homossexualidade como "obra da criação divina".

Stephen Gordon é filha única de um casal inglês, economicamente privilegiado, que deseja intensamente um filho do sexo masculino. Frustrados com a vinda de uma menina, a mãe, Anna, "o arquétipo da mulher perfeita, cuja criação Deus achou boa" (Hall, op.cit, p.3), desenvolve uma espécie de aversão pela filha, além de sentir ciúmes da relação da filha com o marido. O pai, Phillip, embora decepcionado, desenvolve um amor excepcional pela filha e pretende oferecer-lhe tudo o que daria ao seu filho "varão", inclusive a oportunidade de estudar, cujo acesso normalmente era vetado às mulheres, pois tratava-se de uma atividade masculina. A semelhança física e comportamental é enorme entre pai e filha, assim como o amor e a compreensão são mútuos [ver nota 5]. No entanto, Stephen descobre no culto ao corpo um objeto de interesse muito maior que o desenvolvimento do intelecto, e dedica-se, na infância e adolescência, intensamente à atividade física. Uma concepção interessante da relação entre atividade física e masculinização da mulher é oferecida pelo sociólogo Pierre Bourdieu (1996):

"A transformação da relação ao corpo que provoca a prática do esporte acompanha-se de uma transformação profunda da sua relação com os homens. A transformação de sua relação subjetiva com seu corpo faz com que [as mulheres] deixem de parecer femininas, quer dizer, disponíveis, ao menos simbolicamente. Sua relação com o corpo se encontra modificada de tal maneira que elas não respondem ao que se espera socialmente de uma mulher." (p.39)

Mas, devido à insistência do pai, Stephen desenvolve também o gosto pelos estudos e chega à idade adulta com um corpo musculoso, uma preferência indiscutível por vestimentas masculinas e intelectualizada. Ou seja, completamente masculinizada.

Na infância Stephen já odeia bonecas e vestidos. Aos sete anos apaixona-se pela criada da casa, Collins, e tem uma crise agressiva de ciúmes. Nessa época identifica-se com os personagens masculinos das histórias infantis: "[...] Yes, of course I'm a boy. I'm young Nelson, and I'm saying: 'What is fear?' you know, Collins - I must be a boy, cause I feel exactly like one, I feel like young Nelson in the pictures upstairs." (Hall, op.cit., p.12)

Ainda não socializada pelo referencial do sexo biológico, Stephen acredita que pode se tornar um garoto, se adotar um comportamento de gênero masculino. " 'Do you think that I could be a man, supposing I thought very hard - or prayed, Father?'" (ibidem, p.19). O pai, por sua vez, parecia influenciar enquanto um agente socializador dessa identidade cross-sex em Stephen, incentivando na filha a incorporação de características entendidas socialmente como masculinas, como a coragem [ver nota 6].

Na juventude Stephen apaixona-se por uma vizinha e conclui que, se ama uma mulher como um homem o faz, é porque ela não é uma mulher. No entanto, durante toda sua trajetória de vida percebe que o corpo musculoso, a intelectualidade, a vestimenta masculina, o cabelo curto [ver nota 7], o dinheiro e o amor por uma mulher não são suficientes para que ela ocupe socialmente uma posição que é "reservada" aos homens. A personagem parece sentir-se condenada por seu sexo biológico a viver num espaço entre categorias, num interstício que ela chama de no-man's land (terra de ninguém). É identificada pelas pessoas como freak, queer (termo apropriado, hoje, politicamente, mas de conotação extremamente pejorativa na época) e bizarre (em português poderíamos traduzir todos esses termos aproximadamente como "estranha"): "a soul that wakes up to find itself wandering, unwanted, between the spheres." (p.30) No ponto de vista das mulheres, Stephen era mulher, mas masculinizada; na perspectiva dos homens, era masculinizada, mas era mulher...

Stephen Gordon parece ter uma verdadeira obsessão por proteger as mulheres pelas quais se apaixona (e aqui lembremos que ela foi sempre incentivada pelo pai a adotar práticas masculinas), mas sofre com o fato de nada garantir-lhe este direito apesar de sua masculinização. Por outro lado, abomina a idéia de se "encaixar" nos padrões de comportamento da época idealizados para as mulheres.

Radclyffe Hall parece reforçar os estereótipos masculinos e femininos em todos os personagens homens e mulheres, respectivamente, quando são heterossexuais. Ou seja, poderíamos dizer que, no discurso da autora, só haveria a possibilidade de crossing-sex para a categoria dos "invertidos" ou "anormais". Quanto aos "normais", as analogias homem=masculino e mulher=feminina são sustentadas. Dessa forma, a subversão de gênero se daria apenas nas prática da homossexualidade, enquanto, nas práticas heterossexuais, as mulheres permanecem inerentemente femininas e os homens, masculinos. Em sua perspectiva parece não haver espaço para relações alternativas de gênero também entre heterossexuais. [ver nota 8]

Dessa forma, Hall colabora para reforçar tanto as dicotomias da matriz heterossexual homem/masculino x mulher/feminina quanto o binarismo hetero/normal x homo/anormal. Na linha de raciocínio de Hall, dentro da categoria heterossexual ou normal, ser homem é análogo a ser masculino, e mulher, a ser feminina. Já na categoria invertido ou anormal, indiscutivelmente o homem é feminino, e a mulher, masculina. Há uma inversão cross-sex, mas esse atravessamento (crossing) não contribui para se pensar categorias alternativas de gênero, e sim para reforçar a criação de uma nova dicotomia, a do "invertido", na qual o homem é necessariamente feminino, e a mulher, masculina.

Na juventude Stephen era cética e, no início, a narrativa por vezes é irônica e resistente ao modelo heterossexual e à moral cristã: "Then the solemn and very ridiculous procession, animals marching into Noah's Ark two by two, very surely of divine protection - male and female created He them!"(p.76)

A autora constrói a narrativa de uma forma a explicitar a revolta de Stephen, na juventude, contra a sociedade, a moral cristã e o preconceito em relação aos invertidos. Aos 21 anos, ela sofre outra forte paixão por Angela, a vizinha, rompe relações com a família, muda-se para Paris e adota oficialmente a profissão de escritora. Nessa época, são as seguintes as palavras de Puddle, a governanta, para Stephen:

"You may write with a curious double insight - write both men and women from a personal knowledge. Nothing's completely misplaced or wasted, I'm sure of that - and we're all part of nature. Some day the world will recognize this, but meanwhile there's plenty of work that's waiting" (p.125)

Entretanto, para si mesma, a governanta confessava seu medo: "Stephen [is] still young and as yet still courageous - but the day would come when her youth would fail, and her courage, because of that endless toiling." (p.225)

Assim sendo, como "previsto" pela governanta, aos 40 anos Stephen chega à conclusão de que não pode vencer o modelo heterossexual. Não desejando então que a jovem Mary (pela qual está apaixonada nesse momento) sofra, prefere vê-la vivendo no "mundo das convenções" (aqui novamente utilizando-me de uma expressão de V. Woolf), o qual poderia oferecer à sua amada a tão almejada aceitação social. Nas palavras de Stephen, para Mary:

"I am one of those whom God marked on the forehead. If you come to me, Mary, the world will abhor you, will persecute you, will call you unclean. [...] (I)n this world there is only toleration for the so-called normal... [...] I cannot protect you, Mary, the world has deprived me of my right to protect..." (p.319)

A história termina com Stephen solitária, após ter simulado um caso com outra mulher para que Mary se casasse com Martin, um amigo que, no passado, havia sido apaixonado por Stephen. Na frustração de Stephen, Martin poderia oferecer à Mary aquilo que ela não poderia: segurança e filhos, ou melhor, casamento e reprodução [ver nota 9]. E reza, pedindo a Deus o direito da existência aos invertidos.

Resumindo, a nossa protagonista rende-se à dupla opressão: a força do esquema social heterossexual patriarcal que atinge sua existência e a crença numa fatalidade da natureza que a destinou à uma terra de ninguém, ou melhor, a um poço de solidão.

"So orderly, placid and safe it seemed, this social scheme evolved from creation; this guarding of two young and ardent lives for the sake of the lives that might follow after. A fruitfeul and peaceful road it must be..." (Hall, op. Cit., p.420)

O romance foi publicado originalmente em 1928, num momento histórico e político em que a família nuclear burguesa já era o modelo difundido e as convenções ainda deviam ser rigidamente respeitadas. Embora sustente dicotomias e estereótipos no que se refere ao gênero e represente a homossexualidade como um destino fatalmente solitário, a autora oferece sua contribuição: um confronto público com o modelo heterossexual enquanto referencial único da sexualidade, através da ficção.


BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, Miguel Vale de. Senhores de si. Lisboa: Fim de século, 1995.

BELL, Quentin. Virginia Woolf: a biography. Frogmore: Paladin, 1979.

BOURDIEU, Pierre. "Novas reflexões sobre a dominação masculina". In: LOPES, M. J. (org.) Gênero e saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

BUTLER, Judith. Gender Trouble. N.Y.: Routledge, 1990.

CLIFFORD, James. "Introduction: partial truths". In: Writing Culture. Berkeley: Univ. California Press, 1986.

GALVÃO, Walnice N. Gatos de outro saco. S.P.: Brasiliense, 1981.

HALL, Radclyffe. The Well of Loneliness. N.Y.: Permabooks, 1951 [1928].

NEWTON, Esther. "The Mythic Mannish Lesbian: Radclyffe Hall and the New Women". In: The Lesbian Issue: essays from SIGNS. Chicago: Univ. Chicago Press, 1985.

SOUZA, Érica Renata de. Questões de gênero na infância e na escola. Campinas, 1999. 212p. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP.

STRATHERN, Marilyn. The gender of the gift. Berkeley: Univ. California Press, 1988. Capítulos 1, 2 e 3.

WOOLF, Virgínia. Cartas íntimas à Vita Sackeville-West. Coleção Colares Literatura. Tradução de Ana Fontes. Sintra, Portugal: Colares Editora, 1994.


NOTAS:

1 - Refiro-me especialmente às produções de Marilyn Strathern e Judith Butler.

2 - Nas discussões atuais poderíamos dizer que esse "tipo" de mulher que Krafft-Ebing tenta descrever teria o sexo feminino e o gênero masculino.

3 - Citações e referências de Krafft-Ebing utilizadas por Newton: in Krafft-Ebing. Psychopathia Sexualis, 1886.

4 - Referências a Ellis: "Sexual Inversion in Women". Alienist and Neurologist 16, 1895.

5 - Aqui poderíamos citar o discurso freudiano do Complexo de Electra, mas parece-me igualmente interessante citar o pacto da Donzela Guerreira, no qual " o compromisso entre uma jovem e seu pai de não se tornar mulher..." (Galvão, 1981, p.22). Galvão está referindo-se ao mito de Zeus e Palas Atena: a filha nasce da cabeça do pai [o que me faz lembrar Eva que nasceu de Adão...], ou seja, o homem reproduz sem nenhuma mulher. Em contrapartida, a filha nunca poderá "tornar-se mulher", ou seja, ter relações sexuais com um homem.

6 - Mais sobre o assunto, ver SOUZA (1999).

7 - Interessante analisarmos o significado do cabelo curto. Segundo NEWTON (1995), para as feministas lésbicas cuja geração Hall pertence, cortar o cabelo tinha implicações práticas e simbólicas: "(i)t was never a neutral act." (nota da página 20). Mas Galvão (1981) apresenta uma análise interessante também: " todo pêlo corporal não deixa de ser uma reminiscência do animal em nós... [...] Assim, o corte do cabelo poderia representar ainda um sacrifício da animalidade, da instintividade, da sexualidade." (p.28). Poderíamos então pensar numa equação cabelo comprido - natureza - mulher. Em outras palavras, o corte do cabelo significaria para a mulher uma ruptura com a natureza (à qual é associada em oposição à associação homem - cultura.)

8 - Ver BUTLER (1990); SOUZA (1999).

9 - Notar aqui como a questão da reprodução também é invertida: Stephen sente inveja do homem que pode dar filhos à Mary. A ênfase na reprodução, nesse caso, é no homem.