Resenha: Transformações da homossexualidade

Marko Monteiro (markosy@uol.com.br)

(Campinas, 1997)

 

- FRY, Peter. Para Inglês Ver: Identidade e Política na Cultura Brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

- MACRAE, Edward. A Construção da Igualdade: Identidade Sexual e Política no Brasil da Abertura. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1990.

 

O argumento principal de Peter Fry nesse livro, no que diz respeito à suas discussões obre homossexualidade, gira em torno dos sistemas de classificação, ou taxonomias, utilizados para definir as práticas sexuais. Para ele, tais sistemas não representam uma natureza ou essência do indivíduo, mas são construções históricas e sociais, que permitem que um mesmo conjunto de práticas tenha significados e representações diferentes em culturas diversas e períodos históricos específicos. Ele faz essa constatação comparando as classificações usadas em Belém, no Pará (onde ele fez trabalho de campo) e nas grandes metrópoles brasileiras, especialmente entre as classes médias.

Para Fry, as identidades sexuais-afetivas são construídas em torno de quatro elementos:

a) o sexo fisiológico;

b) os papéis de gênero (associados ao sexo fisiológico);

c) o comportamento sexual (referente ao ato sexual propriamente dito. Fry utilizará a dicotomia ativo/passivo);

d) o que Fry chama "orientação sexual", que pode segundo ele ser hetero-, homo-, ou bissexual. Não podemos confundir esses termos do autor, que são utilizados de forma pretensamente 'neutra' para designar o objeto de desejo da pessoa, com os termos heterossexual e homossexual da medicina, por exemplo.

A partir desses quatro elementos, Fry tentará analisar dois esquemas de classificação e representação da sexualidade masculina: o sistema hierárquico e o sistema simétrico, segundo o autor. O sistema hierárquico para Fry seria bastante generalizado no Brasil, principalmente entre as camadas mais baixas e nas regiões Norte-Nordeste do país. De acordo com o esquema por ele elaborado, podemos dividir os homens, ou machos (sexo fisiológico) em duas categorias: "homens" e "bichas".

 

Tabela 1.

  sexo fisiológico papel de gênero comportamento sexual orientação sexual
homem macho masculino ativo heterossexual e homossexual
bicha macho feminino passivo homossexual

 

Chamamos esse sistema de hierárquico porque a relação sexual se dá entre não iguais: o "homem" penetra e domina a "bicha", que é passiva, dominada. O ser que penetra é o masculino, dominante, enquanto que o ser penetrado é efeminado, dominado, inferior. O "homem" pode ter relações com outros machos "bichas" sem perder seu status de "homem". O que diferencia ambos é o papel masculino ou feminino, ativo ou passivo.

Fry relaciona este sistema hierárquico com setores "tradicionais" do Brasil, onde a hierarquia é um fator importante de organização social e onde o papel predominante cabe ao "homem".

O sistema simétrico, ou igualitário, segundo Fry, surge nas camadas médias urbanas em grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. De fato, a consolidação desse sistema classificatório coincide e se cristaliza no processo de consolidação dessas classes como tal, enquanto elas buscam um papel predominante na sociedade.

O personagem que simboliza esse sistema é o "entendido", análogo ao "gay" norte-americano. O "entendido"mantém relações homoeróticas com outros "entendidos", daí o nome desse sistema de classificação como igualitário ou simétrico. Não há mais hierarquia nas relações entre homens, e diversas novas figuras surgem no cenário sexual.

 

Tabela 2.

  sexo fisiológico papel de gênero comportamento sexual orientação sexual
heterossexual macho masculino ativo heterossexual
homossexual macho masculino ou feminino ativo ou passivo homossexual
bissexual macho masculino ou feminino ativo ou passivo hetero ou homossexual

 

Como percebemos pela tabela acima, o único fator de diferenciação agora é a 'orientação sexual', ou o parceiro desejado. Um homem define a sua sexualidade a partir do parceiro da relação sexual, e isto se torna uma condição, uma essência.

Fry nos lembra a formação da condição homossexual nos discursos da medicina e da psicologia, que naturalizou o homossexual. No século XIX, o homossexual era visto como invertido, patológico, aberração passível de cura. No século XX, principalmente depois de 1960, as subculturas homossexuais nos EUA e Europa lutaram por maiores direitos e, retomando o discurso médico, reivindicavam uma essência homossexual e não patológica.

Os movimentos de homossexuais organizados no Brasil, principalmente no decorrer das décadas de 70 e 80, utilizavam o discurso de seus pares do Norte e reivindicavam uma condição homossexual. Mas isso não se constituiu em mera dependência cultural. No Brasil esses movimentos ocorreram no eclipse do regime militar, e a ênfase na igualdade entre os parceiros foi vital. Esses movimentos ocorreram no seio da emrgente classe média urbana, fortalecida após as mudanças econômicas do "milagre". Os movimentos homossexuais se associaram a outros movimentos urbanos como o feminista e o negro. Todos reivindicavam a igualdade enquanto valor básico nas relações interpessoais, e se associavam ao movimento mais amplo de redemocratização do país, constituindo-se nos setores mais 'progressistas' nesse sentido. Esses movimentos, segundo Fry, fizeram parte da experiência de formação das classes médias urbanas e, na medida em que tentava recrutar e cooptar classes mais baixas, assegurava sua hegemonia sobre elas.

Os dois sistemas coexistem no Brasil, dependendo do contexto social em questão. A tendência "ideal" (no sentido de tipo-ideal de Max Weber) seria a progressiva substituição do modelo hierárquico pelo modelo simétrico.

Gostaria de fazer uma pequena crítica, seguindo o antropólogo Adam Kuper (The Invention of Primitive Society), à leitura de Fry. Ele deixa implícito um grande sistema de oposições binárias (o próprio autor relaciona sua análise à antropologia estrutural), algo que já é em si questionável, e deixa abertura para leituras do tipo: o modelo hierárquico seria "tradicional", "primitivo", enquanto o simétrico seria "moderno", etc. Ele infere mesmo que existem oposições do tipo racional/irracional, tradicional/moderno, objetivo/subjetivo. E como ele relaciona toda sua análise no campo da sexualidade a uma visão mais global da sociedade, parece-me que ele se pauta dessa visão do social. Vejo as críticas de Adam Kuper nesse sentido muito esclarecedoras, e deixo aqui a minha dúvida quanto ao assunto.

* * *

MacRae segue no campo discursivo de Fry ao escrever sobre o grupo SOMOS, de São Paulo. Compreendemos melhor o trabalho de MacRae à luz de Fry, pois o primeiro percorre muitos dos mesmos caminhos do último. Fry nos permite uma visão mais abrangente das transformações ocorridas anível da representação da sexualidade masculina, a nível nacional (graças, claro, ao seu trabalho de campo em Belém). Não que eu endosse essa construção ideológica de "cultura brasileira", que serve de premissa para tantos trabalhos. Mas acho que Fry acerta ao relacionar os movimentos libertários de "minorias" com o próprio surgimento das classes médias urbanas, como parte constitutiva dessa experiência de formação. E Fry situa bem este processo, no eixo RJ-SP, sempre em relação a um contexto cultural bem mais amplo. No seu prefácio à obra de MacRae, Fry retoma os pontos discutidos em Para Inglês Ver e lembra, a meu ver com muita razão, este contexto mais amplo. Isso quer dizer, os inimigos dos movimentos homossexual, negro e feminista eram difusos, diferentes do contexto norte-americano (que norteavam as palavras de ordem destes movimentos).

Em alguns casos, especialmente com respeito ao movimento homossexual, o inimigo teve que ser inventado. Diferentemente dos movimentos negro e feminista, que já tinham uma longa história de lutas no Brasil. Isso se relaciona com o surgimento do modelo simétrico de classificação, discutido anteriormente.